Textos sobre Teoria

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Textos de teoria escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Pensamento em Boa Forma

Cumpre-nos n√£o s√≥ averiguar porque se gasta a vida, dia ap√≥s dia, e o pouco que resta √† propor√ß√£o vai diminuindo. Pensemos tamb√©m no seguinte: supondo que a um homem toque viver longa vida, uma quest√£o permanece escura: a de saber se a sua intelig√™ncia ser√° capaz, tempo adiante, sem defec√ß√£o, de compreender os problemas e a teoria que apontam ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Se ele pega a cair em estado de infantilidade, a respira√ß√£o, a alimenta√ß√£o, a imagina√ß√£o, os gestos impulsivos e as outras fun√ß√Ķes do mesmo g√©nero n√£o lhe faltar√£o necessariamente; mas dispor de si, obtemperar exactamente a todas as exig√™ncias morais, analisar as apar√™ncias, ver se n√£o ser√° j√° tempo de entrouxar e ir para melhor est√£o √† altura de responder a necessidades desta ordem – para tudo isso se necessita de um racioc√≠nio em boa forma; e o racioc√≠nio, h√° que tempos perdeu a chama e a agudeza. Cumpre-nos pois andar ligeiros, n√£o s√≥ porque a morte se avizinha a cada momento mas ainda porque antes de morrer perdemos a capacidade de conceber as coisas e de lhes prestar aten√ß√£o.

A Vis√£o do Universo

Existem certas pessoas – e eu sou uma delas – que pensam que a coisa mais pr√°tica e importante acerca de um homem ainda √© a sua vis√£o do universo. Pensamos que, para uma senhoria considerando se deve aceitar um pensionista, √© importante saber a sua renda, por√©m mais importante ainda √© conhecer a sua filosofia. Pensamos que, para um general prestes a combater um inimigo, √© importante saber os n√ļmeros do inimigo, por√©m mais importante √© conhecer a filosofia do inimigo. Pensamos que a quest√£o n√£o √© saber se a teoria do cosmos afecta ou n√£o as coisas, mas se, no longo prazo, qualquer outra coisa as afecta.

O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

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A Tirania Intelectual do N√ļmero

¬ęUma das mais estranhas ideias do vulgo, previu Henry Maine, √© que o sufr√°gio universal pode promover e promover√° progresso, criando novas ideias, novas inven√ß√Ķes, novas artes. Mas as probabiblidades s√£o para que s√≥ produza uma forma nociva de conservantismo¬Ľ. Temos de admitir, com os ingleses ricos em preconceitos, que a democracia √© hostil ao g√©nio e √† arte. Porque ela s√≥ d√° valor ao que cabe dentro da compreens√£o dos esp√≠ritos m√©dios; quando v√™ erguer-se o pal√°cio de um cinema, julga tratar-se do P√°rtenon; ¬ęse dependesse da assembleia ateniense nunca o mundo teria a Acr√≥pole¬Ľ (Plutarco, Vida de P√©ricles).
A tirania intelectual do n√ļmero pode tornar-se t√£o torturante como a dos monarcas; em alguns estados americanos o conhecimento acima de um certo limite j√° √© considerado coisa perigosa. A desconfian√ßa que a democracia tem da individualidade decorre da teoria da igualdade; desde que todos s√£o iguais, basta a contagem dos narizes para a descoberta da verdade ou a santifica√ß√£o de um costume. E a democracia n√£o √© apenas uma filha da era da m√°quina que governa por meio de ¬ęm√°quinas¬Ľ; ainda encerra em si a potencialidade da mais terr√≠vel das m√°quinas – a compuls√£o dos ignorantes contra a diferen√ßa,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Sabedoria Pr√°tica Inexistente

A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo √© tamb√©m luxo, seja em agricultura, com√©rcio, literatura ou arte. Hoje em dia h√° professores de filosofia, mas n√£o h√° fil√≥sofos. Contudo √© admir√°vel ensinar filosofia porque um dia foi admir√°vel viv√™-la. Ser um fil√≥sofo n√£o √© apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma vida de simplicidade, independ√™ncia, magnanimidade e confian√ßa. √Č solucionar alguns problemas da vida n√£o s√≥ na teoria mas tamb√©m na pr√°tica.

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Um Cérebro Sempre Jovem

A sociedade est√° a ser varrida por um movimento chamado nova velhice. A norma social para as pessoas de idade era passiva e sombria; confinadas a cadeiras de baloi√ßo, esperava-se que entrassem em decl√≠nio f√≠sico e mental. Agora o inverso √© verdade. As pessoas mais velhas t√™m expetativas mais elevadas de que permanecer√£o ativas e com vitalidade. Consequentemente, a defini√ß√£o de velhice mudou. Num inqu√©rito perguntou-se a uma amostra de baby boomers: “Quando tem in√≠cio a velhice?” A resposta m√©dia foi aos 85. √Ä medida que aumentam as expetativas, o c√©rebro deve claramente manter-se a par e adaptar-se √† nova velhice. A antiga teoria do c√©rebro fixo e estagnado sustentava ser inevit√°vel um c√©rebro que envelhecesse. Supostamente as c√©lulas cerebrais morriam continuamente ao longo do tempo √† medida que uma pessoa envelhecia, e a sua perda era irrevers√≠vel.

Agora que compreendemos qu√£o flex√≠vel e din√Ęmico √© o c√©rebro, a inevitabilidade da perda celular j√° n√£o √© v√°lida. No processo de envelhecimento ‚ÄĒ que progride √† raz√£o de 1% ao ano depois dos trinta anos de idade ‚ÄĒ n√£o h√° duas pessoas que envelhe√ßam de maneira igual. At√© os g√©meos id√™nticos, nascidos com os mesmos genes, ter√£o muito diferentes padr√Ķes de atividade gen√©tica aos setenta anos,

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Teoria e Pr√°tica

Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em pr√°tica, e toda a pr√°tica deve obedecer a uma teoria. S√≥ os esp√≠ritos superficiais desligam a teoria da pr√°tica, n√£o olhando a que a teoria n√£o √© sen√£o uma teoria da pr√°tica, e a pr√°tica n√£o √© sen√£o a pr√°tica de uma teoria. Quem n√£o sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama ¬ęte√≥rico¬Ľ a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas n√£o sabe aplicar – isto √©, quem afinal n√£o sabe, porque n√£o saber aplicar √© uma maneira de n√£o saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto √©, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem s√£o de esp√≠rito e equilibrado de intelig√™ncia, h√° uma separa√ß√£o abusiva. Na vida superior a teoria e a pr√°tica completam-se. Foram feitas uma para a outra.

O Paradoxo da Sabedoria

S√£o muito raros no g√©nero humano os homens verdadeiramente s√°bios; o concurso de condi√ß√Ķes e circunst√Ęncias especiais necess√°rio para que os haja, ocorre com tanta dificuldade que n√£o deve admirar a sua raridade: demais a sua apari√ß√£o pouco ou nada aproveita aos outros homens que os desprezam, perseguem ou motejam, incapazes de compreend√™-los, e os obrigam finalmente ao sil√™ncio, retiro e reclus√£o.
(…) N√£o esperem os homens por, maior que seja o progresso da sua intelig√™ncia, chegar a conhecer as verdades capitais e primitivas sobre a ess√™ncia e natureza das coisas: mudar√£o de erros, f√°bulas, hip√≥teses e teorias, mas nunca poder√£o alcan√ßar conhecimentos que hajam de mudar a natureza humana, e fazer os homens diversos do que far√£o e do que s√£o.
O mundo varia aos olhos e nas opini√Ķes dos homens, conforme as idades e condi√ß√Ķes da vida.

O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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Vamos Buscar as Nossas Ideias ao Estrangeiro

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filos√≥ficos profundos do estrangeiro; vamos busc√°-las √† superf√≠cie, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem altera√ß√£o nem cr√≠tica, s√£o ou velhas ou superficiais. Falamos a s√©rio nas ideias pol√≠ticas de Le√≥n Blum ou de Edouard Herriot, nenhum dos quais teve alguma vez ideias ‚ÄĒ pol√≠ticas ou outras ‚ÄĒ em sua vida. Falamos a s√©rio em Bourget, Maurras […].

Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias; o que não sabemos imitar, porque seria mais difícil, é a personalidade de Mussolini.

As ideias de Maurras, que qualquer raciocinador hábil desfaz sem dificuldade, se tiver a paciência de vencer o tédio quase insuportável de o ler, passam por leis da natureza, por tão indiscutíveis como, não direi já a teoria atómica, que tem elementos discutíveis, mas o coeficiente de dilatação do ferro, ou a lei de Boyle ou de Mariotte.

Temos poetas de mérito. Que fazem eles?

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A Individualidade N√£o Se Deixa Representar

Conselho ao intelectual: N√£o deixes que te representem. A fungibilidade das obras e das pessoas e a cren√ßa da√≠ derivada de que todos t√™m de poder fazer tudo revelam-se no seio do estado vigente como grilh√Ķes. O ideal igualit√°rio da representatividade √© uma fraude, se n√£o for sustentado pelo princ√≠pio da revogabilidade e da responsabilidade do rank and file. O mais poderoso √© justamente o que menos faz, o que mais se pode encarregar daquele a que se dedica e sua vantagem arrecada. Parece colectivismo e fica-se apenas pela demasiado boa opini√£o de si mesmo, pela exclus√£o do trabalho, gra√ßas √† disposi√ß√£o do trabalho alheio.
Na produ√ß√£o material est√° solidamente implantada a substituibilidade. A quantifica√ß√£o dos processos laborais diminui tendencialmente a diferen√ßa entre o encargo do director geral e o do empregado de uma esta√ß√£o de servi√ßo. √Č uma ideologia miser√°vel pensar que, nas actuais condi√ß√Ķes, para a admininstra√ß√£o de um trust se requer mais intelig√™ncia, experi√™ncia e prepara√ß√£o do que para ler um man√≥metro. Mas enquanto na produ√ß√£o material h√° um apego tenaz a esta ideologia, o esp√≠rito da que lhe √© contr√°ria cai na submiss√£o. Tal √© a cada vez mais ruinosa doutrina da universitas litterarum, da igualdade de todos na rep√ļblica das ci√™ncias,

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Teoria e Pr√°tica

Se, por um lado, qualquer teoria positiva deve ser necessariamente fundamentada em observa√ß√Ķes, √© igualmente sens√≠vel, por outro, que, para se entregar √† observa√ß√£o, o nosso esp√≠rito necessita de uma teoria qualquer. Se, ao contemplar os fen√≥menos, n√£o os ligarmos imediatamente a alguns princ√≠pios, n√£o apenas nos ser√° imposs√≠vel combinar essas observa√ß√Ķes isoladas e, consequentemente, delas tirar algum fruto, mas ser√≠amos inteiramente incapazes de ret√™-las; e, na maioria das vezes, os factos permaneceriam despercebidos aos nossos olhos.

Quando Chega uma Carta Tua

Quando chega uma carta tua todas as divaga√ß√Ķes acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter import√Ęncia, os misteriosos quadros de doen√ßas se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias ¬ęde acordo com o estado presente da ci√™ncia¬Ľ, como elas s√£o chamadas. Ent√£o o mundo fica t√£o acolhedor, t√£o alegre, t√£o f√°cil de compreender. A minha doce querida n√£o √© uma ilus√£o, ela n√£o tem que ser comprovada por testes qu√≠micos; de facto ela pode ser observada a olho n√ļ. Ainda bem que ela n√£o tem nada a ver com doen√ßas ‚Äď e espero que continue ‚Äď excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um m√©dico para amante. Oh Marty, √© muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armaz√©m de certas experi√™ncias mon√≥tonas. Mas ningu√©m se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a n√£o ser que tenha sido uma m√°quina ou um armaz√©m por onze horas. E aqui cheg√°mos, onde come√ß√°mos.

A Fal√°cia do Sucesso

Abomin√°vel coisa √© o bom √™xito, seja dito de passagem. A sua falsa parecen√ßa com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale √† supremacia. A v√≠tima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, √© a hist√≥ria. S√≥ T√°cito e Juvenal se lhe op√Ķem. Existe na √©poca e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libr√© do bom √™xito e lhe faz o servi√ßo da antec√Ęmara. Fazei por serdes bem sucedido, √© a teoria. Prosperidade sup√Ķe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem h√°bil. Quem triunfa √© venerado. Nascei bem-fadado, n√£o queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si vir√°; sede feliz, julgar-vos-√£o grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excep√ß√Ķes imensas que fazem o esplendor de um s√©culo, a admira√ß√£o contempor√Ęnea √© apenas miopia. Duradora √© ouro. Pouco importa que n√£o sejais ningu√©m, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo √© um narciso velho, que se idolatra a si pr√≥prio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Mois√©s, Esquilo, Dante, Miguel √āngelo ou Napole√£o, decreta-a a multid√£o indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se prop√īs, seja no que for. Que um tabeli√£o se transforme em deputado;

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A Vida n√£o Cabe numa Teoria

A vida… e a gente p√Ķe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os fil√≥sofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os te√≥logos n√£o entenderam na solid√£o das celas. Nisto, ou ent√£o na conta do sapateiro, na degrada√ß√£o moral do s√©culo, ou na triste pequenez de tudo, a come√ßar por n√≥s.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida √© o que eu estou a ver: uma manh√£ majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crian√ßas ‚ÄĒ um rapaz e uma rapariga ‚ÄĒ silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.

Os Intelectuais e as Massas

Os intelectuais fazem a teoria, as massas a economia. Finalmente, os intelectuais utilizam as massas e atrav√©s deles a teoria utiliza a economia. Por isso √©-lhes necess√°rio manter o estado de s√≠tio e a servid√£o econ√≥mica – para que as massas continuem a ser massas manobr√°veis. √Č bem certo que a economia constitui a mat√©ria da hist√≥ria. As ideias contentam-se com conduzi-la.

Porque é que os Homens não Compreendem as Mulheres

Tu est√°s convencida h√° v√°rios anos de que eu n√£o te compreendo. Esta √© sempre a teoria das mulheres, que n√£o s√£o compreendidas, que n√£o s√£o queridas, que n√£o s√£o adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem l√° do fundo da cria√ß√£o do mundo, do √ļtero, da terra, as mulheres reflectem o √ļtero feminino da terra, um √ļtero cheio de afli√ß√Ķes, em conclus√£o, queixam-se de tudo ent√£o entre os quarenta e os cinquenta, esse √ļtero funciona nas alturas, √© um √ļtero c√≥smico que j√° n√£o √© parte de uma mulher, pertence √† mulher do mundo. H√° muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa √† frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito √≠ntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da cria√ß√£o, da reprodu√ß√£o da g√©nese, salta, salta, forma-se na mulher a vis√£o do caos a que s√≥ ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo dom√≠nio da paix√£o, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que √© compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreens√£o do amor,

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A Base da Civilização

A lei do universo baseia-se sobre o concurso destes dois grandes agentes: a luta pela vida e a selec√ß√£o natural. A luta pela vida √© o estado permanente de todos os seres, para os quais a cria√ß√£o √© uma eterna batalha. A sorte do conflito decide-a a selec√ß√£o natural. Como? Fixando na esp√©cie, pela adapta√ß√£o ao meio, os seres mais fortes, e expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: ¬ęA teoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas sociedades animais, nem os direitos, nem os deveres, nem os bens, nem os gostos dos membros associados podem ser iguais.¬Ľ Ora o que √© que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente o contrario disso: a igualdade dos deveres rec√≠procos para a mais equitativa distribui√ß√£o dos bens.
O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma reacção contra essa lei. A natureza é o triunfo brutal decretado ao forte. A sociedade é a protecção consciente assegurada ao fraco. A criação funda a luta pela vida. A sociedade organiza o auxílio pela existência.
Uma civilização é tanto mais adiantada quanto mais ela submete ao seu domínio as fatalidades naturais. E é assim que o homem,

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A Luta de Classes Acabou

A luta de classes esfumou-se, dissolveu-se, a democracia tem funcionado como um diluente social: toda a gente vive, compra e acorre ao hipermercado, ao balc√£o do bar e aos concertos pagos pelo munic√≠pio na pra√ßa central, e todos falam ao mesmo tempo, vozes que se misturam como nas tumultuosas reuni√Ķes no cine Tivoli evocadas pelo meu pai, j√° n√£o se distingue o que est√° em cima do que est√° em baixo, est√° tudo enredado, confuso, e, por√©m, reina uma misteriosa ordem, eis a democracia. Mas, de s√ļbito, desde h√° um par de anos, parece desenhar-se uma ordem mais expl√≠cita, menos insidiosa. A nova ordem √© bem vis√≠vel, com os n√≠veis superior e inferior bem definidos: alguns transportam com orgulho sacos repletos de compras e cumprimentam sorridentes os vizinhos √† porta do centro comercial, outros remexem nos contentores onde os empregados do hipermercado lan√ßaram as embalagens de carne fora de prazo, a fruta e as verduras pisadas, os past√©is industriais caducados. Lutam entre si por esses alimentos.

(…) Trivial, a luta de classes? Ent√£o n√£o era isso que determinava, que impregnava e condicionava tudo? O grande motor da hist√≥ria universal? N√£o era nisso que acreditavam o meu pai e os seus camaradas,

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