Sonetos sobre Olhar

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Sonetos de olhar escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Porque Descrês, Mulher, do Amor, da Vida?

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que vis√£o te fugio, que assim perdida
Buscas em v√£o n’este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao ch√£o pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descr√™s do viver?… E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

A Espera

Ela tarda… E eu me sinto inquieto, quando
julgo vê-la surgir, num vulto, adiante,
Рos lábios frios, trêmula e ofegante,
os seus olhos nos meus, linda, fitando…

O c√©u desfaz-se em luar… Um vento brando
nas folhagens cicia, acariciante,
enquanto com o olhar terno de amante
fico √† sombra da noite perscrutando…

E ela n√£o vem…Aumenta-me a ansiedade:
– o segundo que passa e me tortura,
√© o segundo sem fim da eternidade…

Mas eis que ela aparece de repente!…
– E eu feliz, chego a crer que igual ventura
bem valia esperar-se eternamente!…

Versos

Versos! Versos! Sei l√° o que s√£o versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou p√©talas que caem uma a uma…

Versos!… Sei l√°! Um verso √© o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu l√° tamb√©m que s√£o…
Sei l√°! Sei l√°!… Meu pobre cora√ß√£o
Partido em mil peda√ßos s√£o talvez…

Versos! Versos! Sei l√° o que s√£o versos…
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que n√£o cr√™s…

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a… Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de s√ļplicas, feria…

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilus√Ķes! sonhos meus! √≠eis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando…

Ci√ļme

Encontro em ti tudo o que imaginara
na mulher, para ser o meu ideal;
Рnão é só teu olhar, tua voz clara,
e essa express√£o que tens, sentimental!…

Nem essa graça ingênua, hoje tão rara,
de quem n√£o sabe onde se encontra o mal,
ou teu riso feliz, que se compara
ao tinir de uma ta√ßa de cristal…

√Č tudo em ti, tra√ßo por tra√ßo, tudo!
As tuas m√£os s√£o rendas de ternura;
teus carinhos, macios, de veludo.

Por isso mesmo é que é maior a dor,
quando amargo a mais íntima tortura
por n√£o ter sido o teu primeiro amor…

Está Cheio De Ti Meu Coração

Está cheio de ti meu coração
como a noite de estrelas est√° cheia,
t√£o cheia, que ao se olhar para a amplid√£o
o olhar de luz se inunda e se incendeia…

Está cheio de ti meu coração
como de ondas o mar que o dorso alteia,
como a praia que estende sobre o ch√£o
milh√Ķes de gr√£os do seu len√ßol de areia…

Está cheio de ti meu coração,
como uma taça, erguida, transbordante,
num momento de amor e de emoção,

– como o meu canto enquanto eu viva e eu cante
como o meu pensamento a todo instante
está cheio de ti meu coração!

A Esmola De Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o √ļltimo harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos l√°bios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

Soneto De Intimidade

Nas tardes da fazenda h√° muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a √°gua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ci√ļme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Soneto Do Amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retalia√ß√Ķes, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

√Č bom sent√°-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida n√£o explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

A Voz do Amor

Nessa pupila r√ļtila e molhada,
Ref√ļgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De solu√ßos e c√Ęnticos, murmura…

√Č a voz do Amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de s√ļplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, cora√ß√Ķes aflitos,
Tempestades de l√°grimas e flores…

Louvor A Unidade

“Escafandros, arp√Ķes, sondas e agulhas
“Debalde aplicas aos heterog√™neos
“Fen√īmenos, e, h√° in√ļmeros mil√™nios,
“Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas!

“Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas,
“Com essa intui√ß√£o mon√≠stica dos g√™nios,
“√Ä hirta forma falaz do are perennius
“A transitoriedade das fagulhas!”

– Era a estrangula√ß√£o, sem retumb√Ęncia,
Da multimilen√°ria disson√Ęncia
Que as harmonias siderais invade…

Era, numa alta aclamação, sem gritos,
O regresso dos √°tomos aflitos
Ao descanso perpétuo da Unidade!

O Meu Sonho Habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Ser√° morena, loira ou ruiva? ‚ÄĒ Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflex√Ķes de outras vozes que o tempo calou.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Freira

Em teu calmo semblante e em teu olhar parado
h√° perdido – bem sei – um mist√©rio qualquer…
– quem sabe se pecaste… e se foi teu pecado
quem te fez esquecer que √©s bela e que √© mulher…

Hoje es santa… O passado passou — √© passado…
– dele j√° n√£o ter√°s uma ilus√£o sequer,
e o amor que se tornou funesto e amargurado,
sepultas no sil√™ncio… e em teu √°rduo mister…

Mais √† frente est√° a vida… a vida humana e bela!
Рteu presente é uma prece; teu passado: um poema;
teu futuro: um ros√°rio, um altar, uma cela…

Evadida do mundo Рao ver-te, à luz do dia
– n√£o sei se te admiro a ren√ļncia suprema,
ou se lastimo a tua imensa covardia!

Barco Perdido

Oh! a vida √© uma grande ren√ļncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora…
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de ren√ļncia em ren√ļncia aos poucos vai embora…

Tu voltaste de novo… e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na express√£o comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida…

No entanto, que fazer? H√° uma √Ęncora no fundo…
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto…

Velas r√ītas ao vento… os mastros aos peda√ßos…
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto…

A Meu Pai Depois De Morto

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus l√°bios que os meus l√°bios osculam
Micro-organismos f√ļnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!…

Podre meu Pai! E a m√£o que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de org√≠acos festins!…

Amo meu Pai na at√īmica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

Amor Algébrico

Acabo de estudar Рda ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz – sem aura, sem manh√£,
A √Ālgebra criou – a mente, a alma mais s√£
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e p√°lido, cansado,
Dumas dez equa√ß√Ķes os v√©us hei arancado,
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

√Č tempo, √© tempo pois de, tr√™mulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.

Ela no meu Olhar

Os meus olhos s√£o √ćndias de segredos.
√Č Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas m√£os, bandeiras tremulando.

Seus gestos lembram lan√ßas. E ela passa…
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.

O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que n√£o existe
Maior mistério do que o de prendê-lo.

Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, √†s vezes, quando chora, p√Ķe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.

À Luz da Lua!

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D’uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

√Čvora

Ao amigo vindo da luminosa It√°lia, a minha cidade, como eu soturno e triste…

√Čvora! Ruas ermas sob os c√©us
Cor de violetas roxas…Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em v√£o tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

√Čvora!…O teu olhar…o teu perfil…
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

…Em cada viela o vulto dum fantasma…
E a minh’alma soturna escuta e pasma…
E sente-se passar menina e mo√ßa…

No Meio Do Caminho

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de s√ļbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua m√£o, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solit√°rio, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.