Passagens de Agustina Bessa-Luís

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Frases, pensamentos e outras passagens de Agustina Bessa-Luís para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

O amor dos animais contém muito da desaprovação pelos seres humanos e é próprio dum melindroso estado de revolta que não encontrou a sua linguagem.

A Glorificação das Aparências

N√£o sei o que acontecer√° quando formos todos funcion√°rios aureolados pela organiza√ß√£o de apar√™ncias que acentua a satisfa√ß√£o dos privil√©gios. A apar√™ncia vai tomando conta at√© da vida privada das pessoas. N√£o importa ter uma exist√™ncia nula, desde que se tenha uma apar√™ncia de apropria√ß√£o dos bens de consumo mais altamente valorizados. H√° de facto um novo proletariado preparado para passar por emancipa√ß√£o e conquistas do s√©culo. As bestas de carga carregam agora com a verdade corrente que √© o humanismo em foco ‚ÄĒ a caricatura do humano e do seu significado.

A Import√Ęncia da Arte

A arte √©, provavelmente, uma experi√™ncia in√ļtil; como a ¬ępaix√£o in√ļtil¬Ľ em que cristaliza o homem. Mas in√ļtil apenas como trag√©dia de que a humanidade beneficie; porque a arte √© a menos tr√°gica das ocupa√ß√Ķes, porque isso n√£o envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de m√ļsica, fazia-se um deserto extraordin√°rio. Acreditem que os teares paravam, tamb√©m, e as f√°bricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte √©, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e h√° decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam √† experi√™ncia in√ļtil que √© a arte, pessoas como Virg√≠lio, por exemplo, e que sabem que o seu sil√™ncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e s√≥ ficasse no ar o ru√≠do dos motores, porque at√© o vento se calava no fundo dos vales, penso que at√© as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vit√≥ria, com a mansid√£o das coisas est√©reis. O la√ßo da fic√ß√£o, que gera a expectativa, √© mais forte do que todas as realidades acumul√°veis. Se ele se quebra, o equil√≠brio entre os seres sofre grave preju√≠zo.

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Pode-se n√£o recordar os insultos; mas guarda-se deles um amargo de experi√™ncia, feia como uma cicatriz. E isso envelhece a alma, torna-a ruinosa e in√ļtil.

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas est√£o prontas a viver em bom entendimento, mas n√£o querem ser viciadas em agradar. A condi√ß√£o humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. H√° uma parte da solid√£o que n√£o podemos compor, e √© melhor que assim seja, porque √© na solid√£o que assenta a diferen√ßa t√£o falada. √Č isso que se receia: que nos pro√≠bam a solid√£o, esse pequeno espinho que afinal nos faz solid√°rios na multid√£o. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: est√£o abertas a esse prazer do momento, mas n√£o se distraem da faculdade de serem s√≥s na sua fundamental forma de orgulho que √© serem √ļnicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. ¬ęS√≥ Deus √© bom.¬Ľ Se percebermos esta conclus√£o, percebemos que imitar o bem √© tudo o que humanamente nos √© permitido.

H√° tr√™s maneiras de viver numa civiliza√ß√£o: com as convic√ß√Ķes partid√°rias, com o julgamento din√Ęmico do homem livre, ou com os impulsos do cora√ß√£o. Todas elas podem ser honrosas ou infames; depende da inspira√ß√£o que sofrem umas das outras. Pois nada √© completamente necess√°rio sen√£o na medida em que depende duma outra realidade.

Uma nação não nasce de uma ideia nobre, embora esteja preparada para provar a sua nobreza em qualquer conjectura adversa aos seus direitos de justiça.

A arte de oprimir os povos foi-se modificando. A ambi√ß√£o sofreu grandes altera√ß√Ķes. Agora os homens usam de conte√ļdo cultural, violador de multid√Ķes na sua conduta; n√£o √© a for√ßa do bra√ßo nem o nome de fam√≠lia que alimentam o seu prest√≠gio – √© antes a energia duma convic√ß√£o que se imponha pela utilidade que prometem.

Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

As revolu√ß√Ķes s√≥ se det√™m com as guerras. As na√ß√Ķes, cada vez mais enredadas nas suas embara√ßosas decis√Ķes, h√£o-de por fim querer sair delas atrav√©s dum risco cego, duma experi√™ncia que pare√ßa resumir a verdade conjuntural.

A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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Que a extravag√Ęncia n√£o seja nada de pr√°tico √© o que se acredita e se divulga. Mas, na verdade, trata-se duma virtude pela qual o homem pr√°tico, o aut√™ntico, dar√° todo o sangue das suas veias.

Quase ningu√©m repara em ningu√©m. Em parte porque o espa√ßo que nos circunda est√° cheio de chamadas, de perigos e de j√ļbilos; o ser humano, longe do que se pensa, √© o que menos se nota no mundo.

Uma na√ß√£o n√£o nasce duma ideia. Nasce dum contrato de homens livres que se inspiram nas insubmiss√Ķes necess√°rias ao minist√©rio dos povos sobre os seus infort√ļnios.

Os tempos s√£o ligeiros e n√≥s pesados, porque nos sobram recorda√ß√Ķes. Quem se alimenta delas sofre e descuida as alegrias, mesmo que sejam r√°pidas e se escondam da nossa raz√£o.

C√≥lera – liberta o cora√ß√£o para raz√Ķes que prolongam o desejo de viver. Quem n√£o se encoleriza acaba por pedir socorro por meio de doen√ßas, obsess√Ķes e livros de viagens.

Um povo j√° n√£o acredita nas promessas dos governantes, porque perdeu a vontade fan√°tica que o levava a acreditar e a tecer raz√Ķes para isso.

Os homens t√™m necessidade da culpa porque ela funciona como um excitante para criar. T√™m que criar as excita√ß√Ķes da culpa. T√™m que ser criminosos. √Č t√£o simples como isso.

A arte n√£o pode ser pol√≠tica, nem sujei√ß√£o social, nem glosa duma ideia que faz √©poca; nem mesmo pode estar de qualquer forma aliada ao conceito ¬ęprogresso¬Ľ. √Č algo mais. √Č o pr√≥prio alento humano para l√° da morte de todas as quimeras, da fadiga de todas as perguntas sem solu√ß√£o.