Sonetos sobre Nus

63 resultados
Sonetos de nus escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Sonhos

Cada dia que passa faz-me pensar
E reflectir sobre quem ele traiu,
Que enquanto viveu nada fui ganhar
Com a lama vil onde a alma caiu.

Até de meus sonhos a vida me deixa
Na maré nu, na areia, em solidão,
Desolado que, inda vivo, nĂŁo esteja
Seguindo veloz no barco da acção.

HĂĄ uma beleza no mundo exterior,
No monte ou planĂ­cie onde chega a vista
Que jĂĄ Ă© consolo Ă  dĂșvida e Ă  dor,
Mas, Oh! A beleza que o mundo conquista

Nem Palavra ou verso a pode imaginar
Nem a mente humana, sĂł por si, forjar!

Soneto De Intimidade

Nas tardes da fazenda hĂĄ muito azul demais.
Eu saio Ă s vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de hĂĄ trĂȘs anos atrĂĄs.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a ĂĄgua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciĂșme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar nĂŁo sem malĂ­cia e verve
Nós todos, animais sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Na Roça

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
VĂȘm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monĂłtono canto de um tropeiro.

AtrĂĄs das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lå se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiĂĄ gorjeia;
Enquanto Ă s portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada…

Noites Amadas

Ó noites claras de lua cheia!
Em vosso seio, noites chorosas,
Minh’alma canta como a sereia,
Vive cantando n’um mar de rosas;

Noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas,
Ó noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!

VĂłs sois um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha Esperança de mĂĄgoas nua…

Ó noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Como eu vos amo, noites de lua!

Como Ă© que a SolidĂŁo Hei-de Ir Medindo?

Como Ă© que a solidĂŁo hei-de ir medindo?
desse-me os golpes de uso inda esta dor
um a um sua nudez a sobrepor
que o ritmo sem nome a foi vestindo

mas sofro agora o tempo nu saindo
numa levada sem nenhum teor
gasto caudal do meu rio interior
nem chora o peito por mais gritos vindo

Quando Ă© que Ă© novo ano na amargura
quando volto a chegar-me Ă  desventura
que me faz falta em ocos dias vis.

ah quando Ă© que arde escura em cores febris
Ă  testa do ano como a vi na altura
do agosto em chamas funda cicatriz?

Tradução de Vasco Graça Moura

Foi Um Dia De InĂșteis Agonias

Foi um dia de inĂșteis agonias.
Dia de sol, inundado de sol!…
Fulgiam nuas as espadas frias…
Dia de sol, inundado de sol!…

Foi um dia de falsas alegrias.
DĂĄlia a esfolhar-se, – o seu mole sorriso…
Voltavam ranchos das romarias.
DĂĄlia a esfolhar-se, – o seu mole sorriso…

Dia impressĂ­vel mais que os outros dias.
TĂŁo lĂșcido… TĂŁo pĂĄlido… TĂŁo lĂșcido!…
Difuso de teoremas, de teorias…

O dia fĂștil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias…
TĂŁo lĂșcido… TĂŁo pĂĄlido… TĂŁo lĂșcido!…

Roma PagĂŁ

Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o bĂĄquico domĂ­nio,
NĂŁo era raro ver nos gozos do triclĂ­nio
A nudez feminina imperiosa e quente.

O corpo de alabastro, olĂ­mpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilĂ­nio,
Num doce tom de cor, esplĂȘndido e sangĂŒĂ­neo,
Tinha o assombro da came e a forma da serpente.

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebĂșrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcĂ­ssima de arminhos.

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A pĂșrpura do sangue e a pĂșrpura dos vinhos.

Elegia para Santa Rosa

Aurora chega, e permaneces fria
noite, imobilizado, cego e mudo
Ă s coisas das manhĂŁs que amanhecias:
cavalete, jornal, café no bule.

O mundo neutro e nu pede a pintura;
a tela virgem, teu pincel tranquilo,
As cores vĂȘm chorando pela rua,
entram no atelier branco e vazio.

Quais os murais que irĂĄs compor no muro,
entre o que foste e o que serĂĄs, erguido,
o indevassĂĄvel muro eterno e duro?

Ai, Santa, pesam sobre nĂłs os dias
desta sobrevivĂȘncia que te usurpa
o espaço e o tempo que te pertenciam.

Soneto Do Poeta Brasileiro

NĂŁo sou viril somente nas poesias.
Quero dormir contigo, pois teus pés
amassavam pitangas e trazias
no corpo inteiro a marca das marés.

Disseste que comigo casarias
– amor na cama, beijos, cafunĂ©s.
Entre-sombras de carne oferecias
tão navegåveis como igarapés.

Minha morena até dizer que não,
o nosso amor demais me recordava
duas lagoas onde me banhei.

Sou macho e brasileiro, coração:
em teu olhar eu nu e forte estava
e foi assim, morena, que te amei.

Afrodite I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vĂŁo com o vento os carmes concertando,

O mar, – turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das ĂĄguas, murmurando,
Como um bosque pagĂŁo de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pĂĄlio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas sĂŁo no verde plano
Tocadas de ouro e irradiaçÔes divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, Ă  flor de oceano,
Coroada de um cĂ­rculo de espumas.

Joropo Para Timples E Harpa

Em duas asas prontas para o vĂŽo
assim se foi em par a minha vida
e com rilhar de dentes me perdĂŽo
trilhando as horas nuas na medida

Bilros tecendo rendas amarelas
bordando em vĂŁo um tempo jĂĄ remoto
no sol dos girassĂłis da cidadela
canto um recanto que me faz devoto

A dor que existe em mim raiz que medra
no rastro mais sombrio as minhas luas
talvez nĂŁo fora SĂ­sifo ou a pedra

que encontro todo dia pelas ruas
ao revirar as heras nessa redra
trilhando na medida as horas nuas

Existo

Seu amor me fez real, e me deu sentido
da alegria de ser, total, completamente…
Fez de um pobre poeta em sonhos consumido
alguém que tem nas mãos um mundo! e sofre, e sente!

Seu amor foi a vida a irromper da semente
de um velho coração cansado e ressequido,
o verde que voltou ao ramo nu, pendente,
a imprevisĂ­vel flor, o fruto inconcebido…

Seu amor foi milagre a cantar pelo chĂŁo
como a ĂĄgua, no agreste, a acenar ao viajante
a esperança, o prazer, a vida, a salvação…

Passo a existir, quem sabe ? apenas porque amei…
E ela existe talvez, a partir deste instante
porque ela e o seu amor… em versos transformei!

Negra Fera, Que A Tudo As Garras Lanças

Negra fera, que a tudo as garras lanças,
JĂĄ murchaste, insensĂ­vel a clamores,
Nas faces de TirsĂĄlia as rubras flores,
Em meu peito as viçosas esperanças.

Monstro, que nunca em teus estragos cansas,
VĂȘ as trĂȘs Graças, vĂȘ os nus Amores
Como praguejam teus cruéis furores,
Ferindo os rostos, arrancando as tranças!

DomicĂ­lio da noute, horror sagrado,
Onde jaz destruĂ­da a formosura,
Abre-te, då lugar a um desgraçado.

Eis desço, eis cinzas palpo… Ah, Morte dura!
Ah, TirsĂĄlia! Ah, meu bem, rosto adorado!
Torna, torna a fechar-te, Ăł sepultura!

Post Coitum Animal Triste

Em ti o poema, o amplo tecido da ĂĄgua ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensĂŁo e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mĂŁos das chuvas.

Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as ĂĄrvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestĂ­gio dos Ășltimos peregrinos, aves nuas
que jĂĄ desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silĂȘncio calmo das ĂĄguas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

25 De Março

25 DE MARÇO
(Recife, 1885)
Em Pernambuco para o CearĂĄ

Bem como uma cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na Ăłrbita traçada — de fogo dos obuses.

Da enérgica batalha estóica do Direito
Desaba a escravatura — a lei cujos fossos
Se ergue a consciĂȘncia — e a onda em mil destroços
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
De geraçÔes de herĂłis — presentes pelo dorso
À rubra luz da glĂłria — enquanto voa e zumbe.

O inseto do terror, a treva que amortalha,
As lĂĄgrimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.

DelĂ­rio Do Som

O Boabdil mais doce que um carinho,
O teu piano ebĂșrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.

Me parecia a mĂșsica do arminho,
O perfume do lĂ­rio que cantava,
A estrela-d’alva que nos cĂ©us entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.

IncomparĂĄvel, teu piano — e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;

Como as visÔes olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.

A Voz da TĂ­lia

Diz-me a tĂ­lia a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vĂȘs: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera…

E de manhĂŁ o sol Ă© uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça…
Trago nas mĂŁos as mĂŁos da Primavera…
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E Ă  minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine…”

E, ao ver-me triste, a tĂ­lia murmurou:
“JĂĄ fui um dia poeta como tu…
Ainda hĂĄs de ser tĂ­lia como eu sou…”

Serpente De Cabelos

A tua trança negra e desmanchada
Por sobre o corpo nu, torso inteiriço,
Claro, radiante de esplendor e viço,
Ah! lembra a noite de astros apagada.

LuxĂșria deslumbrante e aveludada
Através desse mårmore maciço
Da carne, o meu olhar nela espreguiço
Felinamente, nessa trance ondeada.

E fico absorto, num torpor de coma,
Na sensação narcótica do aroma,
Dentre a vertigem tĂșrbida dos zeros.

És a origem do Mal, Ă©s a nervosa
Serpente tentadora e tenebrosa,
Tenebrosa serpente de cabelos!…

MemĂłria De Meu Bem, Cortado Em Flores

MemĂłria de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente, e os temores
dos sucessos que espero infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nua hora quanto em termos
tĂŁo vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
porque neles com meu mal acabarei
mil vidas, nĂŁo ua sĂł, dura memĂłria!

A Um GĂ©rmen

Começaste a existir, geléia crua,
E hĂĄs de crescer, no teu silĂȘncio, tanto
Que, Ă© natural, ainda algum dia, o pranto
Das tuas concreçÔes plåsmicas flua!

A ågua, em conjugação com a terra nua,
Vence o granito, deprimindo-o … O espanto
Convulsiona os espĂ­ritos, e, entanto,
Teu desenvolvimento continua!

Antes, geléia humana, não progridas
E em retrogradaçÔes indefinidas,
Volvas Ă  antiga inexistĂȘncia calma!…

Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres
De atingir, como o gérmen de outros seres,
Ao supremo infortĂșnio de ser alma!