Sonetos sobre Noite

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Sonetos de noite escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Quem aos Olhos Dar-me-√° uma Vertente

Quem aos olhos dar-me-√° uma vertente
de l√°grimas, que manem noite e dia?
Ao menos a alma, enfim, respiraria,
chorando, ora o passado, ora o presente.

Quem me dar√°, longe de toda gente,
suspiros, que me valham na agonia
j√° longa, que o af√£ tanto encobria?
Sucedeu-me depois tanto acidente!

Quem me dar√° palavras com que iguale
tanto agravo que amor j√° me tem feito,
pois que t√£o pouco o sofrimento vale?

Ah! quem ao meio me abra este meu peito,
onde jaz tanto mal, por que se exale
tamanha coita minha e meu despeito?

Este Retrato Vosso é o Sinal

Este retrato vosso é o sinal
ao longe do que sois, por desamparo
destes olhos de c√°, porque um t√£o claro
lume n√£o pode ser vista mortal.

Quem tirou nunca o sol por natural?
Nem viu, se nuvens n√£o fazem reparo,
em noite escura ao longe aceso um faro?
Agora se não vê, ora vê mal.

Para uns tais olhos, que ninguém espera
de face a face, gram remédio fora
acertar o pintor ver-vos sorrindo.

Mas inda assim n√£o sei que ele fizera,
que a graça em vós não dorme em nenhuma hora.
Falando que far√°? Que far√° rindo?

Saudade do Teu Corpo

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo ‚Äď como um anjo triste
que enla√ßa nuvens pela noite calma?…

Anda a saudade do teu corpo (sentes?…)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que n√£o mentes
quando me escreves: ¬ęvem, meu todo amado…¬Ľ

√Č o teu corpo em sombra esta saudade…
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar √© escuridade…

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
√Č de noite este corpo que me assombra…
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

Lamento do Poeta Objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida,
como se, amando, eu existisse mais.
E leva-me o Destino em voz traída,
como se houvera encontros desiguais.

A multid√£o me cerca, e, renascida,
j√° dela terei fome de sinais.
E, mal a noite se demora ardida,
o medo e a solid√£o me esfriam tais

as cinzas desse amor que sacrifico.
Não é futura a só miséria. A queixa
também não é: e apenas acontece

no v√°cuo imenso que este amor me deixa,
quando maior, quando de si mais rico,
se d√° de mundo em mundo, e l√° me esquece.

As M√£os

Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das m√°scaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e n√£o s√£o remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da m√ļsica o luto do sil√™ncio.

Flores Da Lua

Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonol√™ncia…
Sonhos brancos da Lua e viva essência
Dos fantasmas noctívagos da Cova.

Da noite a tarda e taciturna trova
Solu√ßa, numa tremula dorm√™ncia…
Na mais branda, mais leve florescência
Tudo em Vis√Ķes e Imagens se renova.

Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
Mon√≥tono, infinito, estranho e lasso…

E das Origens na lux√ļria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as √°guas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clar√£o das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A √°gua cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clar√£o nascente do arrebol…

A Vida

“A Vida”
III
“… A vida √© assim, segue e ver√°s, – a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida…

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida…
– amanh√£, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida…

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardan√ßa…

E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,
ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!…”

Soneto Sentimental À Cidade De São Paulo

√ď cidade t√£o l√≠rica e t√£o fria!
Mercen√°ria, que importa – basta! – importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e frígida.

Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal h√° se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
H√° um pecador morrendo de beleza?

Cabelos

I

Cabelos! Quantas sensa√ß√Ķes ao v√™-los!
Cabelos negros, do esplendor sombrio,
Por onde corre o fluido vago e frio
Dos brumosos e longos pesadelos…

Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos,
Tudo que lembra as convuls√Ķes de um rio
Passa na noite c√°lida, no estio
Da noite tropical dos teus cabelos.

Passa através dos teus cabelos quentes,
Pela chama dos beijos inclementes,
Das dol√™ncias fatais, da nostalgia…

Auréola negra, majestosa, ondeada,
Alma da treva, densa e perfumada,
L√Ęnguida Noite da melancolia!

Mors – Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fant√°sticas estradas,

Donde vem ele? Que regi√Ķes sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
N√£o sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de express√£o potente,
Formid√°vel, mas pl√°cido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!”
Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

Mais Triste

√Č triste, diz a gente, a vastid√£o
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

√Č triste e dilacera o cora√ß√£o
Um poente do nosso Portugal!
E n√£o v√™em que eu sou…eu…afinal,
A coisa mais magoada das que o s√£o?!…

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
√Č um triste poente de amargura!

E a vastid√£o do Mar, toda essa √°gua
Trago-a dentro de mim num mar de M√°goa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

VI

P. Si√£o que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de vis√Ķes contritas…
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao C√©u as c√ļpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas
Aromatizam com os ung√ľentos brancos
dos nigromantes de mortais aromas…

Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.

Celeste

A uma criança

Eu fiz do Céu azul minha esperança
E dos astros dourados meu tesouro…
Imagina por que, doce criança,
Nas noites de luar meus sonhos douro!

Adivinha, se podes, quanto é mansa
A luz que bola sob um cílio de ouro.
E como é lindo um laço azul na trança
Embalsamada de um cabelo louro!

Imagina por que peço, na morte,
– Um esquife todo azul que me transporte,
Longe da terra, longe dos escolhos…

Imagina por que… mas, l√≠rio santo!
Não digas a ninguém que eu amo tanto
A cor de teu cabelo e dos teus olhos!

J√° Sobre o Coche de √Čbano Estrelado

Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que est√° mih’alma presa
√Ä vil mat√©ria l√Ęnguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

A Noite Desce

Como p√°lpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces m√£os piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim m√£os de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crep√ļsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lil√°s,
A noite p√Ķe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

Continue lendo…

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminui√ß√£o din√Ęmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

√Č a subvers√£o universal que amea√ßa
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E p√Ķe todos os astros na desgra√ßa!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federa√ß√Ķes sid√©ricas quebradas…
E eu s√≥, o √ļltimo a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A √ļnica luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

√äxtase B√ļdico

Abre-me os braços, Solidão profunda,
Reverência do céu, solenidade
Dos astros, tenebrosa majestade,
√ď planet√°ria comunh√£o fecunda!

√ďleo da noite, sacrossanto, inunda
Todo o meu ser, d√°-me essa castidade,
As azuis florescências da saudade,
Graça das graças imortais oriunda!

As estrelas cativas no teu seio
D√£o-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!

Abre-me os braços, Solidão radiante,
Funda, fenomenal e soluçante,
Larga e b√ļdica Noite Redentora!

Anseio

Que sou eu, neste erg√°stulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
– Trinta trili√Ķes de c√©lulas vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A √°urea m√£o taumit√ļrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementaríssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal…

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
N√£o poder dar-lhe vida material!