Passagens de Alberto d'Oliveira

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Cheiro De Esp√°dua

“Quando a valsa acabou, veio √† janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a esp√°dua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paix√£o, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ci√ļme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite √†quela esp√°dua linda!”

No Penedo da Meditação

Aprende-se at√© morrer…
Mas eu fui mais refract√°rio:
Morrerei sem aprender,
Vida, o teu abeced√°rio!

Nem a Dor, nem o Prazer,
No seu vaivém arbitrário,
Souberam dar ao meu ser
As regras do seu fad√°rio.

O céu trasborda de estrelas,
Mas é cifrado e secreto
Para mim, que não sei lê-las.

Cego, surdo, analfabeto,
De nada entendo o motivo,
Nem quem sou, nem porque vivo…

Afrodite II

Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o m√°rmore luzindo
Alvirróseo do peito, Рnua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, Рsorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de √Ęmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas √°guas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e trit√Ķes, em larga ronda,
Pelos retorsos b√ļzios assoprando.

Flor De Caverna

Fica às vezes em nós um verso a que a ventura
Não é dada jamais de ver a luz do dia;
Fragmento de expressão de idéia fugidia,
Do pélago interior bóia na vaga escura.

Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura,
Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombria
Profundeza da mente, onde erra e se enfastia,
Cantando, a distrair os ócios da clausura.

Da alma, qual por janela aberta par e par,
Outros livre se v√£o, voejando cento e cento
Ao sol, à vida, à glória e aplausos. Este não.

Este aí jaz entaipado, este aí jaz a esperar
Morra, volvendo ao nada, – embri√£o de pensamento
Abafado em si mesmo e em sua escurid√£o.

Choro De Vagas

Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor Рouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

S√£o de n√°ufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou t√°bua, ou pano,
Vejo-os varridos de tuf√Ķes violentos;

Vejo-os na escurid√£o da noite, aflitos,
Bracejando ou já mortos e de bruços,
Largados das mar√©s, em ermas plagas…

Ah! que s√£o deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

M√£es de Portugal

√ď M√£es de Portugal comovedoras,
Com Meninos Jesus de encontro ao peito,
Iguais na devoção e amor perfeito
Aos painéis onde estão Nossas Senhoras!

√ď Virgem M√£e, qual se tu pr√≥pria foras,
Surgem de cada lado, quase a eito,
As Mães e os Filhos em abraço estreito,
Dolorosas, felizes, povoadoras…

São presépios as casas onde moram:
E o riso casto, as l√°grimas que choram,
O anseio que lhes enche o coração,

Gesto, candura, olhar ‚ÄĒ tudo √© divino,
Tudo ensinado pelo Deus Menino,
Tudo é da Mãe Celeste inspiração!

O Pior Dos Males

Baixando à Terra, o cofre em que guardados
Vinham os Males, indiscreta abria
Pandora. E eis deles desencadeados
À luz, o negro bando aparecia.

O √ďdio, a Inveja, a Vingan√ßa, a Hipocrisia,
Todos os Vícios, todos os Pecados
Dali voaram. E desde aquele dia
Os homens se fizeram desgraçados.

Mas a Esperança, do maldito cofre
Deixara-se ficar presa no fundo,
Que √© √ļltima a ficar na ang√ļstia humana…

Por que não voou também? Para quem sofre
Ela é o pior dos males que há no mundo,
Pois dentre os males é o que mais engana.

A Janela E O Sol

“Deixa-me entrar, – dizia o sol – suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.

Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende…
E eu, como o eunuco, est√ļpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende.”

E, fechando mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: “Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abri-me!

E esta que dorme, sol, que n√£o diria
Ao ver-te o olhar por tr√°s do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!”

√öltima Deusa

Foram-se os deuses, foram-se, eu verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu porte e aspecto, que és tu mesma, em suma.

Ao ver-te com esse andar de divindade,
Como cercada de invisível bruma,
A gente à crença antiga se acostuma
E do Olimpo se lembra com saudade.

De lá trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,
R√ļtilo rola o teu cabelo esparto…

Pisas alheia terra… Essa tristeza
Que possuis é de estátua que ora extinto
Sente o culto da forma e da beleza.

Cinco Sentidos

Cinco sentidos s√£o os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escurid√£o,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haver√° mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior vis√£o,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencer√£o.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!

À Minha Filha

Vejo em ti repetida,
A anos de dist√Ęncia,
A minha própria vida,
A minha pr√≥pria inf√Ęncia.

√Č tal a semelhan√ßa,
√Č tal a identidade,
Que é só em ti, criança,
Que entendo a eternidade.

Todo o meu ser se exala,
Se reproduz no teu:
√Č minha a tua fala,
Quem vive em ti, sou eu.

Sorris como eu sorria,
Cismas do meu cismar,
O teu olhar copia,
Espelha o meu olhar.

√Čs como a emana√ß√£o,
Como o prolongamento,
Quer do meu coração,
Quer do meu pensamento.

Encarnas de tal modo
Minha alma fugitiva,
Que eu n√£o morri de todo
Enquanto sejas viva!

Por que mistério imenso
Se fez a transmiss√£o
De quanto sinto e penso
Para esse coração?

Foi como se eu andasse
Noutra alma a semear
Meu peito, minha face,
Meu riso, meu olhar…

Meus íntimos desejos,
Meus sonhos mais doirados,
Florindo com meus beijos
Os campos semeados.

Bendita é a colheita,
Deus confiou em n√≥s…

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Velhice

√Āgua do rio Letes, onde passas?
Venha a mim o teu curso benfazejo
Que sepulta alegrias ou desgraças
No mesmo esquecimento sem desejo.

Quero beber-te por cont√≠nuas ta√ßas…
E às horas do passado que revejo,
Pedir-te que as afogues e desfaças
Na carícia e na esmola do teu beijo!

Quem de si nunca esteve satisfeito
E com novas empresas só procura
Corrigir seu engano ou seu defeito,

N√£o pode recordar sem amargura
Que a mais nenhum esforço tem direito
Na ru√≠na presente e na futura…

Vós Outros! que Dizeis que o Amor é um Suplício

Vós outros! que dizeis que o Amor é um suplício,
Que a flor da Decepção se abre em todo o Prazer,
Que aconselhais à Alma o mosteiro, e o cilício,
Pois nada pode consolar-nos de viver:

Ponde os olhos em mim, neste celeste Amor
Que me vai desdobrando e alumiando o caminho,
Mesmo quando o alto Céu, sem frescura e sem cor,
Tem as engelhas de algum velho pergaminho…

Vede como eu quero viver, por merecê-la,
Eu que sou pecador, a ela longínqua Estrela!
No esforço de ser bom, branco como um altar:

De modo que a minha Alma, enfim, fique t√£o crente,
Que se possa casar à sua estreitamente,
Como um floco de neve a um raio de luar!

Afrodite I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que v√£o com o vento os carmes concertando,

O mar, – turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das √°guas, murmurando,
Como um bosque pag√£o de deuses, quando
Rompeu no Oriente o p√°lio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas s√£o no verde plano
Tocadas de ouro e irradia√ß√Ķes divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.

A Ti

Como o sol nasce do monte
E todo o vale alumia,
Assim no meu horizonte
Nasceu teu olhar, um dia.

Nessa manh√£ cor-de-rosa,
Que dos teus olhos saía,
Tua voz melodiosa
Foi a voz da cotovia.

E logo na minha m√°goa,
Neste canteiro sem flor,
Brotou, qual nascente de √°gua,
O teu amor, meu Amor!

Ent√£o fez sol deslumbrante
Nos dias da minha vida:
J√° n√£o era a luz distante,
J√° n√£o a fonte escondida.

Nuvens, tormentas e dores,
Que enchiam meu coração,
Tudo se cobriu de flores,
A esse divino clar√£o!

E à luz que os teus olhos deram,
Como faróis redentores,
Mundos no mundo nasceram,
Do amor brotaram amores.

Três aves no nosso ninho
O enchem de um fulgor sagrado:
Já não és o sol sozinho,
Fizeste o céu estrelado!

Deus te proteja e te guarde,
Minha Mulher, minha Irm√£,
√ď minha Estrela da Tarde,
Minha Estrela da Manh√£!

Vaso Chinês

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o m√°rmor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pint√°-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Lição Quotidiana

Cada manh√£ ressuscito
Do sono, esse irm√£o da Morte,
Que é minha estrela do norte,
Meu professor de infinito.

Hora por hora medito
Sua lição clara e forte;
Mas nem assim minha sorte
Encaro menos aflito.

E, se acordo com o dia,
Cheio de fé e alegria,
Julgando-me imorredoiro,

√Ä noite estou moribundo…
E em meu vazio tesoiro
Vejo o meu fim, e o do mundo!

A Vingança Da Porta

Era um h√°bito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
– Que te fez essa porta? a mulher vinha
E interrogava. Ele cerrando os dentes:

РNada! traze o jantar! РMas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha, a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes m√£os trementes.

Urna vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar… – P√°ra, hesitando…

Nisto nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
A mulher como doida e a filha morta.

O Mar Agita-se, como um Alucinado

O Mar agita-se, como um alucinado:
A sua espuma aflui, baba da sua Dor…
Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
Desce ao fundo do Oceano algum mergulhador.

D√°-lhe um aspecto estranho a camp√Ęnula imensa:
Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

E em vão as ondas se lhe enroscam à cabeça:
Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
Com suprema altivez, com ironias calmas:

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
‚ÄĒ Pois a Arte √©, para n√≥s, o escafandro das Almas!

Vestígios Divinos

(Na Serra de Marumbi)

Houve deuses aqui, se n√£o me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ci√ļme insano.

Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda h√° uns restos da forja de Vulcano.

Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.

Os convivas pag√£os ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.