Passagens de Agustina Bessa-Luís

140 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Agustina Bessa-Luís para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

A arte de oprimir os povos foi-se modificando. A ambi√ß√£o sofreu grandes altera√ß√Ķes. Agora os homens usam de conte√ļdo cultural, violador de multid√Ķes na sua conduta; n√£o √© a for√ßa do bra√ßo nem o nome de fam√≠lia que alimentam o seu prest√≠gio – √© antes a energia duma convic√ß√£o que se imponha pela utilidade que prometem.

Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

As revolu√ß√Ķes s√≥ se det√™m com as guerras. As na√ß√Ķes, cada vez mais enredadas nas suas embara√ßosas decis√Ķes, h√£o-de por fim querer sair delas atrav√©s dum risco cego, duma experi√™ncia que pare√ßa resumir a verdade conjuntural.

A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

Continue lendo…

Que a extravag√Ęncia n√£o seja nada de pr√°tico √© o que se acredita e se divulga. Mas, na verdade, trata-se duma virtude pela qual o homem pr√°tico, o aut√™ntico, dar√° todo o sangue das suas veias.

Quase ningu√©m repara em ningu√©m. Em parte porque o espa√ßo que nos circunda est√° cheio de chamadas, de perigos e de j√ļbilos; o ser humano, longe do que se pensa, √© o que menos se nota no mundo.

Uma na√ß√£o n√£o nasce duma ideia. Nasce dum contrato de homens livres que se inspiram nas insubmiss√Ķes necess√°rias ao minist√©rio dos povos sobre os seus infort√ļnios.

Os tempos s√£o ligeiros e n√≥s pesados, porque nos sobram recorda√ß√Ķes. Quem se alimenta delas sofre e descuida as alegrias, mesmo que sejam r√°pidas e se escondam da nossa raz√£o.

C√≥lera – liberta o cora√ß√£o para raz√Ķes que prolongam o desejo de viver. Quem n√£o se encoleriza acaba por pedir socorro por meio de doen√ßas, obsess√Ķes e livros de viagens.

Um povo j√° n√£o acredita nas promessas dos governantes, porque perdeu a vontade fan√°tica que o levava a acreditar e a tecer raz√Ķes para isso.

Os homens t√™m necessidade da culpa porque ela funciona como um excitante para criar. T√™m que criar as excita√ß√Ķes da culpa. T√™m que ser criminosos. √Č t√£o simples como isso.

A arte n√£o pode ser pol√≠tica, nem sujei√ß√£o social, nem glosa duma ideia que faz √©poca; nem mesmo pode estar de qualquer forma aliada ao conceito ¬ęprogresso¬Ľ. √Č algo mais. √Č o pr√≥prio alento humano para l√° da morte de todas as quimeras, da fadiga de todas as perguntas sem solu√ß√£o.

A Cultura não se Enquadra na Totalidade Política

A cultura nunca poder√° ser um factor estrat√©gico de mudan√ßa. Se √© estrat√©gia, n√£o √© cultura. Faz-se apelo √† cultura como estrat√©gia de mudan√ßa, tentando resolver a condi√ß√£o perturbadora do homem culto, munido de culpabilidade inconsciente, ou simplesmente isento da culpabilidade pelo sofrimento. Isso n√£o √© poss√≠vel. A cultura n√£o se enquadra na totalidade pol√≠tica. H√° um grave mal-entendido quanto a isso. A cultura n√£o significa o conforto da neutralidade, a ir√≥nica gradua√ß√£o da expectativa, a gin√°stica do n√£o-compomisso. Significa um enraizamento em si mesmo, que conserva no homem a faculdade de julgar. N√£o √© contr√°ria √† ac√ß√£o, mas √© condi√ß√£o necess√°ria para que a ac√ß√£o seja serena e √ļtil, e n√£o impaciente e desordenada. N√£o se trata de racismo espiritual; n√£o se trata da pretens√£o de existir √† parte da hist√≥ria pol√≠tica do mundo. √Č a inten√ß√£o absolutamente necess√°ria de ser livre, face aos acontecimentos, qualquer que seja a l√≥gica que os liga. A cultura √© o que identifica um povo com a sua finalidade.

N√£o h√° exemplo duma ideia que, por excelente que seja, se desenvolva ao n√≠vel do quotidiano. Sofre de toda a esp√©cie de muta√ß√Ķes antes de entrar na carreira do lugar-comum, que √© onde acabam todas as grandes ideias.

O Desejo do Homem é Contrário à Sua Unidade

Houve tempo em que o homem inventou o amor cort√™s para n√£o perder a intimidade das mulheres. Elas estavam a ser atra√≠das pela formid√°vel influ√™ncia da Igreja que as recebia permitindo-lhes uma personalidade est√°vel. As mulheres amam essa personalidade est√°vel que Freud soube preservar nas suas rela√ß√Ķes com Marta, a mulher de toda a sua vida. Ler a correspond√™ncia de Freud com Marta √© muito salutar neste mundo a abarrotar de esgotamentos nervosos e falsas ou reais confid√™ncias. Um dos seus clientes (Schonberg) causava-lhe grande preocupa√ß√£o. Um dia, a cunhada, vendo o doente cumprimentar uma senhora, disse: ¬ęO facto de ele ser outra vez bem educado com as mulheres √© tamb√©m um √≠ndice de melhoria¬Ľ. Freud n√£o deixa de referir isto, que corresponde a uma personalidade vener√°vel. As mulheres acham que √© sinal de normalidade serem tratadas com cortesia. O desejo n√£o lhes diz nada, comparado com uma palavra doce e conveniente. Isto n√£o √© uma s√≠ntese do comportamento dos homens e das mulheres. Mas sim uma certeza – o que n√£o pro√≠be toda a esp√©cie de averbamentos necess√°rios √† verdade.

Nietzsche, imoralista por definição, disse que não há nada mais contrário ao gosto do que o homem que deseja.

Continue lendo…

A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

Continue lendo…

Animais Рeles são a medida da nossa paz com o mundo criado; eles são um dado de consolação porque não mudam para como quem tanto muda como nós, humanos.

Na experiência humana não há unidade, tudo são esforços inéditos; só que muito frequentemente o fracasso os torna iguais entre si.

A rapidez que as pessoas imprimem √†s suas vidas faz com que simplifiquem a realidade e fabriquem o que se chama a ¬ępersonalidade do momento¬Ľ. Sobretudo nos pol√≠ticos e homens √† escala governativa, isso exprime-se por manifesta√ß√Ķes impulsivas, peculiares a cada hora, vinculadas √†s situa√ß√Ķes proteiformes.