Textos sobre √Āgua

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Textos de água escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Como a água, quanto mais elevado o bem, mais benefícios espalha

Como a água, quanto mais elevado o bem, mais benefícios espalha, e contudo penetra em lugares escuros que os homens desprezam.

Prazer Convicto ou sem Domínio

Quem age em vista do prazer e o persegue, por convic√ß√£o e decis√£o, parece ser melhor do que quem n√£o age por c√°lculo, mas por falta de dom√≠nio. Ou seja, o primeiro parece poder ser mais facilmente corrigido, porque pode ser convencido a alterar as suas convic√ß√Ķes. Na verdade, o prov√©rbio: ¬ęSe a √°gua √© capaz de sufocar, porque a bebemos?¬Ľ parece poder aplicar-se a quem n√£o se domina.
Se alguém age por ter sido convencido a fazer o que faz, deixará de o fazer se for convencido de outro modo. Contudo, estando ele agora convencido de que deve fazer uma coisa, ainda assim fará uma coisa diferente. Ainda, se perda de domínio e o autodomínio podem ser ditos a respeito de tudo na existência, quem é que existe com uma absoluta falta de domínio? Porque ninguém perde o domínio a respeito de tudo. Contudo, dizemos de alguns que têm uma falta de domínio absoluta.

A Esperança da Humanidade

A vida política, porém, veio como um trovão desviar-me dos meus trabalhos. Regressei uma vez mais à multidão.
A multidão humana foi a maior lição da minha vida. Posso chegar a ela com a inerente timidez do poeta, com o receio do tímido; mas, uma vez no seu seio, sinto-me transfigurado. Sou parte da essencial maioria, sou mais uma folha da grande árvore humana.

Solid√£o e multid√£o continuar√£o a ser deveres elementares do poeta do nosso tempo. Na solid√£o, a minha vida enriqueceu-se com a batalha da ondula√ß√£o no litoral chileno. Intrigaram-me e apaixonaram-me as √°guas combatentes e os penhascos combatidos, a multiplica√ß√£o da vida oce√Ęnica, a impec√°vel forma√ß√£o dos ¬ęp√°ssaros errantes¬Ľ, o esplendor da espuma mar√≠tima.

Mas aprendi muito mais com a grande maré das vidas, com a ternura vista em milhares de olhos que me viam ao mesmo tempo. Pode esta mensagem não ser possível a todos os poetas, mas quem a tenha sentido guardá-la-á no coração, desenvolvendo-a na sua obra.
√Č memor√°vel e desvanecedor para o poeta ter encarnado para muitos homens, durante um minuto, a esperan√ßa.

As L√°grimas e os Homens

Vede que misteriosamente puseram as l√°grimas nos olhos a Natureza, a Justi√ßa, a Raz√£o, a Gra√ßa. A Natureza para rem√©dio; a Justi√ßa para castigo; a Raz√£o para arrependimento; a Gra√ßa para triunfo. Como pelos olhos se contrai a m√°cula do pecado, p√īs a Natureza nos olhos as l√°grimas, para que com aquela √°gua se lavassem as manchas: como pelos olhos se admite a culpa, p√īs a Justi√ßa nos olhos as l√°grimas para que estivesse o supl√≠cio no mesmo lugar do delito: como pelos olhos se concebe a ofensa, p√īs a Raz√£o nos olhos as l√°grimas, para que onde se fundiu a ingratid√£o, a desfizesse o arrependimento: e como pelos olhos entram os inimigos √† alma, p√īs a Gra√ßa nos olhos as l√°grimas, para que pelas mesmas brechas onde entraram vencedores, os fizesse sair correndo. Entrou Jonas pela boca da baleia pecador; sa√≠a Jonas pela boca da baleia arrependido. Raz√£o √© logo e Justi√ßa, e n√£o s√≥ Gra√ßa, sen√£o Natureza, que pois os olhos s√£o a fonte universal de todos os pecados, sejam os rios de suas l√°grimas a satisfa√ß√£o tamb√©m universal de todos; e que paguem os olhos por todos chorando, j√° que pecaram em todos vendo: Quo fonte manavit nefas,

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O Homem Honroso

O homem honroso d√° aten√ß√£o especial a nove coisas. Dedica-se a ver bem o que olha, a ouvir bem o que escuta; cuida para ter uma apar√™ncia af√°vel, para ter uma atitude deferente, para ser sincero nas suas palavras, para ser diligente nas suas ac√ß√Ķes; no meio das suas d√ļvidas, tem o cuidado de interrogar; quando est√° descontente, pensa nas consequ√™ncias desastrosas da c√≥lera; frente a um bem a obter, lembra-se da justi√ßa.
(…) Buscar o bem, como se tem√™ssemos n√£o conseguir alcan√ß√°-lo; evitar o mal, como se tiv√©ssemos enfiado a m√£o na √°gua fervente; √© um princ√≠pio que eu vi ser posto em pr√°tica e que aprendi. Viver isolado na busca do seu ideal, praticar a justi√ßa, a fim de realizar a sua Via, √© um princ√≠pio que aprendi, mas ainda n√£o vi ningu√©m segui-lo.

Como Provar a Vida

Com a idade, como castigo dos excessos da juventude mas tamb√©m como consola√ß√£o, come√ßa-se a provar as coisas que dantes se consumiam sem pensar. At√© quase morrer de uma hepatite alc√≥olica eu bebia ¬ęwhiskey¬Ľ como se fosse √°gua: o ¬ęuisce beatha¬Ľ ga√©lico; a √°gua da vida. Agora, com o f√≠gado restaurado por anos de abstin√™ncia, apenas provo.
Suspeito que seja assim com todos os prazeres – at√© o de acordar bem disposto ou passar um dia sem dores ou respirar como se quer ou n√£o precisar de mais ningu√©m para funcionar. Parecem prazeres pequenos quando ainda temos prazeres maiores com os quais podemos compar√°-los. Mas tornam-se prazeres enormes quando s√£o os √ļnicos de que somos capazes.
Sei que a √ļltima felicidade de todos n√≥s ser√° repararmos no √ļltimo momento em que conseguimos provar a vida que vivemos e ach√°-la – n√£o tanto apesar como por causa de tudo – boa.

Em que Medida o Homem Activo é Preguiçoso

Creio que cada um deve ter uma opini√£o pr√≥pria sobre todas as coisas, acerca das quais s√£o poss√≠veis opini√Ķes, porque ele mesmo √© uma coisa singular, √ļnica, que ocupa uma posi√ß√£o nova, nunca vista, em rela√ß√£o a todas as outras coisas. Mas a pregui√ßa, que jaz no fundo da alma do homem activo, impede-o de tirar √°gua do seu pr√≥prio po√ßo. Com a liberdade das opini√Ķes passa-se o mesmo que com a sa√ļde: ambas s√£o individuais, nem de uma nem de outra se pode formular um conceito universalmente v√°lido. Aquilo de que um indiv√≠duo necessita para a sua sa√ļde j√° √© motivo de doen√ßa para outro, e muitos caminhos e meios para se chegar √† liberdade de esp√≠rito podem ser considerados por naturezas superiormente desenvolvidas como caminhos e meios que afastam da liberdade.

O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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As Três Espécies de Portugueses

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro √© o portugu√™s que o n√£o √©. Come√ßou com a invas√£o mental estrangeira, que data, com verdade poss√≠vel, do tempo do Marqu√™s de Pombal. Esta invas√£o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep√ļblica. Este portugu√™s (que √© o que forma grande parte das classes m√©dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) √© o que governa o pa√≠s. Est√° completamente divorciado do pa√≠s que governa. √Č, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, √© est√ļpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas,

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Sábado é a Rosa da Semana

Acho que s√°bado √© a rosa da semana; s√°bado de tarde a casa √© feita de cortinas ao vento, e algu√©m despeja um balde de √°gua no terra√ßo; s√°bado ao vento √© a rosa da semana; s√°bado de manh√£, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilh√£o em mim perdido: outras abelhas farejar√£o e no outro s√°bado de manh√£ vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No s√°bado √© que as formigas subiam pela pedra. Foi num s√°bado que vi um homem sentado na sombra da cal√ßada comendo de uma cuia de carne-seca e pir√£o; n√≥s j√° t√≠nhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matin√™ de cinema: ao vento s√°bado era a rosa de nossa semana. Se chovia s√≥ eu sabia que era s√°bado; uma rosa molhada, n√£o √©? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esfor√ßo met√°lico a semana se abre em rosa: o carro freia de s√ļbito e, antes do vento espantado poder recome√ßar, vejo que √© s√°bado de tarde. Tem sido s√°bado, mas j√° n√£o me perguntam mais. Mas j√° peguei as minhas coisas e fui para domingo de manh√£.

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√Čs como o Ar que Respiro

Qual √© a for√ßa extraordin√°ria que possuis? ‚ÄĒ pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou tr√™s princ√≠pios crist√£os inabal√°veis ‚ÄĒ e por tr√°s milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os p√°ssaros aquecem o ninho. Sua vida d√° luz, para alumiar os outros. Foi assim com t√£o pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com sil√™ncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos √°geis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres t√™em cumprido a vida em sil√™ncio, aceitando-a sem exageros. Nas m√£os das mulheres at√© as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o p√£o, lan√ßar a teia ‚ÄĒ assumem um car√°cter sagrado. Elas passam desconhecidas e disp√Ķem dum poder extraordin√°rio. Mant√™em a vida ordenada com um sorriso t√≠mido. A mulher est√° mais perto que n√≥s da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que h√° de puro em mim a ti o devo.

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Fartamo-nos Sempre dos Pesadelos dos Outros

Fartamo-nos sempre dos pesadelos dos outros e dos gritos no quarto ao lado pela madrugada, sejam de quem forem. Conseguimos ouvir durante um tempo, segurar na m√£o, esquecer as horas, oferecer um calmante, um copo de √°gua; mas, se queremos realmente continuar a viver de verdade, n√£o temos rem√©dio sen√£o acabar por colocar qualquer tipo de barreira a tudo isso, tapar os ouvidos e, seja como for, alhear-nos. Fugir dali, deixando a s√≥s quem geme. √Č como abandonar um ferido na valeta quando o inimigo se aproxima a passos largos e n√£o faz sentido correr o risco de ficar a contempl√°-lo a esvair-se em sangue.

Os √önicos Casamentos Felizes

√Č evidente que os √ļnicos casamentos felizes s√£o os de conveni√™ncia, funcionam √†s mil maravilhas, sem conflitos, porque cada um sabe que a realiza√ß√£o das suas ambi√ß√Ķes depende da alian√ßa com o outro. D√° gosto ver como trabalham em equipa os casais que entenderam essa ideia (casamento = sociedade limitada). Desenvolvem-se como uma empresa, apoiando-se um ao outro sem hesitar, cada um deles especializado numa determinada atividade para obterem o m√°ximo rendimento do seu investimento, pois sabem que os ganhos de um beneficiar√£o os dois. As discuss√Ķes em p√ļblico, as desaven√ßas, os an√ļncios de separa√ß√£o fazem cair as a√ß√Ķes da bolsa social e prejudicam a economia dom√©stica, h√° que evitar toda essa merda que os jovens e alguns imbecis publicitam aos quatro ventos, sem se darem conta de que est√£o a desvalorizar-se. Acreditam no amor e no desamor, na trai√ß√£o e no ci√ļme, sem entenderem que, quando se mete de permeio isso a que os romances e as revistas cor-de-rosa chamam amor, est√° tudo fodido. √Č o fim da paz. Quando algu√©m te diz que te amar√° para sempre, a hist√≥ria j√° come√ßou a meter √°gua. O montanhista n√£o pode ficar eternamente parado no cume que conquistou. J√° alcan√ßou o topo.

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Ama e Ama-te

Sempre que nos dedicamos com a melhor das inten√ß√Ķes, e incondicionalmente, a algo ou algu√©m fazemo-lo e dizemo-lo com amor. Esta palavra, assim como outras bem semelhantes como ¬ęamo-me¬Ľ ou ¬ęamo-te¬Ľ, deviam andar nas bocas de todo o mundo. Mas n√£o, muitos consideram-na demasiado valiosa, pesada e pr√≥pria para poucas ocasi√Ķes e, ent√£o, raramente a dizem e, creio eu, um dia deixar√£o de diz√™-la. 0 amor √© o tesouro mais importante do mundo, √© a mais alta dimens√£o do homem e a maior equa√ß√£o entre alma, o corpo e a mente, no entanto, √© t√£o simples encontra-lo como ver sair √°gua cristalina de uma torneira aberta. √Č de todos e para todos, como tal, n√£o se compreende tamanha resist√™ncia √† sua utiliza√ß√£o. Tudo o que amamos e todos os que amamos, onde devemos estar inclu√≠dos, devem estar ao corrente do nosso amor, n√£o uma, n√£o duas nem tr√™s vezes, mas sempre que o sentirmos. Quanto mais verbalizarmos o amor, mais espa√ßo encontramos em n√≥s para amar. Ama e ama-te. D√° voz ao que sentes.

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, t√£o extraordin√°ria essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num esc√Ęndalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra mai√ļscula nada pode me dar porque vou confessar que tamb√©m eu devo ter entrado por um beco sem sa√≠da como os outros. Porque noto em mim, n√£o um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. √Č uma quest√£o de sobreviv√™ncia assim como a de comer carne humana quando n√£o h√° alimento. Luto n√£o contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de esp√≠rito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de esp√≠rito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.

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N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

Ao Longo da Escrita deste Livro

No ano passado, em outubro, talvez a 27, sei que foi a uma ter√ßa-feira, a minha m√£e incentivou-me a dar um passeio. H√° muito que desistiu de me dissuadir dos livros, tanto l√™s que tresl√™s, mas mant√©m o h√°bito de, cuidadosa, depois de bater √† porta com pouca for√ßa, entrar no meu quarto e perguntar: n√£o te apetece dar um passeio? Na maioria das vezes, n√£o tenho disposi√ß√£o para lhe responder mas, nessa tarde, estava a meio de um cap√≠tulo altru√≠sta e decidi fazer-lhe a vontade. O volante do carro, as minhas m√£os a sentirem todas as pedras quase como se estivesse a desliz√°-las na estrada. Estacionei no campo, a pouca dist√Ęncia de um grupo de homens e mulheres, botas de borracha, que estavam a apanhar azeitona. Espalhavam uma gritaria animada que n√£o se alterou quando sa√≠ do carro e me aproximei, boa tarde. Uma vantagem do meu nome √© que dispenso alcunha. Olha o Livro, boa tarde. O sol estava a p√īr-se. Troquei gra√ßas, enquanto dois homens recolheram os pan√Ķes carregados debaixo da √ļltima oliveira e os levaram √†s costas.
N√£o esque√ßo o que vi a seguir. As mulheres dobraram os pan√Ķes vazios e dispuseram-nos na terra, em forma de corredor.

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O Absurdo do C√ļmulo da Felicidade

Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de t√£o estranhas qualidades? Fa√ßa chover sobre ele todos os tipos de b√™n√ß√£os terrenas; submerja-o em felicidade at√© acima da cabe√ßa, de modo que s√≥ pequenas bolhas apare√ßam na superf√≠cie dessa felicidade, como se em √°gua; d√™ a ele uma prosperidade econ√≥mica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, excepto dormir, comer p√£o-de-l√≥ e preocupar-se com a continua√ß√£o da hist√≥ria mundial ‚ÄĒ mesmo assim, por pura ingratid√£o, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum acto repulsivo. Ele at√© mesmo arriscar√° perder o seu p√£o-de-l√≥ e desejar√° intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antiecon√≥mico absurdo, simplesmente a fim de injectar o seu fant√°stico e pernicioso elemento no √Ęmago de toda essa racionalidade positiva.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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Os desejos humanos s√£o infind√°veis. S√£o como a sede de um homem que bebe √°gua salgada, n√£o se satisfaz e a sua sede apenas aumenta.