Sonetos sobre Horror

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Sonetos de horror escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

LXVIII

Apenas rebentava no oriente
A clara luz da aurora, quando Fido,
O repouso deixando aborrecido,
Se punha a contemplar no mal, que sente.

Vê a nuvem, que foge ao transparente
An√ļncio do crep√ļsculo luzido;
E vê de todo em riso convertido
O horror, que dissipara o raio ardente.

Por que (diz) esta sorte, que se alcança
Entre a sombra, e a luz, n√£o sinto agora
No mal, que me atormenta, e que me cansa?

Aqui toda a tristeza se melhora:
Mas eu sem o prazer de uma esperança
Passo o ano, e o mês, o dia, a hora.

√ď Retrato Da Morte! √ď Noite Amiga

√ď retrato da Morte! √ď Noite amiga,
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

Vis√£o Da Morte

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espa√ßos estranhos, dos espa√ßos
Infinitos, int√©rminos, desertos…

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de m√°goa funer√°ria…

E causas febre e horror, frio, delírios,
√ď Noiva do Sepulcro, solit√°ria,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

Retrospecto

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

√ď mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo… E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

√ď Trevas, que Enlutais a Natureza

√ď trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plut√£o se goza,
N√£o aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras v√£s, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

Solilóquio

J√° que o sol pouco a pouco se desmaia
E meu mal cada vez mais se desvela,
Enquanto a pena, a √Ęnsia, a m√°goa vela,
Quero aqui estar sozinho nesta praia.

Que bravo o mar se vê! Como se ensaia
Na f√ļria e contra os ares se rebela!
Como se enrola! Como se encapela!
Parece quer sair da sua raia.

Mas também que inflexível, que constante
Aquela penha está à força dura
De tanto assalto e horror perseverante!

√ď empolado mar, penha segura,
Sois a imagem mais própria e semelhante
De meu fado e da minha desventura.

XXIV

Sonha em torrentes d’√°gua, o que abrasado
Na sede ardente est√°; sonha em riqueza
Aquele, que no horror de uma pobreza
Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado
De um contínuo delírio esta alma presa,
Quando é tudo rigor, tudo aspereza,
Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia
Do enfermo, do mendigo, se descobre
Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,
Se apesar desta ingrata aleivosia,
Quanto mais rico estou, estou mais pobre.

Alucinação À Beira-Mar

Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o tel√ļrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!

Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!… O vento estava forte
E aquela matem√°tica da Morte
Com os seus n√ļmeros negros me assombrava!

Mas a alga usufructu√°ria dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,

No eterno horror das convuls√Ķes mar√≠timas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!

Oh Retrato da Morte, oh Noite Amiga

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
Des meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Perante A Morte

Perante a Morte empalidece e treme,
Treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de l√°grimas, esquece
O Mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paiz√£o que s√≥ no horror floresce…
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes…

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

As Montanhas

II

Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contra√ß√Ķes de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terr√°quea luta
Quantos desejos férvidos de amor
N√£o dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agrega√ß√Ķes de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda n√£o existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

Soneto Na Morte De José Arthur Da Frota Moreira

Cantamos ao nascer o mesmo canto
De alegria, de s√ļplica e de horror
E a mulher nos surgiu no mesmo encanto
Na mesma d√ļvida e na mesma dor.

Criamos toda a sedução, e tanto
Que de nós seduzido, o sedutor
Morreu nas mesmas l√°grimas de amor
Ao milagre maior do amor em pranto.

Fui um pouco teu c√£o e teu mendigo
E tu, como eu, mendigo de outro p√£o
Sempre guardaste o p√£o do teu amigo

Meu misterioso irm√£o, sigo contigo
H√° tanto, tanto tempo, m√£o na m√£o…
Ouve como chora o coração.

Negra Fera, Que A Tudo As Garras Lanças

Negra fera, que a tudo as garras lanças,
Já murchaste, insensível a clamores,
Nas faces de Tirs√°lia as rubras flores,
Em meu peito as viçosas esperanças.

Monstro, que nunca em teus estragos cansas,
Vê as três Graças, vê os nus Amores
Como praguejam teus cruéis furores,
Ferindo os rostos, arrancando as tranças!

Domicílio da noute, horror sagrado,
Onde jaz destruída a formosura,
Abre-te, dá lugar a um desgraçado.

Eis des√ßo, eis cinzas palpo… Ah, Morte dura!
Ah, Tirs√°lia! Ah, meu bem, rosto adorado!
Torna, torna a fechar-te, ó sepultura!

XXVI

Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um rel√Ęmpago incendido?

Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.

Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Ver√°s a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.

A Dor

Torva Babel das l√°grimas, dos gritos,
Dos soluços, dos ais, dos longos brados,
A Dor galgou os mundos ignorados,
Os mais remotos, vagos infinitos.

Lembrando as religi√Ķes, lembrando os ritos,
Avassalara os povos condenados,
Pela treva, no horror, desesperados,
Na convuls√£o de T√Ęntalos aflitos.

Por buzinas e trompas assoprando
As gera√ß√Ķes v√£o todas proclamando
A grande Dor aos fr√≠gidos espa√ßos…

E assim parecem, pelos tempos mudos,
Ra√ßas de Prometeus tit√Ęnios, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!

Cede a Filosofia à Natureza

Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do Fado omnipotente;
Assaz contigo, ó Sócrates, na mente,
À dor neguei das queixas o tributo.

Sinto engelhar-se da const√Ęncia o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
J√° me n√£o vale um √Ęnimo inocente;
Gritos da Natureza, eu vos escuto!

Jazer mudo entre as garras da Amargura,
D’alma est√≥ica aspirar √† v√£ grandeza,
Quando orgulho n√£o for, ser√° loucura.

No espírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a Filosofia à Natureza.

Só!

Muito embora as estrelas do Infinito
L√° de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo t√£o tr√°gico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro…

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!

4A Sombra РFabíola

Como teu riso d√≥i… como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do p√°ssaro maldito,
Que em s√Ęnie de cad√°veres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um solu√ßo de amor pungente, aflito…
Fab√≠ola!… √Č teu nome!… Escuta √© um grito,
Que lacerante para os c√©us s’eleva!…

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores…

√Č sangue, que referve-te na ta√ßa!
√Č sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue √© meu sangue… √© meu… Desgra√ßa!

O Dote que se Oferece no Horror

o dote que se oferece no horror
dessa cidade é mais uma manobra difícil
das marés viradas em nossos pulsos
tal o esforço da visão da névoa

sonhos e vibra√ß√Ķes t√©cnicas est√£o a√≠
para tudo que seja atual
em frontes douradas pois ficou vazio
o que é pesado como o antigo absurdo

seu desejo excepcional ainda dentro
do medo com a mudança recente de vultos
interessados na superfície do arrependimento

mas chegou ao fim a f√ļria da indec√™ncia
e as unhas vistas entre os ossos podem matar
elas conhecem o que pode ser morto de novo

Boca Imortal

Abre a boca mordaz num riso convulsivo
√ď fera sensual, luxuriosa fera!
Que essa boca nervosa, em riso de pantera,
Quando ri para mim lembra um capro lascivo.

Teu olhar d√°-me febre e d√°-me um brusco e vivo
Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera,
Fico aceso no horror da paix√£o que ele gera,
Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.

Mas a boca produz tais sensa√ß√Ķes de morte,
O teu riso, afinal, é tão profundo e forte
E tem de tanta dor tantas negras raízes;

Rigolboche do tom, ó flor pompadouresca!
Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca
Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!