Sonetos sobre Pedras

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Sonetos de pedras escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Desejos V√£os

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastid√£o imensa!
Eu queria ser a Pedra que n√£o pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a √°rvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar tamb√©m chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem l√°grimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Soneto VII РÀ Mesma Senhora

Alcíone, perdido o esposo amado,
Ao céu o esposo sem cessar pedia;
Porém as ternas preces surdo ouvia
O céu, de seus amores descuidado.

Em v√£o o pranto seu d’alma arrancado
Tenta a pedra minar da campa fria;
A morte de seu pranto escarnecia,
De seu cruel penar se ria o fado.

Mas ah! ‚ÄĒ n√£o fora assim, se a voz tivera
T√£o bela, t√£o gentil, t√£o doce e clara,
Daquela que hoje neste palco impera.

Se assim cantasse, o t√ļmulo abalara
Do bem querido; e, branda a morte fera,
Vivo o extinto esposo lhe entregara.

Nona Sinfonia

√Č por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num pal√°cio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que s√£o ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus n√£o basta. √Č mais preciso o Homem.

Velhas Tristezas

Diluências de luz, velhas tristezas
Das almas que morreram para a lute!
Sois as sombras amadas de belezas
Hoje mais frias do que a pedra bruta.

Murm√ļrios inc√≥gnitos de gruta
Onde o Mar canta os salmos e as rudezas
De obscuras religi√Ķes — voz impoluta
De sodas as tit√Ęnicas grandezas.

Passai, lembrando as sensa√ß√Ķes antigas,
Paix√Ķes que foram j√° d√≥ceis amigas,
Na luz de eternos sóis glorificadas.

Alegrias de h√° tempos! E hoje e agora,
Velhas tristezas que se v√£o embora
No poente da Saudade amortalhadas!…

LIX

Lembrado estou, ó penhas, que algum dia,
Na muda solid√£o deste arvoredo,
Comuniquei convosco o meu segredo,
E apenas brando o zéfiro me ouvia.

Com l√°grimas meu peito enternecia
A dureza fatal deste rochedo,
E sobre ele uma tarde triste, e quêdo
A causa de meu mal eu escrevia.

Agora torno a ver, se a pedra dura
Conserva ainda intacta essa memória,
Que debuxou ent√£o minha escultura.

Que vejo! esta é a cifra: triste glória!
Para ser mais cruel a desventura,
Se fará imortal a minha história.

N√£o Canse o Cego Amor de me Guiar

Pois meus olhos n√£o cansam de chorar
Tristezas n√£o cansadas de cansar-me;
Pois n√£o se abranda o fogo em que abrasar-me
P√īde quem eu jamais pude abrandar;

N√£o canse o cego Amor de me guiar
Donde nunca de l√° possa tornar-me;
Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
Enquanto a fraca voz me n√£o deixar.

E se em montes, se em prados, e se em vales
Piedade mora alguma, algum amor
Em feras, plantas, aves, pedras, √°guas;

Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes m√°goas podem curar m√°goas.

Nunca em amor danou o atrevimento

Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.

Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
S√£o u~as ilus√Ķes que leva o vento.

Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.

Atrever-se é valor e não loucura;
Perder√° por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.

N√£o Me Aflige Do Potro A Viva Quina;

N√£o me aflige do potro a viva quina;
Da férrea maça o golpe não me ofende;
Sobre as chamas a m√£o se n√£o estende;
N√£o sofro do agulhete a ponta fina.

Grilh√£o pesado os passos n√£o domina;
Cruel arrocho a testa me n√£o fende;
À força perna ou braço se não rende;
Longa cadeia o colo n√£o me inclina.

√Āgua e pomo faminto n√£o procuro;
Grossa pedra n√£o cansa a humanidade;
A p√°ssaro voraz eu n√£o aturo.

Estes males não sinto, é bem verdade;
Porém sinto outro mal inda mais duro:
Da consorte e dos filhos a saudade!

De Martins Pena Foi Bem Triste A Sorte

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n’um deslumbramento,
Caiu, ferido pela m√£o da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como n√£o merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em v√£o procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
H√° de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!

XXIX

Ai Nise amada! se este meu tormento,
Se estes meus sentidíssimos gemidos
L√° no teu peito, l√° nos teus ouvidos
Achar pudessem brando acolhimento;

Como alegre em servir-te, como atento
Meus votos tributara agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos
Trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrast√°vel, pedra dura
De teu rigor não há correspondência,
Para os doces afetos de ternura;

Cesse de meus suspiros a veemência;
Que é fazer mais soberba a formosura
Adorar o rigor da resistência.

Olhos Suaves, que em Suaves Dias

Olhos suaves, que em suaves dias
Vi nos meus tantas vezes empregados;
Vista, que sobra esta alma despedias
Deleitosos farp√Ķes, no c√©u forjados:

Santu√°rios de amor, luzes sombrias,
Olhos, olhos da cor de meus cuidados,
Que podeis inflamar as pedras frias,
Animar cad√°veres mirrados:

Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,
Cuja verde arrog√Ęncia as nuvens toca,
Cuja hrrísona voz perturba os ares:

Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;
Troquei-vos pelos ais, pelos pesares:
Oh c√Ęmbio triste! oh deplor√°vel troca!

Ambiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus bra√ßos l√Ęnguidos tra√ßaram
O v√īo dum gesto para os alcan√ßar…

Se as minhas m√£os em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras b√°rbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solit√°ria
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? – Terra t√£o pisada!
Gota de chuva ao vento baloi√ßada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

Noitinha

A noite sobre n√≥s se debru√ßou…
Minha alma ajoelha, p√Ķe as m√£os e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
√Č √°gua dum gomil que se entornou…

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura algu√©m pelas quebradas fora…
Flores do campo, humildes, mesmo agora.
A noite, os olhos brandos, lhes fechou…

Fumo beijando o colmo dos casais…
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxin√≥is nos salgueirais…

Tranquilidade… calma… anoitecer…
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O cora√ß√£o das pedras a bater…

As Montanhas

II

Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contra√ß√Ķes de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terr√°quea luta
Quantos desejos férvidos de amor
N√£o dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agrega√ß√Ķes de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda n√£o existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

Êxtase De Mármore

√Ä grande atriz Apol√īnia.

O m√°rmore profundo e cinzelado
De uma est√°tua viril, deliciosa;
Essa pedra que geme, anseia e goza
Num misticismo altíssimo e calado;

Essa pedra imortal — campo rasgado
A comoção mais íntima e nervosa
Da alma do artista, de um frescor de rosa,
Feita do azul de um céu muito azulado;

Se te visse o clar√£o que pelos ombros
Teus, rola, cai, nos m√ļltiplos assombros
Da Arte sonora, plena de harmonia;

O mármore feliz que é muito artista
Tamb√©m — como tu √©s — √† tua vista
De humildade e ci√ļme, coraria!

Aqui Morava Um Rei

“Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gib√£o,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bord√£o,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sert√£o.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.”

Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
n√£o me sustenta o p√£o, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas m√£os cor de furioso celeiro,
tenho fome da p√°lida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crep√ļsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solid√£o de Quitratue.

A Morte Sendo Amor

Quantas vezes subi com a pedra às costas
para depois descer com o mesmo fardo
torneio em que sou alvo do meu dardo
próprio, a sangrar nas távolas de apostas.

N√£o me sei vencedor. Tampouco guardo
as dores, ou fraturas mais expostas.
Sei que vou quando chego e n√£o me tardo.
Lição que é nascitura e de ocasos

na transversal em curva me celebro
o vencedor, o torto sem atrasos.
Eis aí a certeza derradeira

que chega invit√°vel sem ter prazos:
vivi todas subidas e descidas
amortecendo o amor sem as feridas

Pede o Desejo, Dama, que Vos Veja

Pede o desejo, Dama, que vos veja:
N√£o entende o que pede; est√° enganado.
√Č este amor t√£o fino e t√£o delgado,
Que quem o tem n√£o sabe o que deseja.

N√£o h√° cousa, a qual natural seja,
Que não queira perpétuo o seu estado.
N√£o quer logo o desejo o desejado,
Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

Assim meu pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre e humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

Joropo Para Timples E Harpa

Em duas asas prontas para o v√īo
assim se foi em par a minha vida
e com rilhar de dentes me perd√īo
trilhando as horas nuas na medida

Bilros tecendo rendas amarelas
bordando em v√£o um tempo j√° remoto
no sol dos girassóis da cidadela
canto um recanto que me faz devoto

A dor que existe em mim raiz que medra
no rastro mais sombrio as minhas luas
talvez não fora Sísifo ou a pedra

que encontro todo dia pelas ruas
ao revirar as heras nessa redra
trilhando na medida as horas nuas