Passagens de Charles Baudelaire

112 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Charles Baudelaire para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Prazer e o Trabalho

Em cada minuto somos esmagados pela ideia e a sensação do tempo. E apenas existem dois meios para escapar a tal pesadelo, para esquecê-lo: o prazer e o trabalho. O prazer gasta-nos. O trabalho fortifica-nos. Escolhamos.
Quanto mais nos servimos de um destes meios, mais o outro nos inspira repugn√Ęncia.

A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a uma feitiçaria evocatória; as palavras ressuscitam revestidas de carne e osso, o substantivo, em sua majestade substancial, o adjectivo, roupa transparente que o veste e dá cor como um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso á frase.

Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

O Morto Prazenteiro

Onde haja carac√≥is, n’um fecundo torr√£o,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubar√£o.

Detesto os mausoléus, odeio os monumentos,
E, a ter de suplicar as l√°grimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podrid√£o!

Sem piedade, minai a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!

Tradução de Delfim Guimarães

O Mal-Entendido Universal

O mundo s√≥ caminha atrav√©s do mal-entendido. √Č atrav√©s do mal-entendido universal que toda a gente se p√Ķe de acordo. Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam p√īr-se de acordo.
O homem de esp√≠rito, aquele que nunca se por√° de acordo com ningu√©m, deve aplicar-se a amar a conversa dos imbecis e a leitura dos maus livros. Extrair√° fun√ß√Ķes amargas que lhe compensar√£o largamente a fadiga.

A alma toma c√° um banho de pregui√ßa aromatizado pela saudade e pelo desejo. – √Č algo crepuscular, azulado e rosado; um sonho voluptuoso durante um eclipse.

Criar Banalidades, até Chegar ao Génio

Um pouco de trabalho, repetido trezentas e sessenta e cinco vezes, dá trezentas e sessenta e cinco vezes um pouco de dinheiro, isto é, uma soma enorme. Ao mesmo tempo, a glória está feita.
Do mesmo modo, uma por√ß√£o de pequenos gozos comp√Ķem a felicidade. Criar uma banalidade, √© o g√©nio. Devo criar uma banalidade.

√Č Necess√°rio Estar Sempre Embriagado

√Č necess√°rio estar sempre embriagado. Tudo est√° a√≠: √© a √ļnica quest√£o. Para n√£o se sentir o horr√≠vel fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direc√ß√£o √† terra, deveis vos embriagar sem tr√©gua. Mas de qu√™? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos.