Passagens sobre Dois

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Frases sobre dois, poemas sobre dois e outras passagens sobre dois para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Queixam-se Todos os Defuntos

Nós, abaixo assinados pela terra,
clamamos, de que em tanta mortandade
não tenha entrado Médico, nem Frade;
e que só faça a morte aos pobres guerra!

Dir√° a morte que pouco ou nada erra,
em desviar de toda a enfermidade
a dois que s√£o da sua faculdade;
porque o Médico mata e o Frade enterra.

Replicamos: que as tumbas com frequências,
andam c√° por estreitos pecadores,
sem subirem às largas consciências.

Dirá também que os tais são matadores;
e é preciso que tenha dependências
a morte com Ministros e Senhores.

[Queixam-se todos os defuntos, que houve na epidemia que padeceu Lisboa, no ano de 1723]

O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam uma à outra é o sentimento de solidão.

Preciso de Ti

Antes de come√ßar… Acabei de suplicar dez minutos para este bilhete… Terrivelmente, terrivelmente vivo, dorido, e sentindo absolutamente que preciso de ti. Permiti o sil√™ncio deliberadamente, sentindo uma grande necessidade de me retirar em mim mesmo, para escrever, e mil coisas prevalecendo.

Mudei para outra m√°quina, assustadora; a m√°quina francesa… maldita, e eu b√™bedo com o desejo de te escrever. Ouve, ligo-te de manh√£: esta noite ou escrevo ou rebento, mas tenho de te ver. Vejo-te brilhante e maravilhosa e ao mesmo tempo tenho estado a escrever √† June e todo dividido mas tu compreender√°s ‚ÄĒ tens de compreender. Vou atirar-me a uma pausa e fa√ßo uma chamada. Anais, apoia-me. N√£o deixes que os sil√™ncios te preocupem: est√°s toda √† minha volta como uma chama clara. Nada a n√£o ser dois pontos, n√£o encontro o ponto nem os ap√≥strofos. Nenhuma c√≥pia disto tamb√©m: √≥ptimo: b√™bedo… b√™bedo de vida… Anais, por Cristo: se tu soubesses o que estou a sentir agora.

Isto foi [escrito] ao chegar [ao escrit√≥rio]. Agora 3h20 da manh√£ no quarto do Fred… Toda a for√ßa desaparecida e destru√≠da por imagens. O Fred est√° na cama com a Gaby do chambre 48. Est√° deitada como um cad√°ver.

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Somos Irracionais

No meu tempo de escola prim√°ria, algumas cr√©dulas e ing√©nuas pessoas, a quem d√°vamos o respeitoso nome de mestres, ensinaram-me que o homem, al√©m de ser um animal racional, era, tamb√©m, por gra√ßa particular de Deus, o √ļnico que de tal fortuna se podia gabar. Ora, sendo as primeiras li√ß√Ķes aquelas que mais perduram no nosso esp√≠rito, ainda que, muitas vezes, ao longo da vida, julguemos t√™-las esquecido, vivi durante muitos anos aferrado √† cren√ßa de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradi√ß√Ķes, esta esp√©cie de que fa√ßo parte usava a cabe√ßa como aposento e escrit√≥rio da raz√£o. Certo era que o pintor Goya, surdo e s√°bio, me protestava que √© no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, n√£o podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal s√≥ acontecia quando a raz√£o, pobrezinha, cansada da obriga√ß√£o de ser razon√°vel, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si pr√≥pria. Chegado agora a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a raz√£o, no homem, n√£o faz sen√£o dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, √©, tamb√©m indubitavelmente, o mais irracional de todos eles.

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Controlar a Ira

Se deste vaz√£o √† ira, fica certo de que, al√©m do mal nela impl√≠cito, revigoraste o h√°bito e acrescentaste lenha √† fogueira. Quando √©s vencido por uma tenta√ß√£o da carne, n√£o consideres isso simples derrota: considera, tamb√©m, que revigoraste os teus h√°bitos dissolutos. Os h√°bitos e as faculdades s√£o necessariamente afectados pelos actos correspondentes. Os que antes n√£o existiam, agora aparecem; os demais cobram vigor e dom√≠nio. Esta √© a vers√£o que os Fil√≥sofos d√£o das mol√©stias da mente: sup√Ķe que algum dia cobi√ßaste ter dinheiro: se a raz√£o, em dose suficiente para provocar a consci√™ncia do mal, intervir, a cobi√ßa √© anulada e a mente recupera imediatamente a sua autoridade original; contudo, se n√£o recorreres a nenhum rem√©dio, jamais poder√°s esperar tal recupera√ß√£o; ao contr√°rio, a pr√≥xima vez em que for excitada pelo objecto correspondente, a chama do desejo irromper√° mais prontamente do que antes. Pela frequ√™ncia da repeti√ß√£o, a mente, ao fim e ao cabo, fica calejada e, assim, esta mol√©stia mental produz Avareza confirmada.
Quando algu√©m teve febre, mesmo depois de voltar √† normalidade, n√£o se encontra nas mesmas condi√ß√Ķes de sa√ļde que antes, a menos que a sua cura seja completa. Algo de semelhante ocorre com as mol√©stias da mente.

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O pensador lan√ßa-se √† tarefa de desembara√ßar o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta, mostrando como todo o fio n√£o √© mais do que a liga√ß√£o entre dois extremos, o da eternidade e o do tempo, o da subst√Ęncia e o do acidente, o de Deus e o do homem. E neste trabalho de desenrolar o novelo se lhe vai a vida.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

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Amar Alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho Рmas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

Amar √© um casamento de solid√Ķes que, gozando o prazer da juntid√£o, mesmo assim n√£o prescinde dos prazeres de duas solid√Ķes juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

Amar e ser amado √© a melhor sorte que se pode ter. N√£o s√£o milagres que aconte√ßam por acaso. √Č preciso trabalhar com leviandade – por muito cheio de amor que o cora√ß√£o esteja – para que esses milagres, fac√≠limos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

Amar alguém é um baluarte contra o mundo,

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As Saudades que Sinto de Ti

Meu Bebé, meu Bebezinho querido:

Sem saber quando te entregarei esta carta, estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudan√ßa de amanh√£ de manh√£. Estou outra vez mal da garganta; est√° um dia de chuva; estou longe de ti ‚ÄĒ e √© isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspectiva da ma√ßada da mudan√ßa amanh√£, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde n√£o est√° absolutamente ningu√©m. Naturalmente (a n√£o ser que esteja j√° inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo, o que fa√ßo √© ir pedir guarida c√° na Baixa ao Marianno Sant‚ÄôAnna, que, al√©m de ma dar de bom grado, me trata da garganta com compet√™ncia, como fez no dia 19 deste m√™s quando eu tive a outra angina.

N√£o imaginas as saudades de ti que sinto nestas ocasi√Ķes de doen√ßa, de abatimento e de tristeza. O outro dia, quando falei contigo a prop√≥sito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com raz√£o) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de sa√ļde, pouco te rales com o que os outros sofrem,

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A pobreza é indispensável à riqueza, a riqueza é necessária à pobreza. Esses dois males engendram-se um ao outro e sustentam-se um ao outro. O que é preciso não é melhorar a condição dos pobres, mas acabar com ela.

Soneto 351 K√°rmico

Quinhentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
perfazem as sonatas de Scarlatti.
Nivelam-se, em altíssimo quilate,
à Nona, à Mona Lisa, qualquer dessas.

Farei tantos sonetos? Não mo peças!
√Č meta muito herc√ļlea para um vate!
Recorde desse porte n√£o se bate:
no máximo se iguala, e nunca às pressas.

J√° fiz mais que Cam√Ķes, mais que Petrarca:
dois, dois, dois; três, três, três; de pouco em pouco,
que a lira tamb√©m broxa… √Č porca. √Č parca.

Poeta que for cego, mudo ou mouco
compensa a privação com a fuzarca:
diverte-se sofrendo. √Č glauco. √Č louco.

Considera√ß√Ķes Sobre a Amizade

√Č a insufici√™ncia do nosso ser que faz nascer a amizade, e √© a insufici√™ncia da pr√≥pria amizade que a faz perecer. Est√°-se sozinho, sente-se a pr√≥pria mis√©ria, sente-se necessidade de apoio, procura-se quem lhe favore√ßa os gostos, um companheiro nos prazeres e nos pesares; quer-se um homem de quem se possa possuir o cora√ß√£o e o pensamento. Ent√£o a amizade parece ser o que de mais doce h√° no mundo; tem-se o que se desejou, logo se muda de ideia. Quando se v√™ de longe algum bem, ele fixa de in√≠cio os nossos desejos, e quando se chega a ele, sente-se o seu nada. A nossa alma, de que ele prendia a vista na dist√Ęncia, n√£o pode repousar-se nele quando v√™ mais adiante: assim a amizade, que de longe limitava todas as nossas pretens√Ķes, cessa de limit√°-las de perto; n√£o preenche o vazio que prometera preencher; deixa-nos necessidades que nos distraem e nos levam a outros bens.
Ent√£o a gente torna-se negligente, dif√≠cil, exige-se logo como um tributo as complac√™ncias que de in√≠cio eram recebidas como um dom. √Č do car√°cter dos homens apropriar-se a pouco e pouco at√© das gra√ßas de que beneficiam; uma longa posse acostuma-os naturalmente a olhar as coisas que possuem como sendo deles;

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Mais uma vez ou duas na vida Рtalvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer Рteria sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era realmente imortal para todo o sempre.

A perman√™ncia √© uma ilus√£o. Somente a mudan√ßa √© real. √Č imposs√≠vel pisar duas vezes no mesmo rio.

O Monstro Incompreensível

√Č perigoso mostrar ao homem at√© que ponto se assemelha aos animais sem lhe mostrar a sua grandeza. Tamb√©m √© perigoso mostrar-lhe muito a grandeza sem a baixeza. √Č ainda mais perigoso deix√°-lo ignorar uma e outra. Mas √© muito vantajoso representar-lhe as duas.
O homem não é anjo nem besta, e por desgraça quem quer ser anjo acaba por ser besta.
Se se exalta, humilho-o; se ele se humilha, exalto-o: e contradigo-o sempre, até que ele compreenda que é um monstro incompreensível.
Condeno igualmente os que tomam o partido de louvar o homem, e os que tomam de o condenar, e os que tomam o de se divertir; e n√£o posso aprovar sen√£o aqueles que buscam gemendo.

Velho Cego, Choravas

Velho cego, choravas quando a tua vida
era boa, e tinhas em teus olhos o sol:
mas se tens já o silêncio, o que é que tu esperas,
o que é que esperas, cego, que esperas da dor?

No teu canto pareces um menino que nascera
sem pés para a terra e sem olhos para o mar
como os das bestas que por dentro da noite cega
– sem dia ou crep√ļsculo – se cansam de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
em dois ou três minutos até à vida nova,
velho cego, que esperas, que podes esperar?

Se pela mais torpe amargura do destino,
animal velho e cego, n√£o sabes o caminho,
eu que tenho dois olhos to posso ensinar.

Tradução de Rui Lage