Passagens sobre Ar

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Frases sobre ar, poemas sobre ar e outras passagens sobre ar para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Pelos Extremos Raros Que Mostrou

Pelos extremos raros que mostrou
em saber, Palas, Vénus em fermosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
√Āfrica, Europa e Asia as adorou.

Aquele saber grande que ajuntou
esprito e corpo em liga generosa,
esta mundana m√°quina lustrosa,
de só quatro Elementos fabricou.

Mas mor milagre fez a natureza
em v√≥s, Senhoras, pondo em cada √ľa
o que por todas quatro repartiu.

A v√≥s seu resplandor deu Sol e L√ľa,
a vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e √Āgua vos serviu.

Primavera A Fora

Escute, excelent√≠ssima: — Que aragens
Traz do √°rvoredo a fresca romaria;
Como este sol é rubro de alegria,
Que tons de luz nas límpidas paisagens.

Pois beba este ar e goze estas viagens
Das brancas aves, sinta esta harmonia
Da natureza e deste alegre dia
Que resplandece e ri-se nas ervagens.

Deixe l√° fora estrangular-se o mundo…
Encare o céu e veja este fecundo
Ch√£o que produz e que germina as flores.

Vamos, senhora, o braço à primavera,
E numa doce m√ļsica sincera,
Cante a balada eterna dos amores…

O Primeiro Beijo

Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.

Naquela noite, fiquei a esper√°-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pens√£o. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma √ļnica forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os bra√ßos dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao c√©u claro da noite. E faltou uma batida ao cora√ß√£o.

O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer.

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Eu gosto de delicadeza. Seja nos gestos, nas palavras, nas a√ß√Ķes, no jeito de olhar, no dia-a-dia e at√© no que n√£o √© dito com palavras, mas fica no ar…

A Fermosura Fresca Serra

A fermosura fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me est√° (se n√£o te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

As quatro condi√ß√Ķes elementares para a felicidade s√£o: vida ao ar livre, amor de mulher, aus√™ncia de qualquer ambi√ß√£o e a cria√ß√£o de um novo e belo ideal.

Amores, Amores

N√£o sou eu t√£o tola
Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou,
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?
Um deles por graça
Deu-me um, e, depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços,
Que mal nos far√£o?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a raz√£o:
Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe de um salto
Suspensa no ar.

Vivendo e gozando,
Que a morte é fatal,
E a rosa em murchando
N√£o vale um real:
Eu sou muito amada,
E h√° muito que sei
Que Deus n√£o fez nada
Sem ser para quê.

Amores, amores,
Deix√°-los dizer;
Se Deus me deu flores,
Foi para as colher:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

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Sabedoria I, III

Que dizes, viajante, de esta√ß√Ķes, pa√≠ses?
Colheste ao menos tédio, já que está maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?

Também o olhar está morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,

Ou como um cemit√©rio de t√ļmulos recentes.
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas,
Dessas desilus√Ķes choradas plas correntes,
Dos nojos como insípidos recém-nascidos.

Fala da luz de g√°s, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e também da Política
Com o sangue desonrado em m√£os sujas de tinta.

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde h√° lutas e amores, a esmo,
De maneira t√£o triste e louca, na verdade!

Foi já bem castigada essa inocência grave?
Que achas? √Č duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu?

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Surdina

No ar sossegado um sino canta,
Um sino canta no ar sombrio…
P√°lida, V√™nus se levanta…
Que frio!

Um sino canta. O campan√°rio
Longe, entre n√©voas, aparece…
Sino, que cantas solit√°rio,
Que quer dizer a tua prece?

Que frio! embuçam-se as colinas;
Chora, correndo, a √°gua do rio;
E o céu se cobre de neblinas.
Que frio!

Ningu√©m… A estrada, ampla e silente,
Sem caminhantes, adormece…
Sino, que cantas docemente,
Que quer dizer a tua prece?

Que medo p√Ęnico me aperta
O coração triste e vazio!
Que esperas mais, alma deserta?
Que frio!

J√° tanto amei! j√° sofri tanto!
Olhos, por que inda estais molhados?
Por que é que choro, a ouvir-te o canto,
Sino que dobras a finados?

Trevas, caí! que o dia é morto!
Morre também, sonho erradio!
A morte √© o √ļltimo conforto…
Que frio!

Pobres amores, sem destino,
Soltos ao vento, e dizimados!
Inda vos choro… E, como um sino,
Meu coração dobra a finados.

E com que m√°goa o sino canta,

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A Facilidade é Aborrecida em Tudo

O estimarem-se as coisas que n√£o t√™m valor, √© o mesmo que faz√™-las estim√°veis: o que se busca com √Ęnsia, n√£o √© o que se d√°, mas o que se nega; o que se permite aborrece, o que se recusa, atrai: o amor n√£o tem seta mais aguda, que aquela que se armou de proibi√ß√£o; no tomar, parece que h√° mais gentileza, que no aceitar; a dificuldade incita: muitas coisas n√£o t√™m outro merecimento, que o serem dificultosas; a resist√™ncia √© o que move a vontade; tudo o que se concede, √© sem sabor; a impugna√ß√£o faz a coisa consider√°vel, porque lhe d√° um ar de empresa, e de vit√≥ria: os mais altos montes s√£o os que se admiram, s√≥ porque custam a subir; a facilidade √© aborrecida em tudo; o lustre do argumento vem da contradi√ß√£o.

Uma Casa Cheia de Livros

Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.

(…) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do c√©u, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o ch√£o, explodem em sil√™ncio. Tudo neles √© absoluto, at√© as contradi√ß√Ķes em que trope√ßam. E est√£o l√°, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, at√© a loucura, at√© os pesadelos, at√© a esperan√ßa em todas as suas formas.

Tu à Noite

Tu à noite havias de escutar
A trovoada e o ar ambulante.
Tu nessa margem h√°s-de virar
Para onde estão as intempéries dominantes.

Toda essa honrada esperança
Ruirá na ardósia,
E destroçará o inverno
Que vocifera a teus pés.

Se bem que ardam os altares apaixonantes,
E que o sol deliberado
Faça ladrar a águia,
Tu avançarás na corda bamba.

O Remorso

Cometi o pior desses pecados
Que podem cometer-se. N√£o fui sendo
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, despiedados.

Plos meus pais fui gerado para o jogo
Arriscado e tão belo que é a vida,
Para a terra e a √°gua, o ar, o fogo.
Defraudei-os. N√£o fui feliz. Cumprida

N√£o foi sua vontade. A minha mente
Aplicou-se às simétricas porfias
Da arte, que entretece ninharias.

Valentia eu herdei. N√£o fui valente.
N√£o me abandona. Est√° sempre ao meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O costume português é deixar-se tudo em palavras mas palavras que são bolas de sabão deitadas ao ar para distrair pequeninos de seis anos.

Uma Gargalhada de Raparigas

Uma gargalhada de raparigas soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem n√£o vejo.
Lembro-me j√° que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: n√£o, os montes, as terras ao sol, o Sol, a casa aqui,
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois lados da cabeça.

Manh√£

Alta alvorada. — Os √ļltimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clar√Ķes primeiros.

Da passarada os v√īos condoreiros,
Os cantos e o ar que as √°rvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contr√°rios e altaneiros.

Vozes, trinados, vibra√ß√Ķes, rumores
Crescem, v√£o se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

E como um rei num gale√£o do Oriente
O sol p√Ķe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

Metan√°utica

Deixa-te ser vi√°vel como um bosque
ou jardim ou pomar por onde possa
ir passando a pessoa pela sombra
ou pela flor ou pelo fruto ou pela
singular vocação ambulatória:
deixa-te ser vi√°vel como um rio
ou lago ou mar por onde possa ir
passando o navegante ou nadador
pelo af√£ de chegar ou pelo puro
sentir-se em ti flutuante ou imerso:
deixa-te ser vi√°vel como um ar
por onde possa ir passando a asa
que como tal se procure ou encontre
firme ou fr√°gil… Mas bosque ou jardim ou
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar,
deixa em ti leccionar-se o transeunte
que viver s√£o inst√Ęncias de passar.

Tortura Eterna

Impotência cruel, ó vã tortura!
√ď For√ßa in√ļtil, ansiedade humana!
√ď c√≠rculos dantescos da loucura!
√ď luta, √ď luta secular, insana!

Que tu n√£o possas, Alma soberana,
Perpetuamente refulgir na Altura,
Na Aleluia da Luz, na clara Hosana
Do Sol, cantar, imortalmente pura.

Que tu n√£o posses, Sentimento ardente,
Viver, vibrar nos brilhos do ar fremente,
Por entre as chamas, os clar√Ķes supernos.

√ď Sons intraduz√≠veis, Formas, Cores!…
Ah! que eu n√£o possa eternizar as cores
Nos bronzes e nos m√°rmores eternos!

Desculpe, mas n√£o posso ficar sozinha contigo sen√£o nasce uma estrela no ar. Quem ama a solid√£o n√£o ama a liberdade.