Passagens de Charles Baudelaire

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Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

O Morto Prazenteiro

Onde haja carac√≥is, n’um fecundo torr√£o,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubar√£o.

Detesto os mausoléus, odeio os monumentos,
E, a ter de suplicar as l√°grimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podrid√£o!

Sem piedade, minai a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!

Tradução de Delfim Guimarães

O Mal-Entendido Universal

O mundo s√≥ caminha atrav√©s do mal-entendido. √Č atrav√©s do mal-entendido universal que toda a gente se p√Ķe de acordo. Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam p√īr-se de acordo.
O homem de esp√≠rito, aquele que nunca se por√° de acordo com ningu√©m, deve aplicar-se a amar a conversa dos imbecis e a leitura dos maus livros. Extrair√° fun√ß√Ķes amargas que lhe compensar√£o largamente a fadiga.

A alma toma c√° um banho de pregui√ßa aromatizado pela saudade e pelo desejo. – √Č algo crepuscular, azulado e rosado; um sonho voluptuoso durante um eclipse.

Criar Banalidades, até Chegar ao Génio

Um pouco de trabalho, repetido trezentas e sessenta e cinco vezes, dá trezentas e sessenta e cinco vezes um pouco de dinheiro, isto é, uma soma enorme. Ao mesmo tempo, a glória está feita.
Do mesmo modo, uma por√ß√£o de pequenos gozos comp√Ķem a felicidade. Criar uma banalidade, √© o g√©nio. Devo criar uma banalidade.

√Č Necess√°rio Estar Sempre Embriagado

√Č necess√°rio estar sempre embriagado. Tudo est√° a√≠: √© a √ļnica quest√£o. Para n√£o se sentir o horr√≠vel fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direc√ß√£o √† terra, deveis vos embriagar sem tr√©gua. Mas de qu√™? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos.

Parece-me que sempre estaria bem lá onde não estou, e essa questão de mudança é uma das que não cesso de discutir com minha alma.

Tédio

Tenho as recorda√ß√Ķes d’um velho milen√°rio!

Um grande contador, um prodigioso arm√°rio,
Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,
Mais segredos n√£o tem do que eu na mente abrigo.
Meu cer’bro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!

‚ÄĒ Eu sou um cemit√©rio estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil ‚ÄĒ remorsos doloridos,
Atacam de pref’r√™ncia os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no ch√£o as modas despresadas,
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher
Fuem o doce olor d’um frasco de Gell√©.

Nada pode igualar os dias tormentosos
Em que, sob a press√£o de invernos rigorosos,
O T√©dio, fruto inf’liz da incuriosidade,
Alcan√ßa as propor√ß√Ķes da Imortalidade.

‚ÄĒ Desde hoje, n√£o √©s mais, √≥ mat√©ria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d’um Saarah movedi√ßo, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sono misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!

Tradução de Delfim Guimarães

Para n√£o serdes os martirizados e escravos do tempo
embriagai-vos sem tréguas
de vinho, de poesia ou de virtudes
como achardes melhor.

Correspondências

A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a √°rvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe v√£o perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

H√° perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o √Ęmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expans√£o das notas d’um clarim.

Tradução de Delfim Guimarães

O Azar

Com peso tal, n√£o me ajeito;
Dá-me, Sísifo, vigor!
Embora eu tenha valor,
A Arte é larga e o Tempo Estreito.

Longe dos mortos lembrados,
A um obscuro cemitério,
Minh’alma , tambor fun√©reo,
Vai rufar trechos magoados.

‚ÄĒ H√° muitas j√≥ias ocultas
Na terra fria, sepulturas
Onde n√£o chega o alvi√£o;

Muita flor exala a medo
Seus perfumes no degredo
Da profunda solid√£o

Tradução de Delfim Guimarães