Sonetos sobre Vis√£o

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Sonetos de visão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Porque Descrês, Mulher, do Amor, da Vida?

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que vis√£o te fugio, que assim perdida
Buscas em v√£o n’este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao ch√£o pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descr√™s do viver?… E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

Cam√Ķes III

Quando, torcendo a chave misteriosa
Que os cancelos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma vis√£o resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba. que cantaria a ação famosa
Aos ouvidos da própria e estranha gente.

E disse: “Se j√° noutra, antiga idade,
Tróia bastou aos homens, ora quero
Mostrar que é mais humana a humanidade.

Pois não serás herói de um canto fero,
Mas vencer√°s o tempo e a imensidade
Na voz de outro moderno e brando Homero”.

Enlevo

Da doçura da Noite, da doçura
De um tenro coração que vem sorrindo,
Seus segredos rec√īnditos abrindo
Pela primeira vez, a luz mais pura.

Da doçura celeste, da ternura
De um Bem consolador que vai fugindo
Pelos extremos do horizonte infindo,
Deixando-nos somente a Desventura.

Da doçura inocente, imaculada
De uma car√≠cia virginal da Inf√Ęncia,
Nessa de rosas fresca madrugada.

Era assim tua c√Ęndida fragr√Ęncia,
Arcanjo ideal de auréola delicada,
Vis√£o consoladora da Dist√Ęncia…

Soneto da Chuva

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha inf√Ęncia, terra que eu pisei:
aqueles versos de √°gua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa √ļltima √≥rbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me s√£o dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu cora√ß√£o, vis√Ķes abandonadas.

Deixem chover as l√°grimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Uma Amiga

Aqueles que eu amei, n√£o sei que vento
Os dispersou no mundo, que os n√£o vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Vis√Ķes que a noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim… mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
N√£o resta uma flor s√≥, uma s√≥ rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel Рtu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnec√™-lo!

Floripes

Fazes lembrar as mouras dos castelos,
As errantes vis√Ķes abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.

Traços ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regi√Ķes sagradas,
Carinhos, beijos, l√°grimas, desvelos.

Um requinte de graça e fantasia
D√°-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o l√Ęnguido abandono…

Desejos vagos, olvidadas queixas
V√£o morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.

Trágica Recordação

Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora
De o ver brincar, e avisto novamente
Seu pequenino Vulto transcendente,
Mas t√£o perfeito e vivo como outrora!

Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar a luz da aurora!

Julgo que ele ainda vive, mas j√° perto
Da Morte: sombra escura, abysmo aberto…
Pesadêlo de treva e nevoeiro!

√ď vis√£o da Crean√ßa ao p√© da Morte!
E a da M√£e, tendo ao lado a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

A Tua Voz de Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus l√°bios √ļmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo n√£o repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a vis√£o dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
T√™m a firmeza el√°stica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Sidera√ß√Ķes

Para as Estrelas de cristais gelados
As √Ęnsias e os desejos v√£o subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplid√£o vestindo…

Num cortejo de c√Ęnticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Vis√Ķes levanta…

E as √Ęnsias e os desejos infinitos
V√£o com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…

Encarnação

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
Carnais, sejam carnais tantos anseios,
Palpita√ß√Ķes e fr√™mitos e enleios,
Das harpas da emo√ß√£o tantos arpejos…

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
A noite, ao luar, intumescer os seios
L√°cteos, de finos e azulados veios
De virgindade, de pudor, de pejos…

Sejam carnais todos os sonhos brumos
De estranhos, vagos, estrelados rumos
Onde as Vis√Ķes do amor dormem geladas…

Sonhos, palpita√ß√Ķes, desejos e √Ęnsias
Formem, com claridades e fragr√Ęncias,
A encarnação das lívidas Amadas!

Vênus II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
– Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
– √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

A Vida

“A Vida”
II
“. . Tem sido assim e assim ser√°… Mais tarde
o que hoje pensas chamar√°s: – quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
ser√° a vis√£o de extinta primavera…

Escondido à .traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante j√° te espera!

E num requinte de perversidade
faz de cada ilus√£o, de cada sonho,
a ru√≠na de uma dor… e uma saudade…

E se voltares, notar√°s ent√£o
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em v√£o sonhaste… e que viveste em v√£o!…”

Perdoa-Me Vis√£o Dos Meus Amores

Perdoa-me vis√£o dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo a estação das flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais v√£o revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que √ļltima esperan√ßa me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

Meu Céu Interior

Se esses teus olhos, no meu livro, imersos,
encontrarem diversas emo√ß√Ķes,
– n√£o tentes decifrar… – mil cora√ß√Ķes
n√≥s os temos num s√≥, todos diversos…

Os meus poemas aqui, vivem dispersos,
como as estrelas… e as constela√ß√Ķes…
– no c√©u das minhas √≠ntimas vis√Ķes,
no”meu c√©u interior…”cheio de versos.

N√£o procures o poeta compreender…
– Os versos que umas cousas nos desnudam,
Outras cousas, ocultam, sem querer…

Uns, s√£o felizes… Outros, ao contr√°rio…
– No ros√°rio da vida, as contas mudam,
e os versos s√£o contas de um ros√°rio!…

Com Os Mortos

Os que amei, onde est√£o? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tuf√Ķes,
Levados, como em sonho, entre vis√Ķes,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e √† merc√™ dos turbilh√Ķes,
S√≥ vejo espuma l√≠vida, em cach√Ķes,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunh√£o ideal do eterno Bem.

Piano De Bairro

Na rua sossegada onde moro, Рà tardinha,
quando em sombras o céu lentamente escure,
– um piano solit√°rio, em surdina, – parece
acompanhar ao longe a tarde que definha…

Nessa hora, em que de manso a noite se avizinha,
seus acordes pelo ar tem murm√ļrios de prece…
РAh! Quem não traz como eu também, na alma sozinha,
um piano evocativo que nos entristece?

H√° sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente, Рe que nas tardes mansas
sonoriza vis√Ķes de outrora ao nosso ouvido.

Seus monótonos sons, seus estudos sem cor,
repetem no teclado branco das lembranças
o inconcluso prel√ļdio de um long√≠nquo amor!

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

Foederis Arca

Vis√£o que a luz dos Astros louros trazes,
Papoula real tecida de neblinas
Leves, etéreas, vaporosas, finas,
Com aromas de lírios e lilazes.

Brancura virgem do cristal das frases,
Neve serene das regi√Ķes alpinas,
Willis juncal de m√£os alabastrinas,
De fugitivas corre√ß√Ķes vivazes.

Floresces no meu Verso como o trigo,
O trigo de ouro dentre o sol floresce
E √©s a suprema Religi√£o que eu sigo…

O Missal dos Missais, que resplandece,
A igreja soberana que eu bendigo
E onde murmuro a solit√°ria prece!…

Quinze Anos

Eu amo a vasta sombra das montanhas,
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossais aranhas.

D’ali o nosso olhar v√™ t√£o estranhas
Coisas, por esse céu! e tão ardentes
Vis√Ķes, l√° n’esse mar de ondas trementes!
E √†s estrelas, d’ali, v√™-as tamanhas!

Amo a grandeza misteriosa e vasta…
A grande ideia, como a flor e o viço
Da √°rvore colossal que nos domina…

Mas tu, crian√ßa, s√™ tu boa… e basta:
Sabe amar e sorrir… √© pouco isso?
Mas a ti só te quero pequenina!

Estas Risadas

Estas risadas límpidas e frescas
Que Pan trauteia em c√°lamos maviosos
Nesta amplid√£o dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;

Toda esta pompa e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e v√°rzeas, prados vigorosos,
Louros — talvez como as vis√Ķes tudescas;

Este luxuoso e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
— Do grande altar da natureza imensa.

Aguarda o poeta sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da raz√£o que pensa…