Sonetos Exclamativos

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Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores!
Na Agoa quizera com vocês morar:
Trazer o lindo gorro de trez cores,
Mestre da lancha Deixem-nos passar!

Far-me-ia outro, que os vossos interiores
De ha tantos tempos, devem j√° estar
Calafetados pelo breu das dores,
Como esses pongos em que andaes no mar!

√ď meu Pae, n√£o ser eu dos poveirinhos!
N√£o seres tu, para eu o ser, poveiro,
Mail-Irm√£o do ¬ęSenhor de Mattozinhos¬Ľ!

No alto mar, √°s trovoadas, entre gritos,
Promettermos, si o barco f√īri intieiro,
Nossa bela √° Sinhora dos Afflictos!

Assim Seja!

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Sever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
Da crença errando no Vergel florido
E o Pensamento pelos céus, brandido
Como um gl√°dio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacr√°rio por sacr√°rio
Do teu sonho no Templo imagin√°rio,
Na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever! Na alta confiança
De quem triunfou e sabe que descansa
Desdenhando de toda a Recompensa!

√ď Virgens!

√ď virgens que passaes, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido lar…

Cantae-me, n’essa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formozura, o luar!

Cantae! cantae as limpidas cantigas!
Das ruinas do meu lar desatterrae
Todas aquellas illuz√Ķes antigas

Que eu vi morrer n’um sonho, como um ai…
√ď suaves e frescas raparigas;
Adormecei-me n’essa voz… Cantae!

Lassid√£o

Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irm√£ pura.

S√™ l√Ęnguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abra√ßo do ci√ļme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paix√£o mais selvagem toca o seu clarim!…
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanh√£ quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O Anjo Da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na m√£o de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde est√°s preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
P√Ķe-te aos p√©s e a cabe√ßa, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

Independência

Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar l√ļcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Eu Não Lastimo O Próximo Perigo

Eu não lastimo o próximo perigo,
Uma escura pris√£o, estreita e forte;
Lastimo os caros filhos, a consorte,
A perda irrepar√°vel de um amigo.

A pris√£o n√£o lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.

Ah, qu√£o depressa ent√£o acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!

Se filhos, se consorte n√£o tivera
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu n√£o quisera.

Natureza

Aos Poetas

Tudo por ti resplende e se constela,
Tudo por ti, suavíssimo, flameja;
√Čs o pulm√£o da racional peleja,
Sempre viril, consoladora e bela.

Teu coração de pérolas se estrela,
E o bom falerno d√°s a quem deseja
Vigor, sa√ļde a cren√ßa que floreja,
Que as expans√Ķes do c√©rebro revela.

Toda essa luz que bebe-se de um hausto
Nos livros s√£os, todo esse enorme fausto
Vem das verduras brandas que reluzem!

Esse da idéia esplêndido eletrismo,
O forte, o grande, audaz psicologismo,
Os organismos naturais produzem…

Soneto do Cativo

Se √© sem d√ļvida Amor esta explos√£o
de tantas sensa√ß√Ķes contradit√≥rias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profus√£o
de frases insensatas, incensórias;
a c√ļmplice partilha nas hist√≥rias
do que os outros dir√£o ou n√£o dir√£o;

se √© sem d√ļvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
raz√£o de encantamento e de desprezo;

n√£o h√° d√ļvida, Amor, que te n√£o fujo
e que, por ti, t√£o cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

Obrigada!

A Nininha Andrade

… E tu rezas por mim! Como agrade√ßo
Essa esmola gentil de teu carinho…
Como as torturas de minh’alma esque√ßo
Nessa tua oração, floco de arminho!

Eu te bendigo, ó santa que estremeço,
Alma t√£o pura como a flor do linho.
√Č tua prece √† m√°goa que pade√ßo
Asa de pomba defendendo um ninho!

Reza, criança! Junta as mãos nevadas
E cerra as níveas pálpebras amadas
Sobre os teus olhos como um lindo v√©u…

Depois, nas asas de uma prece ardente,
Deixa cantar minh’alma docemente,
Deixa subir meu coração ao céu!

XLVII

Que inflexível se mostra, que constante
Se vê este penhasco! já ferido
Do proceloso vento, e j√° batido
Do mar, que nele quebra a cada instante!

N√£o vi; nem hei de ver mais semelhante
Retrato dessa ingrata, a que o gemido
Jamais pode fazer, que enternecido
Seu peito atenda às queixas de um amante.

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,
Que vês nesse penhasco, essa dureza
H√° de ceder aos golpes algum dia:

Mas que diversa é tua natureza!
Dos contínuos excessos da porfia,
Recobras novo estímulo à fereza.

XXXIII

Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica p√°lida, assusta-se, estremece,
E n√£o sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o ch√£o, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento r√°pido sustando
Das duas asas que a paix√£o lhe empresta.

Espírito Imortal

Espírito imortal que me fecundas
Com a chama dos viris entusiasmos,
Que transformas em gl√°dios os sarcasmos
Para punir as multid√Ķes profundas!

√ď alma que transbordas, que me inundas
De brilhos, de ecos, de emo√ß√Ķes, de pasmos
E fazes acordar de atros marasmos
Minh’alma, em t√©dios por charnecas fundas.

Força genial e sacrossanta e augusta,
Divino Alerta para o Esquecimento,
Voz companheira, carinhosa e justa.

Tens minha M√£o, num doce movimento,
Sobre essa Mão angélica e robusta,
Espírito imortal do Sentimento!

Chopin

N√£o se acende hoje a luz…Todo o luar
Fique l√° fora.Bem Aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cord√£o de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas…
Lusco-fusco…um morcego a palpitar
Passa…torna a passar…torna a passar…
As coisas t√™m o ar de adormecidas…

Mansinho…Ro√ßa os dedos plo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacr√°rio de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim da escurid√£o da sala…

O Lutador

Buscou no amor o b√°lsamo da vida,
N√£o encontrou sen√£o veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!

Exaltação

Viver!… Beber o vento e o sol!… Erguer
Ao C√©u os cora√ß√Ķes a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A gl√≥ria!… A fama!… O orgulho de criar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos ext√°ticos, pag√£os!…

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
– Como eu sou vossa Irm√£, √≥ meus Irm√£os!…

Gonçalves Dias

(AO P√Č DO MAR)

SE EU PUDESSE cantar a grande história,
Que envolve ardente o teu viver brilhante…
Filho dos tr√≥picos que – audaz gigante –
Desceste ao t√ļmulo subindo √† Gl√≥ria!

Teu t√ļmulo colossal – nest’hora eu fito –
Altivo, rugidor, sonoro, extenso –
O mar!… e ……. O sim, teu cr√Ęnio imenso
S√≥ podia conter-se no infinito…

E eu – sou louco talvez – mas quando, forte,
Em seu dorso resvala – ardente – norte,
E ele espumante estruge, brada, grita,

E em cada vaga uma can√ß√£o estoura…
Eu – creio ser tu’alma que, sonora,
Em seu seio sem fim – brava – palpita!

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crep√ļsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca √ļmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, l√≠mpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
– Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…

Exortação

Corpo crivado de sangrentas chagas,
Que atravessas o mundo soluçando,
Que as carnes vais ferindo e vais rasgando
Do fundo d’Ilus√Ķes velhas e vagas.

Grande isolado das terrestres plagas,
Que vives as Esferas contemplando,
Braços erguidos, olhos no ar, olhando
A etérea chama das Conquistas magas.

Se é de silêncio e sombra passageira,
De cinza, desengano e de poeira
Este mundo feroz que te condena,

Embora ansiosamente, amargamente
Revela tudo o que tu’alma sente
Para ela ent√£o poder ficar serena!

Paisagens De Inverno I

√ď meu cora√ß√£o, torna para tr√°s.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! – o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido…
√ď meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
– J√° vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.-

Sossegai, esfriai, olhos febris.
-E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas…Doces vozes senis…-