Sonetos sobre Raz√£o

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Sonetos de razão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Uma Palavra

Meu canto busca sempre uma palavra
que seja companheira na canção
da minha voz que canta e se declara:
viver a vida inteira de emoção.

Uma palavra só não se prepara
puxando outra palavra sem raz√£o
na vida que se encanta e se dispara
no claro tiro cego de paix√£o.

Viver a arte que procura ver
os l√°bios desbotados da linguagem
deixando a claridade me envolver

no sopro que me leva na paisagem
amaciando a pena ao escrever
teu nome, meu amor, minha viagem

Tal Mostra D√° De Si Vossa Figura

Tal mostra d√° de si vossa figura,
Sibela, clara luz da redondeza,
que as forças e o poder da natureza
com sua claridade mais apura.

Quem viu √ľa confian√ßa t√£o segura,
t√£o singular esmalte da beleza,
que não padeça mais, se ter defesa
contra vossa gentil vista procura?

Eu, pois, por escusar essa esquivança,
a raz√£o sujeitei ao pensamento,
que, rendida, os sentidos lhe entregaram.

Se vos ofende o meu atrevimento,
inda podeis tomar nova vingança
nas relíquias da vida, que escaparam.

Neste Horrível Sepulcro Da Existência

Neste horrível sepulcro da existência
O triste coração de dor se parte;
A mesquinha razão se vê sem arte,
Com que dome a frenética impaciência:

Aqui pela opressão, pela violência
Que em todos os sentidos se reparte,
Transitório poder que imitar-te,
Eterna, vingadora omnipotência!

Aqui onde o peito abrange, e sente,
Na mais ampla express√£o acha estreiteza,
Negra idéia do abismo assombra a mente.

Difere acaso da infernal tristeza
Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,
Ser vivo, e n√£o gozar da Natureza ?

Tentação

Eu não resistirei à tentação,
n√£o quero que de mim possas perder-te,
que só na fonte fria da razão
renasça a minha sede de beber-te.

Eu não resistirei à tentação
de quanto adivinhei nesta amargura:
um sim que só assalta quem diz não,
um corpo que entrevi na selva escura.

Resistirei a te chamar paix√£o,
a te perder nos versos, nas palavras:
mas não resistirei à tentação
de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi
e que na terra toda n√£o mais vi.

Dant√£o

Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
– De um povo inteiro o f√ļlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!

De seu cr√Ęnio vulc√£o – a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
РNoventa e três Рe a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!

Olhando para a história Рum século e a lente
Que mostra-me o seu cr√Ęnio resplandente
Do passado atrav√©s o v√©u profundo…

H√° muito que tombou, mas inquebr√°vel
De sua voz o eco formid√°vel
Estruge ainda na raz√£o do mundo!

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

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Soneto XXXI

Fujo de mi, quando me n√£o precato
Sem querer outra vez me acho comigo,
Tenho-me por suspeito e inimigo,
E comigo perpétua guerra trato.

Entrando em mi destruo, prendo e mato,
Mas eu quando me vejo em tal pirigo
Contra mi me levanto e me persigo
A ferro e sangue, sem querer contrato.

Por mi tenho os sentidos, que me acodem;
A raz√£o co’a vontade e co’a mem√≥ria
Sustentam contra mi outro partido.

Ai civil guerra sem despojo e glória,
Onde os que podem mais contra si podem,
Onde o que é vencedor fica vencido.

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

N√£o vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist’rioso livro do teu ser
A mesma hist√≥ria tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo √© fr√°gil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu √©s como Deus: princ√≠pio e fim!…”

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai n√£o torna mais,
E se torna, n√£o tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes t√£o ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto s√£o iguais,
Nem sempre s√£o conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
N√£o mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento s√£o espias.

Aquele, a Quem Mil Bens Outorga o Fado

Aquele, a quem mil bens outorga o Fado,
Desejo com raz√£o da vida amigo
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado:

Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque n√£o busco as sombras do jazigo,
Ref√ļgio perdur√°vel, e sagrado?

Ah! bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as pris√Ķes da humanidade,
Despe o vil manto, que pertence ao nada!

Mas eu tremo!…Que escuto?…√Č a Verdade,
√Č ela, √© ela que do c√©u me brada:
Oh terrível pregão da eternidade!

Marília De Dirceu

Soneto 11

Com pesadas cadeias manietado,
Às vozes da razão ensurdecido,
Dos céus, de mim, dos homens esquecido,
Me vi de amor nas trevas sepultado.

Ali aliviava o meu cuidado
C’o dar de quando em quando algum gemido.
Ah! tempo! Que, somente refletido,
Me fazes entre as ditas desgraçado.

Assim vivia, quando a falsidade
De Laura me tornou num breve dia
Quanto a raz√£o n√£o p√īde em longa idade:

Quebrei o vil grilh√£o que me oprimia!
Oh! feliz de quem goza a liberdade,
Bem que venha por m√£os da aleivosia!

Satanismo

N√£o me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
N√£o me deixes a raz√£o vagar confusa
Ao rel√Ęmpago ideal de teus olhares.

N√£o me olhes, oh! n√£o, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a r√°pida explos√£o dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problem√°tico, fatal, c√°lido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!…

N√£o me olhes, oh! n√£o, que m’entolece
Tanta luz, tanto sol — e at√© parece
Que tens m√ļsicas cru√©is dentro do olhar!…

Bilhete

O teu vulto ficou na lembrança guardado,
vivo, por muitas horas!… e em meus olhos ba√ßos
Fitei-te Рcomo alguém que ansioso e torturado
Tentasse inutilmente reavivar teus tra√ßos…

Num relance te vi – depois, quase irritado
Fugi, – e reparei que ao marcar os meus passos
ia a dizer teu nome e a ver por todo lado
o teu vulto… o teu rosto… e o clar√£o dos teus bra√ßos!

Talvez eu faça mal em querer ser sincero,
censurar√°s – quem sabe? Essa minha ousadia,
e pensar√°s at√© que minto, e que exagero…

Ou dir√°s, que eu falar-te nesse tom, n√£o devo,
que o que escrevo é infantil e absurdo, é fantasia,
e afinal tens raz√£o… nem sei por que te escrevo!

A Maria Ifigênia

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da raz√£o, qual tocha acesa
vem conduzir a simples natureza,
é hoje que o teu mundo principia.

A m√£o que te gerou teus passos guia,
despreza ofertas de uma v√£ beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do filho de Maria.

Estampa na tua alma a caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
s√£o eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Cristo E A Ad√ļltera

(Grupo de Bernardelli)

Sente-se a extrema comoção do artista
No grupo ideal de pl√°cida candura,
Nesse esplendor t√£o fino da escultura
Para onde a luz de todo o olhar enrista.

Que campo, ali, de r√ļtila conquista
Deve rasgar, do m√°rmore na alvura,
O estatu√°rio — que amplid√£o segura
Tem — de alma e bra√ßo, de raz√£o e vista!

Vê-se a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaix√£o sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.

De um Nazareno compassivo e terno,
D’olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inef√°veis cora√ß√Ķes piedosos!

Esperanças de um Vão Contentamento

Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; c√° ficar√° meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

J√° n√£o me iludir√° um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas raz√Ķes do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.

Soneto XXXXII

Dai-me raz√£o, Baptista, que conclua
Porque sois voz que no deserto brada,
Se Deus tem j√° sua palavra dada
De a seu filho chamar palavra sua.

E não é bem que se vos atribua
Nome que a Deus para seu filho agrada.
Quanto ua confiss√£o desenganada
Obrou, temo esta voz tanto destrua.

Ah! quanto é seu ofício à voz conforme,
Desperta a voz, mas a palavra fala,
Mil vezes com quem dorme usamos isto.

Vem Deus falar c’o Mundo, e porque dorme
Primeiro a voz lhe manda que o abala,
O Baptista desperta, e fala Cristo.

Tempo √Č J√° Que Minha Confian√ßa

Tempo é já que minha confiança
se des√ßa de √ľa falsa opini√£o;
mas Amor n√£o se rege por raz√£o;
não posso perder, logo, a esperança.

A vida, si; que √ľa √°spera mudan√ßa
não deixa viver tanto um coração.
E eu na morte tenho a salvação?
Si, mas quem a deseja não a alcança.

Forçado é logo que eu espere e viva.
Ah! dura lei de Amor, que n√£o consente
quieta√ß√£o n√ľa alma que √© cativa!

Se hei de viver, enfim, forçadamente,
para que quero a glória fugitiva
de √ľa esperan√ßa v√£ que me atormente?

Se pena por amar-vos se merece

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre est√°? ou quem isento?
Que alma, que raz√£o, que entendimento
Em ver-vos se n√£o rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se n√£o sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.

Pressentimento

O fim do nosso amor pressenti – na agonia
das tuas pr√≥prias cartas, r√°pidas, pequenas…
– se nem tantas, com carinho imenso te escrevia
t√£o poucas me chegavam por reposta apenas…

Nas cartas que a sofrer, te escrevia, às dezenas
adiava a realidade sempre, dia a dia,
procurando iludir em v√£o as minhas penas
muito embora eu soubesse o quanto me iludia!

Hoje… j√° n√£o foi mais surpresa para mim,
dizes (como quem tem piedade), que é melhor
n√£o continuarmos mais… e tens raz√£o: √© o fim…

H√° muito eu o esperava e o pressentia no ar…
Chegou… que hei de fazer?… Foi bom… Seria Pior
se ele n√£o viesse nunca… e eu ficasse a esperar…