Sonetos sobre Paz

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Sonetos de paz escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Hoje

Fiz anos hoje… Quero ver agora
Se este sofrer que me atormenta tanto
Me n√£o deixa lembrar a paz, o encanto,
A doce luz de meu viver de outr’ora.

Tão moça e mártir! Não conheço aurora,
Foge-me a vida no correr do pranto,
Bem como a nota de choroso canto
Que a noite leva pelo espaço em fora.

Minh’alma voa aos sonhos do passado,
Em busca sempre d’esse ninho amado
Onde pousava cheia de alegria.

Mas, de repente, num pavor de morte,
Sente cortar-lhe o v√īo a m√£o da sorte…
Minha ventura só durou um dia.

O Cachimbo

Trigueiro, negro, enfarruscado,
Sou o cachimbo d’um autor,
incorrigível fumador,
Que me tem j√° quase queimado.

Quando o persegue ingente dor,
Eu, a fumar, sou comparado
Ao fogareiro improvisado
Para o jantar d’um lenhador.

Vai envolver-lhe a tova mente
O fumo azul e transparente
Da minha boca em erup√ß√£o…

A sua dor, prestes, se acalma;
Leva-lhe o fumo a paz à alma,
Vai Alegrar-lhe o coração!

Tradução de Delfim Guimarães

O Grande Sonho

Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmula do vento
Chorar o teu mistério tenebroso.

Sobe dos astros ao clar√£o radioso,
Aos leves fluidos do luar nevoento,
Às urnas de cristal do firmamento,
√ď velho Sonho amargo e majestoso!

Sobe √†s estrelas r√ļtilas e frias,
Brancas e virginais eucaristias
De onde uma luz de eterna paz escorre.

Nessa Amplid√£o das Amplid√Ķes austeras
Chora o Sonho profundo das Esferas
Que nas azuis Melancolias morre…

Luta

Fluxo e refluxo eterno…
Jo√£o de Deus.

Dorme a noite encostada nas colinas.
Como um sonho de paz e esquecimento
Desponta a lua. Adormeceu o vento,
Adormeceram vales e campinas…

Mas a mim, cheia de atrac√ß√Ķes divinas,
D√°-me a noite rebate ao pensamento.
Sinto em volta de mim, tropel nevoento,
Os Destinos e as Almas peregrinas!

Insond√°vel problema!… Apavorado
Rec√ļa o pensamento!… E j√° prostrado
E est√ļpido √° for√ßa de fadiga,

Fito inconsciente as sombras vision√°rias,
Enquanto pelas praias solit√°rias
Ecoa, ó mar, a tua voz antiga.

Di√°logo

A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte √°spero e mudo:
‚ÄĒ Que √©s tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, √©s s√≥ fogo e horrida lava…

Mas a mim n√£o h√° alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil! ‚ÄĒ Por√©m a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

Noites Amadas

√ď noites claras de lua cheia!
Em vosso seio, noites chorosas,
Minh’alma canta como a sereia,
Vive cantando n’um mar de rosas;

Noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas,
√ď noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!

Vós sois um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha Esperan√ßa de m√°goas nua…

√ď noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Como eu vos amo, noites de lua!

Que Farei quando Tudo Arde?

Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a raz√£o. Amor, que jaz
i j√° de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

N√£o espera raz√Ķes, tudo √© despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a Raz√£o tempos espia,
espia ocasi√Ķes de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Ent√£o n√£o tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata trai√ß√Ķes, que n√£o confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Morte, Juízo, Inferno e Paraíso

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilh√Ķes adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d’alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.

As Estrelas

L√°, nas celestes regi√Ķes distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca da Quimera,
L√°, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilus√Ķes insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas n√£o s√£o os ais perdidos
Das primitivas legi√Ķes humanas?!

Apenas Vi Do Dia A Luz Brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
L√° de T√ļbal no emp√≥rio celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna m√£e, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irm√£os e do pai me p√īs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da p√°tria, longe da ventura,
Minhas faces com l√°grimas inundo.

E enquanto insana multid√£o procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Deixa-me em Paz

Nize, deixa-me em paz; porque j√° agora
No mar de Amor, por mais que √° vela saia,
Carcaça velha sou, que junto á praia,
Por n√£o poder surgir se desarvora.

Adeus, que quem me vir da barra fora,
√Č capaz de me dar alguma vaia:
E ao menos quero, antes que ao fundo caia,
Inda salvar-me: adeus; fica-te embora.

Bem sei que pouco é já; mas por vanglória
(Porque às vezes se faz do próprio dano)
A mesma falta hei-de fazer notória.

E no p√ļblico altar do Desengano,
Deixarei dos estragos por memória
O destroçado leme, e o roto pano.

Ansiedade

Esta ansiedade que nos enche o peito
Enche o céu, enche o mar, fecunda a terra.
Ela os germens puríssimos encerra
Do Sentimento límpido, perfeito.

Em jorros cristalinos o direito,
A paz vencendo as convuls√Ķes da guerra,
A liberdade que abre as asas e erra
Pelos caminhos do Infinito eleito.

Tudo na mesma ansiedade gira,
Rola no Espaço, dentre a luz suspira
E chora, chora, amargamente chora…

Tudo nos turbilh√Ķes da Imensidade
Se confunde na tr√°gica ansiedade
Que almas, estrelas, amplid√Ķes devora.

Aurora Morta, Foge! Eu Busco A Virgem Loura

Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura
Que fugiu-me do peito ao teu clar√£o de morte
E Ela era a minha estrela, o meu √ļnico Norte,
O grande Sol de afeto – o Sol que as almas doura!

Fugiu… e em si a Luz consoladora
Do amor – esse clar√£o eterno d’alma forte –
Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte
E da Noute da vida a Vênus Redentora.

Agora, oh! Minha M√°goa, agita as tuas asas,
Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas
E, num P√°lio auroral de Luz deslumbradora,

Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,
Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;
Aurora morta, foge – eu busco a virgem loura!

À Morte Peço a Paz Farto de Tudo

À morte peço a paz farto de tudo,
de ver talento a mendigar o p√£o,
e o oco abonitado e farfalhudo,
e a pura fé rasgada na traição,

e galas de ouro es despejados bustos,
e a virgindade à bruta rebentada,
e em justa perfeição tratos injustos,
e o valor da inépcia valer nada,

e autoridade na arte p√īr morda√ßa,
e pedantes a engenho dando lei,
e a verdade por lorpa como passa,

e no cativo bem o mal ser rei.
Farto disto, n√£o deixo o meu caminho,
pois se eu morrer, é o meu amor sozinho.

A França!

Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Gloria, em plena paz.
Terras da Patria somem-se na treva,
Agoas de Portugal ficam, atraz…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
N√£o sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu cora√ß√£o, na ancia em que jaz…

√ď Luzitania que te vaes √° vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
Na minha Nau Catharineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa √° gavea, marinheiro,
E grita, Fran√ßa! pelo amor de Deus!…

Lamento

Um diluvio de luz cae da montanha:
Eis o dia! eis o sol! o esposo amado!
Onde ha por toda a terra um só cuidado
Que n√£o dissipe a luz que o mundo banha?

Flor a custo medrada em erma penha,
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde ha ser de Deus t√£o olvidado
Para quem paz e alivio o céo não tenha?

Deus é Pae! Pae de toda a creatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre √© lembrado…

Ah! se Deus a seus filhos d√° ventura
N’esta hora santa… e eu s√≥ posso ser triste…
Serei filho, mas filho abandonado!

Crep√ļsculo

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de doc√ļra triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. √Č quando,
da rec√īndita paz das horas esquecidas,
v√£o, ao luar da saudade, os sonhos acordando…

E, na torre do peito, em pl√°cidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o r√©quiem de amor das ilus√Ķes perdidas.

Contrastes

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O √Ęngulo obtuso, pois, e o √Ęngulo reto,
Uma feição humana e outra divina
S√£o como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

As alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz tamb√©m os caix√Ķes do cemit√©rio!…

A Rua Dos Cataventos – XXXV

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em v√£o…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Express√£o!…

Eu lavarei comigo as madrugadas,
P√īr de s√≥is, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…

E um dia a morte h√° de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…

Qualquer Coisa de Paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milen√°ria
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solid√£o,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.