Cita√ß√Ķes de √Ālvares de Azevedo

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de √Ālvares de Azevedo para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Passei Ontem A Noite Junto Dela.

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divis√£o se erguia
Apenas entre nós Рe eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
M√ļsica mais do c√©u, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos l√°bios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
√Č sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

√ď P√°ginas Da Vida Que Eu Amava

√ď p√°ginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! t√£o desgra√ßado!…
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doido que eu fui! como eu pensava
Em m√£o, amor de irm√£! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora Рé meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a exist√™ncia finda…
Pressinto a morte na fatal doen√ßa!…

A mim a solid√£o da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem cren√ßa…
Perdoa, minha m√£o – eu te amo ainda!

√Č dif√≠cil marcar o lugar onde p√°ra o homem e come√ßa o animal, onde cessa a alma e come√ßa o instinto ‚Äď onde a paix√£o se torna ferocidade. √Č dif√≠cil marcar onde deve parar o galope do sangue nas art√©rias, e a viol√™ncia da dor no cr√Ęnio.

Ao Sol Do Meio-Dia Eu Vi Dormindo

Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!

Além um espanhol eu vi sorrindo,
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fuma√ßa o quarto inteiro…
Parecia de gosto se esvaindo!

Mais longe estava um pobret√£o careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!…

Venturosa indolência! não deliro
Se morro de pregui√ßa… o mais √© seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?

Perdoa-Me Vis√£o Dos Meus Amores

Perdoa-me vis√£o dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo a estação das flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais v√£o revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que √ļltima esperan√ßa me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

Respiro o vento, e vivo de perfumes no murm√ļrio das folhas de mangueira; nas noites de luar aqui descanso e a lua enche de amor a minha esteira.

Um Mancebo No Jogo Se Descora

Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbedo passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.

Um outro que uma sina m√° devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rap√©, um outro espia…
Quantos moços perdidos vejo agora!

Oh! não proíbam, pois, no meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.

Numa fuma√ßa o canto d’alma escuto…
Um aroma bals√Ęmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!

√öltimo Soneto

J√° da noite o palor me cobre o rosto,
Nos l√°bios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!… J√° esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a m√°goa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem j√° n√£o vive!

Amo-te como o vinho e como o sono, Tu √©s meu copo e amoroso leito… Mas teu n√©ctar de amor jamais se esgota, Travesseiro n√£o h√° como teu peito.

Os Quinze Anos De Uma Alma Transparente

Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um cora√ß√£o que dorme, inda inocente…

Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura…
A linda m√£o na m√°gica cintura…
E uma voz que inebria docemente…

Um sorrir t√£o ang√©lico, t√£o santo…
E nos olhos azuis cheios de vida
L√Ęnguido v√©u de involunt√°rio pranto…

√Č esse o talism√£, √© essa a Armida,
O cond√£o de meus √ļltimos encantos,
A vis√£o de minh’alma distra√≠da!

P√°lida, √Ä Luz Da L√Ęmpada Sombria

P√°lida, √† luz da l√Ęmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as p√°lpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

N√£o te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!