Cita√ß√Ķes de Agustina Bessa-Lu√≠s

140 resultados
Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Agustina Bessa-Lu√≠s para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Na experiência humana não há unidade, tudo são esforços inéditos; só que muito frequentemente o fracasso os torna iguais entre si.

A rapidez que as pessoas imprimem √†s suas vidas faz com que simplifiquem a realidade e fabriquem o que se chama a ¬ępersonalidade do momento¬Ľ. Sobretudo nos pol√≠ticos e homens √† escala governativa, isso exprime-se por manifesta√ß√Ķes impulsivas, peculiares a cada hora, vinculadas √†s situa√ß√Ķes proteiformes.

A sociedade prosseguir√° em estado de viol√™ncia, porque o homem n√£o prescinde da sua enfermidade moral que √© achar-se in√ļtil num mundo que n√£o criou.

Nós, as mulheres, o que nos faz amar um homem é aparentá-lo com tudo o que amamos Рo tempo da crise, da puberdade, da gestação, do enigma; os primeiros rostos, as primeiras carícias, os primeiros medos.

A Psicologia do Medo

O medo √© o que impede que tudo o que chega √†s ma√Ķs dos homens n√£o se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impress√£o que n√£o se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. √Č assim que milh√Ķes de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, sen√£o as mesmas.

Só se pode sentir a evidência das coisas até um certo ponto: além disso, ou nos rebaixamos ou nos aproximamos do sentimento superior que nos liberta. De facto, o verdadeiro estado de liberdade é o de ultrapassar a imaginação.

Como artista, tenho que crer que não há ideias irrefutáveis. A Inteligência sempre se contradiz. O homem de espírito é um eterno devir, a negação das ideias irremovíveis. Se eu julgasse as minhas ideias nítidas e categóricas, faria testamento delas, e, depois, deitar-me-ia entre círios, para morrer.

Quando alguém se entrega ao ofício de ensinar, com uma fé conspícua e soberana, acreditem que a desilusão vive nele, como as ondinas num lago, como no elemento que as criou.

A essência das coisas não está na filosofia, nem na política, nem em qualquer função intelectual. Está na reciprocidade do inconsciente que não encadeia só o que é humano, mas até o que é apenas vegetal ou inerte.

A Melhor Prova duma Real Amizade

A melhor prova duma real amizade est√° em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam. Ainda que devendo muito aos que muito me louvam, eu n√£o quero ser-lhes obrigada pela gratid√£o. Mas sim grata porque estou com eles, devido a circunst√Ęncias que a todos n√≥s agradam e s√£o um la√ßo mais entre n√≥s, sem constitu√≠rem um dever. Eu pretendo dizer da amizade o que Di√≥genes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e n√£o que o pedia. Pois aquilo que os outros t√™m pelo sentimento comum n√£o se pede, √© patrim√≥nio comum. Neste caso, a amizade.

√Č extraordin√°rio como nos tornamos violentos quando queremos agradar ao mundo. Agradar ao mundo resume o comportamento da sociedade nos seus aspectos mais ret√≥ricos.

Se h√° algu√©m que n√£o se interessa pelos poetas, s√£o as mulheres. As paix√Ķes que as palavras desencadeiam, isso as mulheres recebem no c√≥digo que a poesia cont√©m.

O prazer da reflex√£o deriva duma condi√ß√£o que se presume essencialmente masculina, a da interroga√ß√£o. O homem interroga, a mulher escolhe. Isto estabelece a m√ļtua depend√™ncia dos sexos.

O humor ilude-nos como uma faísca num campo escuro. A verve um tanto imoderada, uma corrupção do sentimento que se faz galhofa, um medo de ganhar nome de suspeita virilidade. Quem não troça é beato ou é eunuco.

A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda.

Os Supermercados

Os supermercados s√£o os pal√°cios dos pobres. N√£o s√£o s√≥ os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gera√ß√Ķes foram reduzindo os gastos da imagina√ß√£o, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superf√≠cies. As grandes superf√≠cies com a sua √°rea iluminada e sempre em festa; a concentra√ß√£o dos prazeres correntes, como a alimenta√ß√£o e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambi√ß√Ķes do quotidiano. N√£o h√° euforia mas h√° um sentimento de parentesco face √†s limita√ß√Ķes de cada um. A chuva e o calor s√£o poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; h√° uma emo√ß√£o pr√≥pria que paira nas naves das grandes superf√≠cies. S√£o as catedrais da conveni√™ncia, d√£o a ilus√£o de que o sol quando nasce √© para todos e que a cultura e a seguran√ßa est√£o ao alcance das pequenas bolsas. N√£o h√° pol√≠cia, h√° uma paz de transeunte que a cidade j√° n√£o oferece.