Sonetos sobre Fados

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Sonetos de fados escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo

Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte est√° chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa, que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos cora√ß√Ķes, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epit√°fio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratid√Ķes, matou-me Isabela.‚ÄĚ

LX

Valha-te Deus, cansada fantasia!
Que mais queres de mim? que mais pretendes?
Se quando na esperança mais te acendes,
Se desengana mais tua porfia!

Vagando regi√Ķes de dia em dia,
Novas conquistas, e troféus empreendes:
Ah que conheces mal, que mal entendes,
Onde chega do fado a tirania!

Trata de acomodar-te ao movimento
Dessa roda vol√ļvel, e descansa
Sobre t√£o fatigado pensamento.

E se inda crês no rosto da esperança,
Examina por dentro o fingimento;
E verás tempestade o que é bonança.

Minha Culpa

A Artur Ledesma

Sei l√°! Sei l√°! Eu sei l√° bem
Quem sou?! Um fogo-f√°tuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cen√°rio! Um vaiv√©m…

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei l√° quem Sou?! Sei l√°! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei l√° quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma est√°tua truncada de alabastro…
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei l√° quem sou?! Sei l√°! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…

Aquele, a Quem Mil Bens Outorga o Fado

Aquele, a quem mil bens outorga o Fado,
Desejo com raz√£o da vida amigo
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado:

Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque n√£o busco as sombras do jazigo,
Ref√ļgio perdur√°vel, e sagrado?

Ah! bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as pris√Ķes da humanidade,
Despe o vil manto, que pertence ao nada!

Mas eu tremo!…Que escuto?…√Č a Verdade,
√Č ela, √© ela que do c√©u me brada:
Oh terrível pregão da eternidade!

Espectros

Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!…

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia à mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,

Se a minh’alma h√°-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos tr√°gicos, malditos!
Se at√© dormindo, com ang√ļstia imensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!

O Sarcófago

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… √Č frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcófago, ereto e imóvel sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível
Que em toda a sua m√°scara se expande,
√Ä humana como√ß√£o impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

Da Mundana Lida, Eis Que Cansado

“Minha vida √© um mont√£o de ru√≠nas em √°rido deserto
Um abismo de ais e de suspiros”.

Da mundana lida, eis que cansado,
Co’a lira toda espeda√ßada,
A alma de suspiros retalhada,
Cumpre o infeliz seu triste fado.

Ai! que viver mais desgra√ßado!…
Que sorte t√£o crua e desazada!…
Quem assim tem a vida amargurada
Antes j√° morrer, ser sepultado.

Só eu triste padeço feras dores,
Imensas e de fel, sem terem fim,
Envolto no véu dos dissabores.

Oh! Cristo eu não sei se só a mim
Deste essa vida d’amargores,
Pois que é demais sofrer-se assim!

XXXV

Aquele, que enfermou de desgraçado,
N√£o espere encontrar ventura alguma:
Que o Céu ninguém consente, que presuma,
Que possa dominar seu duro fado.

Por mais, que gire o espírito cansado
Atr√°s de algum prazer, por mais em suma,
Que porfie, trabalhe, e se consuma,
Mudança não verá do triste estado.

N√£o basta algum valor, arte, ou engenho
A suspender o ardor, com que se move
A infausta roda do fatal despenho:

E bem que o peito humano as forças prove,
Que h√° de fazer o temer√°rio empenho,
Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.

À Sua Velhice

Meu corpo assaz tem sido espicaçado
Com buídos punhais, por mão da Morte,
Que arrebatado tem, da minha corte,
Grande rancho de quanto tenho amado.

N√£o me poupa a cruel no triste estado
Do caduco viver da minha Sorte:
Quando era vigoroso, moço forte,
Suportava com mais valor meu Fado.

Ent√£o as minhas √°speras feridas
N√£o tinham para mim tardias curas,
Porque o Tempo receitas tem, sabidas.

Mas velho e c’o vapor das sepulturas,
Como posso curar as desabridas
Chagas, das minhas novas amarguras?

Os Vestidos Elisa Revolvia

Os vestidos Elisa revolvia
que lh’Eneias deixara por mem√≥ria:
doces despojos da passada glória,
doces, quando seu Fado o consentia.

Entr’eles a fermosa espada via
que instrumento foi da triste história;
e, como quem de si tinha a vitória,
falando só com ela, assi dezia:

-Fermosa e nova espada, se ficaste
só para executares os enganos
de quem te quis deixar, em minha vida,

Sabe que tu comigo t’enganaste;
que, para me tirar de tantos danos,
sobeja me a tristeza da partida.

Enquanto outros Combatem

Empunhasse eu a espada dos valentes!
Impelisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis trémulos e ás gentes!

Respirariam meus pulm√Ķes contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado…
Ou caíra radioso, amortalhado
Na fulva luz dos gl√°dios reluzentes!

J√° n√£o veria dissipar-se a aurora
De meus in√ļteis anos, sem uma hora
Viver mais que de sonhos e ansiedade!

J√° n√£o veria em minhas m√£os piedosas
Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas
D’esta p√°lida e est√©ril mocidade!

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D’um enterro d’anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, l√° no escuro…

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n’o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caix√£o o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, √° bruta, aos empurr√Ķes,
V√° para a frente! Marcha! √Ā Vida! √Ā Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu’√© que espera
Um bacharel formado em illuz√Ķes
Pela Universidade da Chymera?

√ď Trevas, que Enlutais a Natureza

√ď trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plut√£o se goza,
N√£o aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras v√£s, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

O Raio Cristalino S’estendia

O raio cristalino s’estendia
pelo mundo, da Aurora marchetada,
quando Nise, pastora delicada,
donde a vida deixava, se partia.

Dos olhos, com que o Sol escurecia,
levando a vista em l√°grimas banhada,
de si, do Fado e Tempo magoada,
pondo os olhos no Céu, assi dezia:

-Nasce, sereno Sol, puro e luzente;
resplandece, fermosa e roxa Aurora,
qualquer alma alegrando descontente;

que a minha, sabe tu que, desd’agora,
jamais na vida a podes ver contente,
nem t√£o triste nenh√ľa outra pastora.

Morte, Juízo, Inferno e Paraíso

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilh√Ķes adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d’alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.

Soneto VII РÀ Mesma Senhora

Alcíone, perdido o esposo amado,
Ao céu o esposo sem cessar pedia;
Porém as ternas preces surdo ouvia
O céu, de seus amores descuidado.

Em v√£o o pranto seu d’alma arrancado
Tenta a pedra minar da campa fria;
A morte de seu pranto escarnecia,
De seu cruel penar se ria o fado.

Mas ah! ‚ÄĒ n√£o fora assim, se a voz tivera
T√£o bela, t√£o gentil, t√£o doce e clara,
Daquela que hoje neste palco impera.

Se assim cantasse, o t√ļmulo abalara
Do bem querido; e, branda a morte fera,
Vivo o extinto esposo lhe entregara.

Solilóquio

J√° que o sol pouco a pouco se desmaia
E meu mal cada vez mais se desvela,
Enquanto a pena, a √Ęnsia, a m√°goa vela,
Quero aqui estar sozinho nesta praia.

Que bravo o mar se vê! Como se ensaia
Na f√ļria e contra os ares se rebela!
Como se enrola! Como se encapela!
Parece quer sair da sua raia.

Mas também que inflexível, que constante
Aquela penha está à força dura
De tanto assalto e horror perseverante!

√ď empolado mar, penha segura,
Sois a imagem mais própria e semelhante
De meu fado e da minha desventura.

Soneto III – A Um Infeliz

Geme, geme, mortal infortunado,
√Č fado teu gemer continuamente:
Perante as leis do Fado √©s delinq√ľente,
Sempre tirano algoz ter√°s no Fado.

Mas para n√£o ser mais envenenado
O fel que essa alma bebe, e o mal que sente,
N√£o te iluda o falaz riso aparente
De um futuro de rosas coroado.

Só males o presente te afiança:
Encrustado de vermes charco imundo
Se te volve o passado na lembrança.

Busca, pois, o da morte ermo profundo:
Despedaça a grinalda da esperança:
Crava os olhos na campa, e deixa o mundo.

Apenas Vi Do Dia A Luz Brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
L√° de T√ļbal no emp√≥rio celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna m√£e, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irm√£os e do pai me p√īs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da p√°tria, longe da ventura,
Minhas faces com l√°grimas inundo.

E enquanto insana multid√£o procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

LXXVIII

Campos, que ao respirar meu triste peito
Murcha, e seca tornais vossa verdura,
N√£o vos assuste a p√°lida figura,
Com que o meu rosto vedes t√£o desfeito.

Vós me vistes um dia o doce efeito
Cantar do Deus de Amor, e da ventura;
Isso j√° se acabou; nada j√° dura;
Que tudo à vil desgraça está sujeito.

Tudo se muda enfim: nada h√°, que seja
De tão nobre, tão firme segurança,
Que n√£o encontre o fado, o tempo, a inveja.

Esta ordem natural a tudo alcança;
E se alguém um prodígio ver deseja,
Veja meu mal, que só não tem mudança.