Passagens de Joaquim Pessoa

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Nenhuma Morte Apagar√° os Beijos

Nenhuma morte apagar√° os beijos
e por dentro das casas onde nos am√°mos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estar√£o para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada

desvender√° em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paix√£o os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

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Tens de levantar a cabe√ßa do microsc√≥pio. J√° chega de observar uma realidade min√ļscula que a simples utiliza√ß√£o dos olhos n√£o reconhece.

O Amor √©…

O amor √© o in√≠cio. O amor √© o meio. O amor √© o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor √© um pr√©mio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor √© um farol e um naufr√°gio. O amor √© alegria. O amor √© tristeza. √Č ci√ļme, orgasmo, √™xtase. O n√≥s, o outro, a ci√™ncia da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor √© uma inquieta√ß√£o, uma esperan√ßa, uma certeza, uma d√ļvida. O amor d√°-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso.

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Viver √©…

Viver √© uma perip√©cia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o √Ęnimo e o des√Ęnimo, um entusiasmo ora doce, ora din√Ęmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital.

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√Čs Linda

√Čs linda. E nem sabes quantos peda√ßos de beleza tive de juntar para chegar a esta conclus√£o. Para te construir, tive de misturar a conspira√ß√£o das searas com a tristeza do choupo, a inquieta√ß√£o da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos mios√≥tis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paci√™ncia das casas √† beira da fal√©sia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem √† lua. Acrescentei-lhe a can√ß√£o das margens e pequenos peda√ßos da ang√ļstia do olhar. N√£o esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o cora√ß√£o dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus m√ļsculos prometi a viol√™ncia das cascatas, no teu sexo acordei a mem√≥ria do universo.
A tua beleza est√° no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. √Čs linda, repito. Mas tenta n√£o encarar o que te digo como um elogio.

Atreve-te a Julgar

Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo. A natureza das coisas √© a tua natureza. Respira-te, despe-te, faz amor com as tuas convic√ß√Ķes, n√£o te limites a sorrir quando n√£o sabes o que dizer. Os teus dentes est√£o lavados, as tuas m√£os s√£o am√°veis, mas falta-te decis√£o nos passos e firmeza nos gestos. Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a voracidade do tempo. Faz as coisas com paix√£o. Uma paix√£o irrequieta, que n√£o te d√™ descanso e te fa√ßa doer a respira√ß√£o. Aspira o ar, bebe-o com for√ßa, √© teu, nem um c√™ntimo pagar√°s por ele.

Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua seguran√ßa, o teu destino. Sou a ma√ß√£ que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recorda√ß√£o, a tua vontade. E tamb√©m o artes√£o que para ti trabalha, o medo que te perturba e o c√£o que te guia quando entras pela noite. Sou o s√≠tio onde descansas, a √°rvore que te d√° sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu esp√≠rito, o teu brilho, a tua d√ļvida. Sou a tua m√£e, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua l√°pide. Os teus vinte anos. O cora√ß√£o sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o rel√≥gio que mede o tempo que te resta. Sou a tua mem√≥ria, a mem√≥ria da tua mem√≥ria,

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A Tua Boca

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um t√ļnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de √°gua
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Os Amantes com Casa

Andavam pela casa amando-se
no ch√£o e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no ch√£o e contra as paredes.
Ent√£o era a m√ļsica, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas m√£os
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no ch√£o.
Se mais n√£o pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no ch√£o
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.

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As Tuas L√°grimas

As tuas lágrimas respiram e florescem, o lugar onde te sentas é o rio que corre em sobressalto por dentro de uma árvore, seiva renovada que transporta palavras até às folhas felizes de~um amor demorado e ainda puro. E essa ávore fala através das tuas palavras, demora-se em conversas com as abelhas, com os gaios, com o vento.
As tuas l√°grimas iluminam as p√°ginas alucinadas dos livros de poesia, e as mesas claras t√£o cheias de frutos que se assemelham a fogueiras ruivas, alimento privilegiado de um imenso e intenso drag√£o que me aquece o sangue.
As tuas lágrimas transbordam os grandes lagos dos meus olhos e eu choro contigo os grandes peixes da ternura, esses mesmos peixes que são os arquitectos perturbados de uma relação sem tempo mas alimentada por primaveras que de tão altas são inquestionáveis.
As tuas l√°grimas fertilizam as searas celestes, arrefecem o movimento dos vulc√Ķes, absorvem toda a beleza do arco-√≠ris, embebedam-se com a do√ßura das estrelas. E s√£o oferendas √† m√£e terra, o reconhecimento final do princ√≠pio do nosso pequeno mundo. As tuas l√°grimas s√£o minhas amigas. S√£o as minhas l√°grimas. A forma de chorar-te cheio de alegria, ferido por esta felicidade de amar-te muito,

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Canção de Amor

Eu cantaria mesmo que tu n√£o existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu n√£o existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu n√£o existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu n√£o existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

Não podemos esperar nada de quem nada quer da vida. Mais escuro do que o preto é impossível. Isso é bastante claro.