Sonetos sobre Negros

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Sonetos de negros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ave Dolorosa

Ave perdida para sempre Рcrença
Perdida Рsegue a trilha que te traça
O Destino, ave negra da Desgraça,
G√™mea da M√°goa e n√ļncia da Descren√ßa!

Dos sonhos meus na Catedral imensa
Que nunca pouses. Lá, na névoa baça
Onde o teu vulto l√ļrido esvoa√ßa,
Seja-te a vida uma agonia intensa!

Vives de crenças mortas e te nutres,
Empenhada na sanha dos abutres,
Num desespero r√°bido, assassino…

E h√°s de tombar um dia em m√°goas lentas,
Negrejadas das asas lutulentas
Que te emprestar o corvo do Destino!

Passei Ontem A Noite Junto Dela.

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divis√£o se erguia
Apenas entre nós Рe eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
M√ļsica mais do c√©u, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos l√°bios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
√Č sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Rompeu-Se O Denso Véu Do Atroz Marasmo

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Sup√Ķe quimera ser, ser cataclismo
Roga, j√° por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

Perd√£o, Filho da Luz, minh’alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilh√Ķes biparti de atroz moleza!

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co’as raias do porvir mede a grandeza!

O Cachimbo

Trigueiro, negro, enfarruscado,
Sou o cachimbo d’um autor,
incorrigível fumador,
Que me tem j√° quase queimado.

Quando o persegue ingente dor,
Eu, a fumar, sou comparado
Ao fogareiro improvisado
Para o jantar d’um lenhador.

Vai envolver-lhe a tova mente
O fumo azul e transparente
Da minha boca em erup√ß√£o…

A sua dor, prestes, se acalma;
Leva-lhe o fumo a paz à alma,
Vai Alegrar-lhe o coração!

Tradução de Delfim Guimarães

Dormindo

Pálida, bela, escultural, clorótica
Sobre o divã suavíssimo deitada,
Ela lembrava — a p√°lpebra cerrada —
Uma ilusão esplendida de ótica.

A peregrina carnação das formas,
— o sensual e l√≠mpido contorno,
Tinham esse quê de avérnico e de morno,
Davam a Zola as mais corretas normas!…

Ela dormia como a Vênus casta
E a negra coma aveludada e basta
Lhe resvalava sobre o doce flanco…

Enquanto o luar — pela janela aberta —
— como uma vaga exclama√ß√£o — incerta
Entrava a flux — cascateado — branco!!…

Na Roça

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atr√°s das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabi√° gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada…

Vinho Negro

O vinho negro do imortal pecado
Envenenou nossas humanas veias
Como fascina√ß√Ķes de atras sereias
E um inferno sinistro e perfumado.

O sangue canta, o sol maravilhado
Do nosso corpo, em ondas fartas, cheias.
como que quer rasgar essas cadeias
Em que a carne o retém acorrentado.

E o sangue chama o vinho negro e quente
Do pecado letal, impenitente,
O vinho negro do pecado inquieto.

E tudo nesse vinho mais se apura,
Ganha outra graça, forma e formosura,
Grave beleza d’esplendor secreto.

No Seio Da Terra

Do pélago dos pélagos sombrios,
C√° do seio da Terra, olhando as vidas,
Escuto o murmurar de almas perdidas,
Como o secreto murmurar dos rios.

Trazem-me os ventos negros calafrios
E os loluços das almas doloridas
Que têm sede das terras prometidas
E morrem como abutres erradios.

As √Ęnsias sobem, as tremendas √Ęnsias!
Velhices, mocidades e as inf√Ęncias
Humansa entre a Dor se despeda√ßam…

Mas, sobre tantos convulsivos gritos,
Passam horas, espaços, infinitos,
Esferas, gera√ß√Ķes, sonhando, passam!

A Um Epilético

Perguntar√°s quem sou?! – ao suor que te unta,
À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos
Da epilepsia horrenda, e nos abismos
Ninguém responderá tua pergunta!

Reclamada por negros magnetismos
Sua cabeça há de cair, defunta
Na aterradora operação conjunta
Da tarefa animal dos organismos!

Mas após o antropófago alambique
Em que é mister todo o teu corpo fique
Reduzido a excre√ß√Ķes de s√Ęnie e lodo,

Como a luz que arde, virgem, num monturo,
Tu h√°s de entrar completamente puro
Para a circulação do Grande Todo!

Campesinas II

De cabelos desmanchados,
Tu, teus olhos luminosos
Recordam-me uns saborosos
E raros frutos de prados.

Assim negros e quebrados,
Profundos, grandes, formosos,
Contêm fluidos vaporosos
S√£o como campos mondados.

Quando soltas os cabelos
Repletos de pesadelos
E de perfumes de ervagens;

Teus olhos, flor das violetas,
Lembram certas uvas pretas
Metidas entre folhagens.

Trágica Recordação

Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora
De o ver brincar, e avisto novamente
Seu pequenino Vulto transcendente,
Mas t√£o perfeito e vivo como outrora!

Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar a luz da aurora!

Julgo que ele ainda vive, mas j√° perto
Da Morte: sombra escura, abysmo aberto…
Pesadêlo de treva e nevoeiro!

√ď vis√£o da Crean√ßa ao p√© da Morte!
E a da M√£e, tendo ao lado a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

√öltimo Sonho De “soror Saudade

√Äquele que se perdera no caminho…

Soror Saudade abriu a sua cela…
E, num encanto que ninguém traduz,
Despiu o manto negro que era dela,
Seu vestido de noiva de Jesus.

E a noite escura, extasiada, ao vê-la,
As brancas m√£os no peito quase em cruz,
Teve um brilhar feérico de estrela
Que se esfolhasse em pétalas de luz!

Soror Saudade olhou…Que olhar profundo
Que sonha e espera?…Ah! como √© feio o mundo,
E os homens v√£os! — Ent√£o, devagarinho,

Soror Saudade entrou no seu convento…
E, até morrer, rezou, sem um lamento,
Por Um que se perdera no caminho!…

Raios não Peço ao Criador do Mundo

LX

Raios não peço ao Criador do Mundo,
Tormentas n√£o suplico ao Rei dos Mares,
Vulc√Ķes √† terra, furac√Ķes aos ares,
Negros monstros ao b√°ratro profundo:

N√£o rogo ao deus de amor que furibundo
Te arremesse do pé de seus altares;
Ou que a peste mortal voe a teus lares,
E murche o teu semblante rubicundo.

Não imploro em teu dano, ainda que os laços
Urdidos pela fé, com vil mudança
Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços:

Não quero outro despique, outra vingança,
Mais que ver-te em poder de indignos braços,
E dizer quem te perde, e quem te alcança.

Alucinação À Beira-Mar

Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o tel√ļrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!

Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!… O vento estava forte
E aquela matem√°tica da Morte
Com os seus n√ļmeros negros me assombrava!

Mas a alga usufructu√°ria dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,

No eterno horror das convuls√Ķes mar√≠timas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!

Na Rua

Veijo-a sempre passar séria, constante,
– √Äs vezes, inclinada na janella, –
Tranquilla, fria, e pallido o semblante,
Como uma santa triste de capella.

Seu riso sem callor como o brilhante
No nosso labio o proprio riso gella,
E ella nasceu para chorar diante
D’um Christo n’uma estreita e escura cella.

Seu olhar virginal como as crianças
Jamais disse do amor as cousas mansas;
Jamais vergou da Força ao choque rude.

Abrasa-a um fogo divinal secreto! –
eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto,
O brio intenso e negro da Virtude.

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
√ď ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a tr√°gicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

NinguémTe viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Noturno

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em dire√ß√£o ao negro cemit√©rio…
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua…
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele em silêncio, flutua
O lausperene mudo e s√ļplice das almas.

√Āguas Da Saudade Para Dirson Costa Que O Musicou

Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.

Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a dist√Ęncia que abriga vaga margem
das √°guas da saudade nos meus passos.

Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, n√£o cantei sua desdita.

Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, ch√£o de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.

Vê Minha Vida à Luz da Protecção

Vê minha vida à luz da protecção
que d√°s disposta a dar-se por amor
e quando a mãe te deu à luz com dor
o espírito adensou-se nela então

o mesmo que em espigas pelo ver√£o
a negra fronte bela foi compor
de inverno em voz amarga acusador
a cuja vista as l√°grimas vir√£o

Meu amor em teu corpo se cinzela
e dele os outros seres recebem vida
perante ti criança os que da ferida

sangram exposta ao mundo que flagela
A mim foste mais bálsamo porém
do que as curas bals√Ęmicas que tem.

Tradução de Vasco Graça Moura

Tatuagens Complicadas Do Meu Peito

Tatuagens complicadas do meu peito:
Trof√©us, emblemas, dois le√Ķes alados…
Mais, entre cora√ß√Ķes engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu bras√£o… Tem de oiro, num quartel
Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…
Divisa: um ai, – que insiste noite e dia
Lembrando ru√≠nas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,
E √°guias de negro, desfraldando as asas,
Que realça de oiro um colar de besantes!