Sonetos sobre Prata

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Sonetos de prata escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Incensos

Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
Por entre os sons dos órgãos soluçantes
Sobem nas catedrais os neblinantes
Incensos vagos, que recordam hinos…

Rolos d’incensos alvadios, finos
E transparentes, fulgidos, radiantes,
Que elevam-se aos espaços, ondulantes,
Em Quimeras e Sonhos diamantinos.

Relembrando turíbulos de prata
Incensos arom√°ticos desata
Teu corpo eb√ļrneo, de sedosos flancos.

Claros incensos imortais que exalam,
Que l√Ęnguidas e l√≠mpidas trescalam
As luas virgens dos teus seios brancos.

Se as Penas com que Amor T√£o Mal me Trata

Se as penas com que Amor t√£o mal me trata
Permitirem que eu tanto viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata,
Secar as frescas rosas, sem colhê-las,
Deixando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em fina prata;

Também, Senhora, então vereis mudado
O pensamento e a aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.

Ver-vos-eis suspirar por o passado,
Em tempo quando executar-se possa
No vosso arrepender minha vingança.

As Estrelas

L√°, nas celestes regi√Ķes distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca da Quimera,
L√°, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilus√Ķes insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas n√£o s√£o os ais perdidos
Das primitivas legi√Ķes humanas?!

Tatuagens Complicadas Do Meu Peito

Tatuagens complicadas do meu peito:
Trof√©us, emblemas, dois le√Ķes alados…
Mais, entre cora√ß√Ķes engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu bras√£o… Tem de oiro, num quartel
Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…
Divisa: um ai, – que insiste noite e dia
Lembrando ru√≠nas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,
E √°guias de negro, desfraldando as asas,
Que realça de oiro um colar de besantes!

Horas Rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de vol√ļpia, noites quentes
Onde h√° risos de virgens desmaiadas…

Oi√ßo olaias em flor √†s gargalhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
S√£o peda√ßos de prata p’las estradas…

Os meus l√°bios s√£o brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve e branca e mist’riosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
√ď meu Poeta, o beijo que procuras!

A √öltima Cigarra

Todas cantaram para mim. A ouvi-las,
Purifiquei meu sonho adolescente,
Quando a vida corria doidamente
Como um regato de √°guas intranq√ľilas.

Diante da luz do sol que eu tinha em frente,
Escancarei os braços e as pupilas.
Cigarras que eu amei! Para possui-las,
Sofri na vida como pouca gente.

E veio o outono… Por que veio o outono ?
Prata nos meus cabelos… Abandono…
Deserta a estrada… Quanta folha morta!

Mas, no esplendor do derradeiro poente,
Uma nova cigarra, diferente;
Como um raio de sol, bateu-me à porta.

Desaires Da Formosura.

Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.

Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga e mata,
N√£o livra o ser divina em ser ingrata
E raio a raio os cora√ß√Ķes fulmina.

Viu F√°bio uma tarde transportado
Bebendo admira√ß√Ķes, e galhardias
A quem j√° tanto amor levantou aras:

Disse igualmente amante e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias
Se sendo t√£o formosa n√£o cagaras!

Gata Angor√°

Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira seu corpo de pel√ļcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada…

Mal eu chego, ela vem… ( nunca a encontrei arisca)
-sempre essa ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo ch√£o deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, ela vem… l√Ęnguida, pregui√ßosa,
ro√ßar pelos meus p√©s a pel√ļcia prata,
como a implorar car√≠cias, t√≠mida e medrosa…

E tem tal express√£o, e um tal jeito qualquer,
Рque às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher!

Os Dois

Aos pobres

— Minha m√£e, minha m√£e, quanta grandeza
Nesses pl√°cidos, quanta majestade;
Como essa gente h√° de viver, como h√° de
Ser grande sempre na feliz riqueza.

Nem uma l√°grima sequer — e √† mesa
D’entre as baixelas, d’entre a imensidade
Da prata e do ouro — a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.

Nem um instante os olhos rasos d’√°gua,
Nem a ligeira oscilação da mágoa
Na vida farta de prazer, sonora.

— Como o teu louco pensamento expandes
Filho — a ventura n√£o √© s√≥ dos grandes
Porque, olha, o mar tamb√©m √© grande e… chore!

A Sesta De Nero

Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,
O palácio imperial de pórfiro luzente
E m√°rmor da Lac√īnia. O teto caprichoso
Mostra, em prata incrustado, o n√°car do Oriente.

Nero no toro eb√ļrneo estende-se indolente…
Gemas em profus√£o do estr√°gulo custoso
De ouro bordado vêem-se. O olhar deslumbra, ardente,
Da p√ļrpura da Tr√°cia o brilho esplendoroso.

Formosa ancila canta. A aurilavrada lira
Em suas mãos soluça. Os ares perfumando,
Arde a mirra da Ar√°bia em recendente pira.

Formas quebram, dançando, escravas em coréia.
E Nero dorme e sonha, a fronte reclinando
Nos alvos seios nus da l√ļbrica Pop√©ia.

O Relógio

Eb√ļrneo √© o mostrador: as horas s√£o de prata
Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.

Repara: eis um sal√£o: casquilho malicioso
Das festas cortes√£s o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.

Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas.

Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas.

A Fonte De √Āguas Cristalinas Corre

A fonte de √°guas cristalinas corre
Chamalotes de prata levantando,
E através de arvoredos murmurando,
Entre arvoredos murmurando morre…

No ocaso, o sol, a luz no oceano escorre
E sempre vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que canta e ri, lavando,
Mesmo que o sol muito abrasado jorre.

√Č verde o campo, deleit√°vel e ermo.
P√°ssaros cortam vastid√Ķes sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

E cantando, a mulher, a rir a face,
Lava cantando como se lavasse
As suas grandes e profundas m√°goas.

Canção da Partida

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu cora√ß√£o um peso de ferro… Lan√ß√°-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor n√£o queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta…
_ A √ļltima, de antes do teu noivado.
A sete chaves, _ a carta encantada!

E um len√ßo bordado… Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

Campesinas VII

Engrinaldada de rosas,
Surge a manh√£ pitoresca…
Que linda aquarela fresca
Nas veigas deliciosas!

Que bom gosto e perfumosas
Frutas traz, madrigalesca
A rapariga tudesca
Que vem das searas cheirosas!

Como os rios v√£o cantando,
Em sons de prata, ondulando,
Abaixo pelos marnéis!

Que carícia nas verduras,
Que vigor pelas culturas,
Que de ouro pelos vergéis!

1A Sombra – Marieta

Como o gênio da noite, que desata
O véu de , rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos… Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata

O seio virginal que a m√£o recata,
Embalde o prende a m√£o… cresce, flu
Sonha a mo√ßa ao relento… Al√©m na
Preludia um viol√£o na serenata!…

… Furtivos passos morrem no lajedo…
Resvala a escada do balc√£o discreta…
Matam l√°bios os beijos em segredo…

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta…

Cristais

Mais claro e fino do que as finas pratas
O som da tua voz deliciava…
Na dolência velada das sonatas
Como um perfume a tudo perfumava.

Era um som feito luz, eram volatas
Em l√Ęnguida espiral que iluminava,
Brancas sonoridades de cascatas…
Tanta harmonia melancolizava.

Filtros sutis de melodias, de ondas
De cantos volutuosos como rondas
De silfos leves, sensuais, lascivos…

Como que anseios invisíveis, mudos,
Da brancura das sedas e veludos,
Das virgindades, dos pudores vivos.

Claro E Escuro

Dentro — os cristais dos tempos fulgurantes,
M√ļsicas, pompas, fartos esplendores,
Luzes, radiando em prismas multicores,
Jarras formosas, lustres coruscantes,

P√ļrpuras ricas, galas flamejantes,
Cintila√ß√Ķes e c√Ęnticos e flores;
Promiscuamente férvidos odores,
Mórbidos, quentes, finos, penetrantes.

Por entre o incenso, em límpida cascata,
Dos siderais turíbulos de prata,
Das sedas raras das mulheres nobres;

Clara explos√£o fant√°stica de aurora,
Deslumbramentos, nos altares! — Fora,
Uma falange intérmina de pobres.

√öltimo Porto

Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e fest√Ķes, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A √°gua alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro…

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a m√£e comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir dos ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.

Marília De Dirceu

Soneto 2

Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um mont√£o de prata e ouro
Com pedras de valor o ch√£o curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

– Acabou – diz-me ent√£o – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e n√£o vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.

Menino e Moço

Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta Aguia, linda fada,
Que d’antes estendia as azas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz d’essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa viz√£o de luar que vivia encantada,
N’um castello de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, por√©m, Senhor! ellas n√£o voltam mais…