Sonetos sobre Inimigos

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Sonetos de inimigos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto XXXI

Fujo de mi, quando me n√£o precato
Sem querer outra vez me acho comigo,
Tenho-me por suspeito e inimigo,
E comigo perpétua guerra trato.

Entrando em mi destruo, prendo e mato,
Mas eu quando me vejo em tal pirigo
Contra mi me levanto e me persigo
A ferro e sangue, sem querer contrato.

Por mi tenho os sentidos, que me acodem;
A raz√£o co’a vontade e co’a mem√≥ria
Sustentam contra mi outro partido.

Ai civil guerra sem despojo e glória,
Onde os que podem mais contra si podem,
Onde o que é vencedor fica vencido.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na inc√≥gnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiqu√≠ssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso pa√ļl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e √†s vezes choro…
Mas estendendo as m√£os no v√°cuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Quando O Sol Encoberto Vai Mostrando

Quando o Sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de √ľa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi, os cabelos concertando;
ali, co a m√£o na face t√£o fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.

aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos t√£o isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;

qui se entristeceu, ali se riu;
enfim, nestes cansados pensamentos
passo esta vida v√£, que sempre dura.

III

Pastores, que levais ao monte o gado,
Vêde lá como andais por essa serra;
Que para dar cont√°gio a toda a terra,
Basta ver se o meu rosto magoado:

Eu ando (vós me vêdes) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
√Č a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.

Se a quereis conhecer, vinde comigo,
Vereis a formosura, que eu adoro;
Mas n√£o; tanto n√£o sou vosso inimigo:

Deixai, n√£o a vejais; eu vo-lo imploro;
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.

√ď Retrato Da Morte! √ď Noite Amiga

√ď retrato da Morte! √ď Noite amiga,
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

Arda De Raiva Contra Mim A Intriga

Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaci√°vel;
Destile seu veneno detest√°vel
A vil cal√ļnia, p√©rfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome n√£o preciso;
Sei insultar uns c√°lculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
De uns l√°bios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens s√£o, desprezo e piso.

Que Vençais no Oriente tantos Reis

Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da √ćndia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos d√° mais fama inda no mundo,
√Č vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratid√Ķes, t√£o grande inveja.

LXXXII

Piedosos troncos, que a meu terno pranto
Comovidos estais, uma inimiga
E quem fere o meu peito, é quem me obriga
A tanto suspirar, a gemer tanto.

Amei a Lise; é Lise o doce encanto,
A bela ocasi√£o desta fadiga;
Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga
Em um tormento, em um fatal quebranto?

Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora
Vós a vêdes talvez, dizei, que eu cego
Vos contei… mas calai, calai embora.

Se tanto a minha dor a elevar chego,
Em fé de um peito, que tão fino adora,
Ao meu silêncio o meu martírio entrego.

Oh Retrato da Morte, oh Noite Amiga

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
Des meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
√Č a for√ßa e a gra√ßa na simplicidade.

Luiz Gama

A Raul Pompéia

Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os b√°rbaros, contra os desumanos;

Quando a alma brava e procelosa abrias
Inverg√°vel ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias…

Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilh√Ķes a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.

Morreste!… Embalde, Escravid√£o! Por terra
Rolou… Morreu por n√£o poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!

A Minha M√£e

Lembra alvuras de cisne sobre um lago
A minha vida imaculada e honesta…
Ouço bater meu coração em festa,
Pela bondade e amor que nele trago!

Do meu orgulho olímpico de mago
Só o desdém aos inimigos resta,
Maior que às folhas mortas da floresta,
Que nos meus dedos p√°lidos esmago.

Mas a piedade enche o meu peito, e vem,
Em vez de tão humano e vil desdém,
Ungir meus l√°bios de um perd√£o divino…

Julguei ser Deus! E choro de cansa√ßo…
Oh, mãe piedosa, embala no regaço
Meu cora√ß√£o exausto de menino!…

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem:
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que s√£o? Dois inimigos.

Amantes s√£o meninos estragados
pelo mimo de amar: e n√£o percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Rel√≠quia √ćntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saber√°s que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasi√£o ter√°s presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Sen√£o, escolhe outro lugar azado;
Mas d√° logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destr√≥i cada ilus√£o que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, ent√£o piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, rec√īndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura √ļnica consiste
Em parecer aos outros venturosa!

A Noite n√£o me Deu nenhum Sossego

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite n√£o me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de m√£os dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de d√ļbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

Tradução de Carlos de Oliveira

Cara Minha Inimiga, Em Cuja M√£o

Cara minha inimiga, em cuja m√£o
p√īs meus contentamentos a ventura,
faltou te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.

Eternamente as √°guas lograr√£o
a tua peregrina fermosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh’alma te achar√£o.

E se meus rudos versos podem tanto
que possam prometer te longa história
daquele amor t√£o puro e verdadeiro,

celebrada ser√°s sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
ser√° minha escritura teu letreiro.

O Amor E A Morte

(com tema de Augusto dos Anjos)

Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
‚ÄĒ √≥ Cor√ßa branca, √≥ ruiva Leoparda.

O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.

Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, h√£o de abras√°-lo os inimigos.

E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Drag√Ķes antigos.

Cara Minha Inimiga

Cara minha inimiga, em cuja m√£o
P√īs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Por que me falte a mim consolação.

Eternamente as √°guas lograr√£o
A tua peregrina formosura:
Mas enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te achar√£o.

E, se meus rudos versos podem tanto,
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor t√£o puro e verdadeiro,

Celebrada ser√°s sempre em meu canto:
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Ser√° a minha escritura o teu letreiro.

Senhora minha, se de pura inveja

Senhora minha, se de pura inveja
Amor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhos a luz que o Sol deseja,

N√£o me pode tolher que vos n√£o veja
Nesta alma, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos terei sempre debuxada,
Por mais cruel inimigo que me seja.

Nela vos vejo, e vejo que n√£o nasce
Em belo e fresco prado deleitoso
Sen√£o flor que d√° cheiro a toda a serra.

Os lírios tendes nu~a e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem os tiver, se h√° tanto bem na terra!