Cita√ß√Ķes de Ariano Suassuna

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Ariano Suassuna para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Arte pra mim n√£o √© produto de mercado. Podem me chamar de rom√Ęntico. Arte pra mim √© miss√£o, voca√ß√£o e festa.

Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e at√© a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho √Č com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.

Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança.

Aqui Morava Um Rei

“Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gib√£o,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bord√£o,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sert√£o.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.”

Os otimistas são ingênuos, os pessimistas são amargos, mas vale ser um realista esperançoso.

Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado: fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo.

Que é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.

Venha sexta musa mensageira, do reino de Eloim, me traga a pena de Apolo e escreve aqui por mim: O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim!

L√°pide

(com tema de Virgílio, o Latino,
e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)

Quando eu morrer, n√£o soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalg√°-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Ch√£o pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em v√£o ‚Äď Sangue insensato e vagabundo ‚ÄĒ
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

Sou a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando as peculiaridades locais e nacionais.

O Amor E A Morte

(com tema de Augusto dos Anjos)

Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
‚ÄĒ √≥ Cor√ßa branca, √≥ ruiva Leoparda.

O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.

Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, h√£o de abras√°-lo os inimigos.

E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Drag√Ķes antigos.

O Mundo Do Sert√£o

(com tema do nosso armorial)

Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

A Moça Caetana A Morte Sertaneja

(com tema de Deborah Brennand)

Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso,
e os dentes de Coral da desumana.

Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel,
os peitos fascinantes e esquisitos.
Na m√£o direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.

Na fronte, uma coroa e o Gavi√£o.
Nas esp√°duas, as Asas deslumbrantes
que, rufiando nas pedras do Sert√£o,

pairavam sobre Urtigas causticantes,
caules de prata, espinhos estrelados
e os cachos do meu Sangue iluminado.

A Morte РO Sol Do Terrível

(com tema de Renato Carneiro Campos)

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
n√£o houve quem cortasse ou desatasse.

N√£o serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
Verei feita em top√°zio a luz da Tarde,
pedra do Sono e cetro do Assassino.

Ela vir√°, Mulher, afiando as asas,
com os dentes de cristal, feitos de brasas,
e h√° de sagrar-me a vista o Gavi√£o.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sert√£o.