Passagens de Charles Baudelaire

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Frases, pensamentos e outras passagens de Charles Baudelaire para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Musa Enferma

√ď minha musa, ent√£o! que tens tu, meu amor?
Que descorada est√°s! No teu olhar sombrio
Passam fulgura√ß√Ķes de loucura e terror;
Percorre-te a epiderme em fogo um suor frio.

Esverdeado gnomo ou duende tentador,
Em teu corpo infiltrou, acaso, um amavio?
Foi algum sonho mau, vis√£o cheia de terror,
Que assim te magoou o teu olhar macio?

Eu quisera que tu, saud√°vel e contente.
Só nobres idéias abrigasses na mente,
E que o sangue crist√£o, ritmado, te pulsara

Como do silab√°lirio antigo os sons variados,
Onde reinam, o par, os deuses decantados;
Febo ‚ÄĒ pai das can√ß√Ķes, e P√£ ‚ÄĒ senhor da seara!

Tradução de Delfim Guimarães

O Homem e o Mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre h√°s-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
√ď mar, ningu√©m conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E h√° s√©culos mil, s√©c’ulos inumer√°veis,
Que os dois vos combateis n’uma luta selvagem,
De tal modo gostais n’uma luta selvagem,
Eternos lutador’s √≥ irm√£os implac√°veis!

Tradução de Delfim Guimarães

A Giganta

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava à terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos p√©s d’uma rainha!

Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terríveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensíveis

Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E às vezes, no verão, quando no ardente solo

Eu visse deitar, numa quebreira estranha estranha,
Dormir serenamente à sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!

Tradução de Delfim Guimarães

A Beleza

De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, ‚ÄĒ jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor’ de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p’ra fascinar o meu d√≥cil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A pr√≥pria imperfei√ß√£o: ‚ÄĒ os meus olhos ardentes!

Tradução de Delfim Guimarães

Sepultura d’um Poeta Maldito

Se, em noite horrorosa, escura,
Um crist√£o, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ru√≠nas d’alguma herdade,

As aranhas h√£o-de armar
No teu coval suas teias,
E nele ir√£o procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
– Em constantes como√ß√Ķes,

H√°s-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladr√Ķes.

Tradução de Delfim Guimarães

A Musa Venal

Musa do meu amor, ó principesca amante,
Quando o inverno chegar, com seus ventos irados
Pelos longos ser√Ķes, de frio tiritante,
Com que hás-de acalentar os pésitos gelados?

Tencionas aquecer o colo deslumbrante
Com os raios de luz pelos vidros filtrados?
Tendo a casa vazia e a bolsa agonizante
o ouro vais roubar aos céus iluminados?

Precisas, para obter o triste p√£o di√°rio,
Fazer de sacrist√£o e de turibul√°rio,
Entoar um Te-Deum, sem crença nem favor,

Ou, como um saltimbanco esfomeado, mostrar
As tuas perfei√ß√Ķes, atrav√©s d’um olhar
Onde ocultas, a rir, o natural pudor!

Tradução de Delfim Guimarães

Esterilidade

Ao vê-la caminhar em trajos vaporosos,
Parece que desliza em voluptuosa dança,
Como aqueles r√©pteis da √ćndia, majestosos,
Que um faquir faz mover em torno d’uma lan√ßa.

Como um vasto areal, ou como um céu ardente,
Como as vagas do mar em seu fragor insano,
‚ÄĒ Assim ela caminha, a passo, indiferente,
Insensível à dor, ao sofrimento humano.

Seus olhos têem a luz dos cristais rebrilhantes,
E o seu todo estranho onde, a par, se lobriga
O anjo inviolado e a muda esfinge antiga,

Onde tudo é fulgor, ouro, metais, diamantes
Vê-se resplandecer a fria majestade
Da mulher infecunda ‚ÄĒ essa inutilidade!

Tradução de Delfim Guimarães

O Prazer e o Trabalho

Em cada minuto somos esmagados pela ideia e a sensação do tempo. E apenas existem dois meios para escapar a tal pesadelo, para esquecê-lo: o prazer e o trabalho. O prazer gasta-nos. O trabalho fortifica-nos. Escolhamos.
Quanto mais nos servimos de um destes meios, mais o outro nos inspira repugn√Ęncia.