Sonetos sobre Céu

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Sonetos de céu escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Espera

Ela tarda… E eu me sinto inquieto, quando
julgo vê-la surgir, num vulto, adiante,
Рos lábios frios, trêmula e ofegante,
os seus olhos nos meus, linda, fitando…

O c√©u desfaz-se em luar… Um vento brando
nas folhagens cicia, acariciante,
enquanto com o olhar terno de amante
fico √† sombra da noite perscrutando…

E ela n√£o vem…Aumenta-me a ansiedade:
– o segundo que passa e me tortura,
√© o segundo sem fim da eternidade…

Mas eis que ela aparece de repente!…
– E eu feliz, chego a crer que igual ventura
bem valia esperar-se eternamente!…

Louvado Seja Amor em Meu Tormento

No tempo que de amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em v√°rias flamas variamente ardia.

Que ardesse n’um s√≥ fogo n√£o queria
O Céu porque tivesse experimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co’o peso descansou
Por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu t√£o cansado sofrimento!

Desejos V√£os

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastid√£o imensa!
Eu queria ser a Pedra que n√£o pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a √°rvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar tamb√©m chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem l√°grimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desej√°-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto n√£o √© mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
h√° logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de s√ļbito surgido √† flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

Humildade Secreta

Fico parado, em êxtase suspenso,
Às vezes, quando vou considerando
Na humildade simp√°tica, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.

Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
D’estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! tudo ao teu fen√īmeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.

De onde n√£o sei tanta simplicidade,
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.

Nos teus olhos tu alma transparece…
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.

Supremo Anseio

Esta profunda e intérmina esperança
Na qual eu tenho o espírito seguro,
A tão profunda imensidade avança
Como é profunda a idéia do futuro.

Abre-se em mim esse clar√£o, mais puro
Que o céu preclaro em matinal bonança:
Esse clar√£o, em que eu melhor fulguro,
Em que esta vida uma outra vida alcança.

Sim! Inda espero que no fim da estrada
Desta exist√™ncia de ilus√Ķes cravada
Eu veja sempre refulgir bem perto

Esse clar√£o esplendoroso e louro
Do amor de m√£e — que √© como um fruto de ouro,
Da alma de um filho no eternal deserto.

Que Hei De Fazer De Mim, Neste Quarto Sozinho

Que hei de fazer de mim, neste quarto sozinho
Apavorado, lancinado, corrompido
A solid√£o ardendo em meu corpo despido
E em volta apenas trevas e a imagem do carinho!

Defendido, a me encher como um rio contido
E eu s√≥, e eu sempre s√≥! √ď mis√©ria, √≥ pudor!
Vem, deita comigo, branco e r√°pido amor
Risca de estrelas cruéis meu céu perdido!

Lança uma virgem, se lança, sobre esse quarto
Fá-la que monte no teu sórdido inimigo
E que o asfixie sob o seu p√ļbis farto

Mas que prazer é o teu, pobre alma vazia
Que a um tempo ordenha l√°grimas contigo
E outras enxugas, fiéis lágrimas de agonia!

Passei Ontem A Noite Junto Dela.

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divis√£o se erguia
Apenas entre nós Рe eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
M√ļsica mais do c√©u, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos l√°bios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
√Č sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Vis√£o Da Morte

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espa√ßos estranhos, dos espa√ßos
Infinitos, int√©rminos, desertos…

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de m√°goa funer√°ria…

E causas febre e horror, frio, delírios,
√ď Noiva do Sepulcro, solit√°ria,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

Conciliação

Se essa ang√ļstia de amar te crucifica,
Não és da dor um simples fugitivo:
Ela marcou-te com o sinete vivo
Da sua estranha majestade rica.

√Čs sempre o Assinalado ideal que fica
Sorrindo e contemplando o céu altivo;
Dos Compassivos és o compassivo,
Na Transfiguração que glorifica.

Nunca mais de tremer ter√°s direito…
Da Natureza todo o Amor perfeito
Adorar√°s, venerar√°s contrito.

Ah! Basta encher, eternamente basta
Encher, encher toda esta Esfera vasta
Da convulsão do teu soluço aflito!

A Minha Piedade

A Bourbon e Meneses

Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensang√ľentam na subida!

Tenho pena de mim… pena de ti…
De n√£o beijar o riso duma estrela…
Pena dessa m√° hora em que nasci…

De n√£o ter asas para ir ver o c√©u…
De n√£o ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e n√£o ter sido Eu…

Amor E Religi√£o

Conheci-o: era um padre, um desses santos
Sacerdotes da Fé de crença pura,
Da sua fala na eternal doçura
Falava o coração. Quantos, oh! Quantos

Ouviram dele frases de candura
Que d’infelizes enxugavam prantos!
E como alegres n√£o ficaram tantos
Cora√ß√Ķes sem prazer e sem ventura!

No entanto dizem que este padre amara.
Morrera um dia desvairado, estulto,
Su’alma livre para o C√©u se alara.

E Deus lhe disse: “√Čs duas vezes santo,
Pois se da Religi√£o fizeste culto,
Foste do amor o m√°rtir sacrossanto.”

A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as n√°iades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abra√ßa e c’roa
A malfadada Inês na sepultura.

Ao P√© Do T√ļmulo

Aos meus

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
J√° vem cerrar-me as p√°lpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de v√≥s… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
√ď almas de minh’alma aben√ßoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que n√£o tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da m√°goa, enfim, no c√©u repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus pal√°cios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Al√©m-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigm√°ticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Ber√ßo vinde do c√©u √† minha porta…
√ď meu leite de n√ļpcias irreais!…
Meu sumptuoso t√ļmulo de morta!…

O Céu, A Terra, O Vento Sossegado

O c√©u, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem pela areia…
Os peixes, que no mar o sono enfreia…
O nocturno sil√™ncio repousado…

O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a √°gua se meneia,
chorando, o nome amado em v√£o nomeia,
que n√£o pode ser mais que nomeado:

Ondas (dezia), antes que Amor me mate,
torna-me a minha Ninfa, que t√£o cedo
me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

As Minhas M√£os

As minhas m√£os magritas, afiladas,
T√£o brancas como a √°gua da nascente,
Lembram p√°lidas rosas entornadas
Dum regaço de Infanta do Oriente.

M√£os de ninfa, de fada, de vidente,
Pobrezinhas em sedas enroladas,
Virgens mortas em luz amortalhadas
Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.

Magras e brancas… Foram assim feitas…
M√£os de enjeitada porque tu me enjeitas…
T√£o doces que elas s√£o! T√£o a meu gosto!

Pra que as quero eu – Deus! – Pra que as quero eu?!
√ď minhas m√£os, aonde est√° o c√©u?
…Aonde est√£o as linhas do teu rosto?

Alma Fatigada

Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
Mas repousar um pouco e repousar um tanto,
Os olhos enxugar das convuls√Ķes do pranto,
Enxugar e sentir a ideal serenidade.

A gra√ßa do consolo e da tranq√ľilidade
De um céu de carinhoso e perfumado encanto,
Mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
Sem o tédio senil da vã perpetuidade.

Um sonho lirial d’estrelas desoladas
Onde as almas febris, exaustas, fatigadas
Possam se recordar e repousar tranq√ľilas!

Um descanso de Amor, de celestes miragens,
Onde eu goze outra luz de místicas paisagens
E nunca mais pressinta o remexer de argilas!

No Mundo Quis Um Tempo Que Se Achasse

No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por exprimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.

Mas, por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta t√£o longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas m√£os de um leve lenho.

Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
j√° sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho j√°, que n√£o a tenho.

Se é Doce

Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os vol√°teis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os cora√ß√Ķes, floreia os prados,

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados.
Morte, morte de amor, melhor que a vida.