Sonetos sobre Raios

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Sonetos de raios escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a… Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de s√ļplicas, feria…

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilus√Ķes! sonhos meus! √≠eis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando…

A um Poeta

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! √Č tempo! O sol, j√° alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera s√≥ um aceno…

Escuta! √Č a grande voz das multid√Ķes!
S√£o teus irm√£os, que se erguem! S√£o can√ß√Ķes…
Mas de guerra… e s√£o vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

O Raio Cristalino S’estendia

O raio cristalino s’estendia
pelo mundo, da Aurora marchetada,
quando Nise, pastora delicada,
donde a vida deixava, se partia.

Dos olhos, com que o Sol escurecia,
levando a vista em l√°grimas banhada,
de si, do Fado e Tempo magoada,
pondo os olhos no Céu, assi dezia:

-Nasce, sereno Sol, puro e luzente;
resplandece, fermosa e roxa Aurora,
qualquer alma alegrando descontente;

que a minha, sabe tu que, desd’agora,
jamais na vida a podes ver contente,
nem t√£o triste nenh√ľa outra pastora.

Esperança Amorosa

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilus√Ķes do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir: porém segredo!

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Quem nem quero que o saiba o pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque, se ele o souber, ter√° ci√ļmes,
Vibrar√° contra mim seu raio ardente.

Sol E Anarda

O sol ostenta a graça luminosa,
Anarda por luzida se pondera;
o sol é brilhador na quarta esfera,
brilha Anarda na esfera de formosa.

Fomenta o sol a chama calorosa,
Artarda ao peito viva chama altera,
o jasmim, cravo e rosa ao sol se esmera,
cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

O sol à sombra dá belos desmaios,
com os olhos de Anarda a sombra é clara,
pinta maios o sol, Anarda maios.

Mas (desiguais só nisto) se repara
o sol liberal sempre de seus raios,
Anarda de seus raios sempre avara.

Soneto da Nudez

H√° um misto de azul e trevas agitadas
Nesse felino olhar de l√ļbrica bacante.
Quando lhe cai aos pés a roupa flutuante,
Contemplo, mudo e absorto, as formas recatadas.

Nessa mulher esplende um poema deslumbrante
De vol√ļpia e langor; em noites tresloucadas
Que suave não é nas rosas perfumadas
De seus l√°bios beber o aroma inebriante!

Fascina, quando a vejo à noite seminua,
Postas as m√£os no seio, onde o desejo estua,
A boca descerrada, amortecido o olhar…

Fascina, mas sua alma é lodo, onde não pousa
Um raio dessa aurora, o amor, sublime cousa!
Raio de luz perdido em tormentoso mar!

LXIV

Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!
Parece, que se cansa, de que a um triste
Haja de aparecer: quanto resiste
A seu raio este sítio tenebroso!

N√£o pode ser, que o giro luminoso
Tanto tempo detenha: se persiste
Acaso o meu delírio! se me assiste
Ainda aquele humor t√£o venenoso!

Aquela porta ali se est√° cerrando;
Dela sai um pastor: outro assobia,
E o gado para o monte vai chamando.

Ora n√£o h√° mais louca fantasia!
Mas quem anda, como eu, assim penando,
Não sabe, quando é noite, ou quando é dia.

Barrow-On-Furness III

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjetiva!
Qual “leva ao mar”! Tua presen√ßa esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que n√£o se ativa,
Morre a p√īr etiquetas ao grande ar…

Escancarado Furness, mais três dias
Te, aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibil√≠ssimas vistorias…

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu ir√°s do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso…

Ajuste De Contas

Esta manh√£ me acorda para a vida
vinda com luz amena no meu rosto.
Pela janela os raios em descida
s√£o aspas de uma lauda sem desgosto.

Das queixas n√£o me queixo na acolhida
pois somam menos que o maior imposto.
Vale essa vida até aqui vivida
no tom alegre em que me trago exposto.

Mas n√£o me escoro no dever cumprido
porque de ver em muito haver implica
por este olhar ainda n√£o vencido.

Quisera essa alegria que me fica
chegar ao ch√£o de muito irm√£o ferido
de vida desigual que n√£o se explica.

XLI

Injusto Amor, se de teu jugo isento
Eu vira respirar a liberdade,
Se eu pudesse da tua divindade
Cantar um dia alegre o vencimento;

N√£o lograras, Amor, que o meu tormento,
Vítima ardesse a tanta crueldade;
Nem se cobrira o campo da vaidade
Desses troféus, que paga o rendimento:

Mas se fugir n√£o pude ao golpe ativo,
Buscando por meu gosto tanto estrago,
Por que te encontro, Amor, t√£o vingativo?

Se um tal despojo a teus altares trago,
Siga a quem te despreza, o raio esquivo;
Alente a quem te busca, o doce afago.

Quero-te Apenas Porque a Ti Eu Quero

N√£o te quero sen√£o porque te quero
e de querer-te a n√£o querer-te chego
e de esperar-te quando n√£o te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumir√° talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um √°lamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as p√°lidas areias
Nas por√ß√Ķes do riqu√≠ssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

O Beija-Flor

NOTA: Tradu√ß√£o do poema “Le Colibri”, de Leconte de Lisle

O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, tran√ßa d’ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

R√°pido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito √ļmido a fuzilar.

Desce sobre a √°urea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre n√£o sabendo se a pode esgotar!

Em teus l√°bios t√£o puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!

Tempestade Amaz√īnica

O calor asfixia e o ar escurece. O rio,
Quieto, n√£o tem uma onda. Os insetos na mata
Zumbem tontos de medo. E o p√°ssaro, o sombrio
Da floresta procura, onde a chuva n√£o bata.

S√ļbito, o raio estala. O vento zune. Um frio
De terror tudo invade… E o temporal desata
As peias pelo espaço e, bufando, bravio,
O arvoredo retorce e as folhas arrebata.

O anoso buriti curva a copa, e farfalha.
Aves rodam no céu, num estéril esforço,
Entre nuvens de folha e fragmentos de palha.

No alto o trov√£o repousa e em baixo a mata brama.
Ruge em meio a amplid√£o. Das nuvens pelo dorso
Correm serpes de fogo. E a chuva se derrama…

Silêncios

Largos Silêncios interpretativos,
Adoçados por funda nostalgia,
Balada de consolo e simpatia
Que os sentimentos meus torna cativos.

Harmonia de doces lenitivos,
Sombra, segredo, l√°grima, harmonia
Da alma serena, da alma fugidia
Nos seus vagos espasmos sugestivos.

√ď Sil√™ncios! √≥ c√Ęndidos desmaios,
V√°cuos fecundos de celestes raios
De sonhos, no mais l√≠mpido cortejo…

Eu vos sinto os mistérios insondáveis,
Como de estranhos anjos inef√°veis
O glorioso esplendor de um grande beijo!

Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
n√£o me sustenta o p√£o, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas m√£os cor de furioso celeiro,
tenho fome da p√°lida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crep√ļsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solid√£o de Quitratue.

XXXV

Aquele, que enfermou de desgraçado,
N√£o espere encontrar ventura alguma:
Que o Céu ninguém consente, que presuma,
Que possa dominar seu duro fado.

Por mais, que gire o espírito cansado
Atr√°s de algum prazer, por mais em suma,
Que porfie, trabalhe, e se consuma,
Mudança não verá do triste estado.

N√£o basta algum valor, arte, ou engenho
A suspender o ardor, com que se move
A infausta roda do fatal despenho:

E bem que o peito humano as forças prove,
Que h√° de fazer o temer√°rio empenho,
Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.

O Filho De Latona Esclarecido

O filho de Latona esclarecido,
que com seu raio alegra a humana gente,
o hórrido Piton, brava serpente,
matou, sendo das gentes t√£o temido.

Feriu com arco, e de arco foi ferido,
com ponta aguda d’ouro reluzente;
nas tess√°licas praias, docemente,
pela Ninfa Peneia andou perdido.

N√£o lhe p√īde valer, para seu dano,
ciência, diligências, nem respeito
de ser alto, celeste e soberano.

Se este nunca alcançou nem um engano
de quem era t√£o pouco em seu respeito,
eu que espero de um ser que é mais que humano?

Musica Misteriosa

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampad√°rios,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clar√Ķes dormentes…

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermit√Ķes e de ascetas reverentes…

C√Ęnticos vagos, infinitos, a√©reos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo…

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na l√°ctea claridade que flutua,
A surdina das l√°grimas subindo…

Trevas

Haverá, por hipótese, nas geenas
Luz bastante fulmínea que transforme
Dentro da noite cavernosa e enorme
Minhas trevas anímicas serenas?!

Raio horrendo haver√° que as rasgue apenas?!
N√£o! Porque, na abismal subst√Ęncia informe,
Para convulsionar a alma que dorme
Todas as tempestades s√£o pequenas!

Há de a Terra vibrar na ardência infinda
Do éter em branca luz transubstanciado,
Rotos os nimbos maus que a obstruem a √™smo…

A própria Esfinge há de falar-vos ainda
E eu, somente eu, hei de ficar trancado
Na noite aterradora de mim mesmo!