Sonetos sobre Mortais

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Sonetos de mortais escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

LV

Em profundo silêncio já descansa
Todo o mortal; e a minha triste idéia
Se estende, se dilata, se recreia
Pelo espaçoso campo da lembrança.

Fatiga-se, prossegue, em v√£o se cansa;
E neste v√°rio giro, em que se enleia,
Ao duvidoso passo j√° receia,
Que lhe possa faltar a segurança.

Que diferente tudo est√° notando!
Que perplexo as imagens do perdido
Num e noutro despojo vem achando!

Este não é o templo (eu o duvido)
Assim o afirma, assim o est√° mostrando:
Ou morreu Nise, ou este não é Fido.

Que Amor Fez sem Remédio, o Tempo, os Fados?

Depois de tantos dias mal gastados,
Depois de tantas noites mal dormidas,
Depois de tantas l√°grimas vertidas,
Tantos suspiros v√£os v√£mente dados,

Como não sois vós já desenganados,
Desejos, que de cousas esquecidas
Quereis remediar mortais feridas,
Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados?

Se n√£o tiv√©reis j√° longa exp’ri√™ncia
Das sem-raz√Ķes de Amor a quem servistes,
Fraqueza fora em vós a resistência.

Mas pois por vosso mal seus males vistes,
Que o tempo não curou, nem larga ausência,
Qual bem dele esperais, desejos tristes?

Outono

Com a carga de frutos maus maduros,
Nessa estação viril entrei do Outono.
Bradou-me o Desengano, de seu trono:
¬ęLarga os pomos que trazes, t√£o impuros!

¬ęN√£o soubeste colher outros mais puros,
¬ęDesgra√ßado mortal, frouxo colono?
¬ęIsso √© que h√°s-de oferecer da vida ao Dono?
¬ęUm mau agricultor tem maus futuros.

¬ęPois que inda tens vigor, tem mais juizo!¬Ľ
O Desengano amigo me dizia.
Mas eu, surdo me fiz ao s√°bio aviso,

As rédeas não colhi da fantasia,
Deixei corrê-la à solta, sem mais siso,
Pois isso frutos podres só colhia.

√ďdio Sagrado

√ď meu √≥dio, meu √≥dio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.

√ď meu √≥dio, meu l√°baro bendito,
Da minh’alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

√ďdio s√£o, √≥dio bom! s√™ meu escudo
Contra os vil√Ķes do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!

Tit√£s Negros

Hirtas de Dor, nos √°ridos desertos
Formid√°veis fantasmas das Legendas,
Marcham além, sinistras e tremendas,
As caravanas, dentre os c√©us abertos…

Negros e nus, negros Tit√£s, cobertos
Das bocas vis das chagas vis e horrendas,
Marcham, caminham por estranhas sendas,
Passos vagos, son√Ęmbulos, incertos…

Passos incertos e os olhares tredos,
Na convuls√£o de tr√°gicos segredos,
De agonias mortais, febres vorazes…

Têm o aspecto fatal das feras bravas
E o rir pungente das legi√Ķes escravas,
De dantescos e torvos Satanases!…

Ao Mundo Esconde O Sol Seus Resplendores

Ao mundo esconde o Sol seus resplendores,
e a m√£o da Noite embrulha os horizontes;
n√£o cantam aves, n√£o murmuram fontes,
n√£o fala P√£ na boca dos pastores.

Atam as Ninfas, em lugar de flores,
mortais ciprestes sobre as tristes frontes;
erram chorando nos desertos montes,
sem arcos, sem aljavas, os Amores.

Vênus, Palas e as filhas da Memória,
deixando os grandes templos esquecidos,
não se lembram de altares nem de glória.

Andam os elementos confundidos:
ah, J√īnia, J√īnia, dia de vit√≥ria
sempre o mais triste foi para os vencidos!

Soneto XXII

Ao mesmo

Rico Almazém, que Deus estima e preza,
Mais forte que o poder do inferno forte,
Bem te armas de ua morte e de outra morte,
Para qualquer encontro e brava empresa.

Arma-se o fraco c√° de fortaleza
Para que assi resista ao duro corte;
Mas Deus sempre peleja d’outra sorte,
Cobrindo o forte de mortal fraqueza.

Usou c’o inferno deste pr√≥prio modo,
Iscando o anzol da natureza sua
Co’ a nossa; e foi-se o pece tr√°s o engano.

E co’ as armas da carne rota e nua
Dos M√°rtires venceu o mundo todo,
Hoje em ti as p√Ķem para socorro humano.

Proposição das rimas do poeta

Incultas produ√ß√Ķes da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com m√°goa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e n√£o louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, l√°grimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela m√£o do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo

Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte est√° chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa, que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos cora√ß√Ķes, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epit√°fio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratid√Ķes, matou-me Isabela.‚ÄĚ

Este Retrato Vosso é o Sinal

Este retrato vosso é o sinal
ao longe do que sois, por desamparo
destes olhos de c√°, porque um t√£o claro
lume n√£o pode ser vista mortal.

Quem tirou nunca o sol por natural?
Nem viu, se nuvens n√£o fazem reparo,
em noite escura ao longe aceso um faro?
Agora se não vê, ora vê mal.

Para uns tais olhos, que ninguém espera
de face a face, gram remédio fora
acertar o pintor ver-vos sorrindo.

Mas inda assim n√£o sei que ele fizera,
que a graça em vós não dorme em nenhuma hora.
Falando que far√°? Que far√° rindo?

Liberdade, Onde est√°s? Quem Te Demora?

Liberdade, onde est√°s? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque n√£o raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o p√°trio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilh√Ķes tua piedade;
Nosso n√ļmen tu √©s, e gl√≥ria, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!

Clamor Supremo

Vem comigo por estas cordilheiras!
P√Ķe teu manto e bord√£o e vem comigo,
Atravessa as montanhas sobranceiras
E nada temas do mortal Perigo!

Sigamos para as guerras condoreiras!
Vem, resoluto, que eu irei contigo
Dentre as √Āguias e as chamas feiticeiras,
Só tendo a Natureza por abrigo.

Rasga florestas, bebe o sangue todo
Da Terra e transfigura em astros lodo,
O próprio lodo torna mais fecundo.

Basta trazer um coração perfeito,
Alma de eleito, Sentimento eleito
Para abalar de lado a lado o mundo!

VI

P. Si√£o que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de vis√Ķes contritas…
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao C√©u as c√ļpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas
Aromatizam com os ung√ľentos brancos
dos nigromantes de mortais aromas…

Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.

Juízo

Quando, nos quatro √Ęngulos da Terra,
Troarem as trombetas ressurgentes,
Despertadoras dos mortais dormentes,
Por onde um Deus irado aos homens berra:

Prontos, num campo, em apinhada serra,
Todos nus assistir devem viventes
Ao Juízo Final e ver, patentes,
Seus delitos, que um livro eterno encerra.

Então, aberto o Céu, e o Inferno aberto,
Todos ali ver√£o: e a sorte imensa
Duma m√°goa sem fim, dum gozo certo.

Ver√£o recto juiz pesar a ofensa
Na balança integral, e o justo acerto,
Dando da vida e morte igual sentença.

Aquele Claro Sol

Aquele claro sol, que me mostrava
o caminho do céu mais chão, mais certo,
e com seu novo raio, ao longe, e ao perto,
toda a sombra mortal m’afugentava,

deixou a pris√£o triste, em que c√° estava.
Eu fiquei cego, e s√≥, c’o passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.

Assi c’o esprito triste, o ju√≠zo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, e por campos, e por montes.

Em toda parte a vejo, e a figuro.
Ela me toma a m√£o e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.

Aspiração

Meus dias v√£o correndo vagarosos
Sem prazer e sem dor, e até parece
Que o foco interior j√° desfalece
E vacila com raios duvidosos.

√Č bela a vida e os anos s√£o formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece…
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gosos.

Minh’alma, √≥ Deus! a outros c√©us aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
√Č pela eterna p√°tria que suspira…

Porém do presentir dá-me a certeza.
D√°-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

Amar é Conhecer Virtude Ardente

AMOR QUE, SEM DETER-SE NO ASPECTO SENSITIVO, PASSA AO INTELECTUAL

Mandou-me, ai F√°bio!, que a amasse Flora,
e que n√£o a quisesse; meu cuidado,
obediente, confuso, torturado,
sem desej√°-la, tal beleza adora.

O que o humano afecto sente e chora
goza o entendimento, enamorado
do espírito eterno, encarcerado
neste claustro mortal que o entesoura.

Amar é conhecer virtude ardente;
o querer é vontade interessada,
grosseira e rude, passageiramente.

O corpo é terra, sê-lo-á, foi nada;
de Deus procede à eternidade a mente:
eterno amante sou de eterna amada.

Tradução de José Bento

A F√ļria Mais Fatal e Mais Medonha

Das F√ļrias infernais foi sempre a Inveja
No mundo a mais fatal e a mais medonha,
Pois faz dos bens dos outros a peçonha
Com que a si mesma se envenena e peja.

Com ira e com furor, raivosa, arqueja,
Com vingan√ßas, trai√ß√Ķes, com √≥dios sonha.
Onde quer que se encoste e os olhos ponha,
Tragar as ditas dos mortais deseja.

Mãe dos males fatais à Sociedade,
Vidas, honras destrói, cismas fomenta,
Nutrindo n’alma as serpes da Maldade.

O próprio coração que come a alenta,
Vive afogada em ondas de ansiedade,
Da frenética raiva se alimenta.

Correspondências

A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a √°rvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe v√£o perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

H√° perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o √Ęmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expans√£o das notas d’um clarim.

Tradução de Delfim Guimarães