Passagens sobre Nudez

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Frases sobre nudez, poemas sobre nudez e outras passagens sobre nudez para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ode a Lídia

Esta s√ļbita chuva que desaba
pela pele morena
de teu rosto
por teu riso por teus ombros
pelos teus longos
cabelos
cai na terra
‚ÄĒ ouve bem ‚ÄĒ

com o peso, o
doce peso de milénios

Pois verdade é que outra
é a água
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro h√ļmido
da terra, mesmo
nas √°rvores
o √°spero, esperado canto
de ver√£o

Tudo, nada mudou

Pois verdade é que outra
é a água
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro h√ļmido
da terra, mesmo
nas √°rvores
o √°spero, esperado canto
de ver√£o

Tudo, nada mudou

Bebe pois desta √°gua
bebe
bebe com todo o teu corpo
até que toda te farte
bebe
até que te embriague
a milenar
experiência
do planeta

Bebe e
(s√°bia)
colhe nas m√£os o momento
que esvoaça
‚ÄĒ este breve momento em que
como duas crianças
somos
e amamos

A dor pede pudor. O sofrimento √© uma nudez – n√£o se mostra aos p√ļblicos.

Minha M√£e, Minha M√£e!

Minha m√£e, minha m√£e! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que j√° sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as can√ß√Ķes das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao C√©u!…
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que est√° no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escurid√£o.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paix√Ķes e por todas as m√°goas…
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
V√£o em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.

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O Mundo, o Demónio e a Carne

Rel√Ęmpago adormecido
entre a malva e o estalo
tua pen√ļria, √≥ Mundo
√© a minha pen√ļria.
Somos a mesma falta
de olhos a perseguir
a vis√£o que negou
o barro de meu rosto.

Demónio entre o retinir
das esporas e o redondo
dia,
que fizeste da luz
a arder em minha alma?
Sou teu c√ļmplice na m√£o
que apertou o pensamento
em sua nudez.

Carne de minha carne
entre uma pedra e outra
abre-se o trigo
da maldição.
Nossos corpos s√£o nossos
mas o abraço rói
o h√°lito que foi um
antes de existirmos.

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Os Amantes com Casa

Andavam pela casa amando-se
no ch√£o e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no ch√£o e contra as paredes.
Ent√£o era a m√ļsica, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas m√£os
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no ch√£o.
Se mais n√£o pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no ch√£o
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.

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O homem s√≥ peca contra o homem e contra as suas cria√ß√Ķes. S√≥ para olhos verdadeiramente impuros √© que a nudez de Miguel √āngelo precisava de camisas.

Cantar do Amigo Perfeito

Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que pass√°mos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?

Aqui passe√°mos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiança
tranquila e √°spera, animal e t√°cita,
j√° menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui,

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Como é que a Solidão Hei-de Ir Medindo?

Como é que a solidão hei-de ir medindo?
desse-me os golpes de uso inda esta dor
um a um sua nudez a sobrepor
que o ritmo sem nome a foi vestindo

mas sofro agora o tempo nu saindo
numa levada sem nenhum teor
gasto caudal do meu rio interior
nem chora o peito por mais gritos vindo

Quando é que é novo ano na amargura
quando volto a chegar-me à desventura
que me faz falta em ocos dias vis.

ah quando é que arde escura em cores febris
à testa do ano como a vi na altura
do agosto em chamas funda cicatriz?

Tradução de Vasco Graça Moura

A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

N√£o existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna l√Ęmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca n√£o atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a m√£o se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros voc√°bulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

A Alvorada do Amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Ad√£o, vendo fechar-se a porta do √Čden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Aben√ß√īo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as l√°grimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indigna√ß√£o…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tuf√£o de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulc√Ķes, encrespa a √°gua dos rios;
As estrelas est√£o cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o c√©u…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o ch√£o; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

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Roma Pag√£

Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.

O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilínio,
Num doce tom de cor, espl√™ndido e sang√ľ√≠neo,
Tinha o assombro da came e a forma da serpente.

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, eb√ļrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A p√ļrpura do sangue e a p√ļrpura dos vinhos.

Anfitrite

Louco, às doudas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor col√©rico passeia…
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um p√°ssaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua m√°goa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando √† tona d’√°gua,

L√° vai… mostrando √† luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.

Ilus√£o

Vens todas as madrugadas
prender-te nos meus sonhos,
‚ÄĒest√°tua de Biz√Ęncio
esculpida em neve!
e poisas a tua m√Ęo
mavia e leve
nas minhas p√°lpebras magoadas…

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol!…
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em r√ļbidos clar√Ķes,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensa√ß√Ķes!…

√Čs linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!…

Quero prender-me à mentira loira
do teu gr√°cil recorte…
E os teus beijos perfumados,
nen√ļfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispa√ß√Ķes,
tombam sobre eu meus nervos
partidos… estilha√ßados!

……………………….

Acordo. E os teus braços,
muito ao longe,
desfiam ainda
a cabeleira fulva
do sol
por sobre os oiros adormecidos
da minha alcova…

Vis√£o bendita!

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Evocação

Levanta-te Romeu do t√ļmulo em que dormes
E vem sorrir de novo à boa, à eterna luz!
De noite, ouço dizer que há sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto: ‚ÄĒ assim, que bem que est√°s!

Na terra h√£o de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruído
Nas horas vis do tedio e das insonias m√°s.

O mundo transformou-se; aquele fundo abismo
Do antigo amor fatal, fechou-se d’uma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto pódes crer; faz muito menos frio
√Ā luz do novo sol; do gaz provocador;
E o século apesar de gasto e doentio,
N√£o pode j√° escutar o c√Ęntico sombrio
Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos céus ainda por ti levanta as brancas mãos;
E enquanto por mim corre a tétrica ampulheta,

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