Sonetos de Charles Baudelaire

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Sonetos de Charles Baudelaire. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Correspondências

A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a √°rvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe v√£o perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

H√° perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o √Ęmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expans√£o das notas d’um clarim.

Tradução de Delfim Guimarães

O Azar

Com peso tal, n√£o me ajeito;
Dá-me, Sísifo, vigor!
Embora eu tenha valor,
A Arte é larga e o Tempo Estreito.

Longe dos mortos lembrados,
A um obscuro cemitério,
Minh’alma , tambor fun√©reo,
Vai rufar trechos magoados.

‚ÄĒ H√° muitas j√≥ias ocultas
Na terra fria, sepulturas
Onde n√£o chega o alvi√£o;

Muita flor exala a medo
Seus perfumes no degredo
Da profunda solid√£o

Tradução de Delfim Guimarães

O Cachimbo

Trigueiro, negro, enfarruscado,
Sou o cachimbo d’um autor,
incorrigível fumador,
Que me tem j√° quase queimado.

Quando o persegue ingente dor,
Eu, a fumar, sou comparado
Ao fogareiro improvisado
Para o jantar d’um lenhador.

Vai envolver-lhe a tova mente
O fumo azul e transparente
Da minha boca em erup√ß√£o…

A sua dor, prestes, se acalma;
Leva-lhe o fumo a paz à alma,
Vai Alegrar-lhe o coração!

Tradução de Delfim Guimarães

O Tonel do Rancor

O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;
A Vingança, febril, grandes olhos absortos,
procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,
Constante, a despejar pranto e sangue de mortos.

O Diabo faz-lhe abrir uns furos misteriosos
Por onde se estravasa o líquido em tropel;
Mil anos de labor, de esforços fatigosos,
Tudo seria v√£o para encher o tonel.

O Rancor é qual ébrido em sórdida taverna,
Que quanto mais bebeu inda mais sede tem,
Vendo-a multiplicar como a hidra de Lerna.

РMas se o ébrio feliz sabe com quem se avém,
O Rancor, por seu mal, n√£o logra conseguir,
Qual torvo beberr√£o, acabar por dormir.

Tradução de Delfim Guimarães

Os Mochos

Sob os feixos onde habitam,
Os mochos formam em filas;
Fugindo as rubras pupilas,
Mudos e quietos, meditam.

E assim permanecer√£o
Até o Sol se ir deitar
No leito enorme do mar,
Sob um sombrio edred√£o.

Do seu exemplo, tirai
Proveitoso ensinamento:
‚ÄĒ Fug√≠ do mundo, evitai

O bul√≠cio e o movimento…
Quem atr√°s de sombras vai,
Só logra arrependimento!

Tradução de Delfim Guimarães

O Monge Maldito

Os devotos painéis dos antigos conventos,
Reproduzindo a santa imagem da Verdade,
Davam certo conforto aos sóbrios monumentos,
Tornavam menos fria aquela austeridade.

Olhos fitos em Deus, nos santos mandamentos,
Mais de um monge alcançou palma de santidade,
A’ Morte consagrando obras e pensamentos
Numa vida de paz, de labor, de humildade.

Minh’alma √© um coval onde, monge maldito,
Desde que existe o mundo, aborrecido, habito,
Sem ter um s√≥ painel que possa contemplar…

‚ÄĒ O’ monge mandri√£o! se quer’s viver, contente,
uma vida de paz, n√£o seja indolente;
Caleja-me essas m√£os, trabalha! vai cavar!

Tradução de Delfim Guimarães

Ciganos em Viagem

A tribo que prevê a sina dos viventes
Levantou arraiais hoje de madrugada;
Nos carros, as mulher’, c’o a torva filharada
Às costas ou sugando os mamilos pendentes;

Ao lado dos carr√Ķes, na pedregosa estrada,
Vão os homens a pé, com armas reluzentes,
Erguendo para o céu uns olhos indolentes
Onde j√° fulgurou muita ilus√£o amada.

Na buraca onde est√° encurralado, o grilo,
Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;
Cibela, com amor, traja um verde mais puro,

Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,
Para assim receber esses p’ra quem ‘st√° aberto
O império familiar das trevas do futuro!

Tradução de Delfim Guimarães

O Ideal

Nunca poder√° ser p√°lida bonequinha,
Produto sem frescor qual manequim de molas,
P√©s para borzeguins, dedos p’ra castanholas,
Que h√°-de satisfazer almas como esta minha.

Eu deixo a Gavarni, poeta de enfermaria,
Seu rebanho gentil de belezas cloróticas,
Porque nunca encontrei n’essas plantas ex√≥ticas
A rubra flor que anela a minha fantasia.

Meu torvo cora√ß√£o, na ang√ļstia que o oprime,
Sonha Lady Macbeth, alma fadada ao crime,
Pesadelo infernal que um √Čsquilo criou;

E contigo também, ó Noite grandiosa,
Filha de Miguel-Anjo, esfinge misteriosa,
Sereia colossal que algum Tit√£ gerou!

Tradução de Delfim Guimarães

O Inimigo

A mocidade foi-me um temporal bem triste,
Onde raro brilhou a luz d’um claro dia;
Tanta chuva caiu, que quase n√£o existe
Uma flor no jardim da minha fantasia.

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado,
Que paciente labor n√£o preciso ‚ÄĒ ai de mim! ‚ÄĒ
Se quiser renovar o terreno encharcado,
Cheio de boqueir√Ķes, que √© hoje o meu jardim!

E quem sabe se as flor’s ideais que ora cobi√ßo
Iriam encontrar no chão alagadiço
O preciso alimento ao seu desabrochar?

Corre o tempo veloz, num galope desfeito,
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito,
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar!

Tradução de Delfim Guimarães

Obsess√£o

Os bosques para mim s√£o como catedrais,
Com org√£os a ulular, incutindo pavor…
E os nossos cora√ß√Ķes, – jazidas sepulcrais,
De profundis tamb√©m solu√ßam, n’um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh’alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
√Č um riso semelhante ao do soturno mar.

Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téia,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares.
Os entes que perdi, – espectros familiares!

Tradução de Delfim Guimarães

Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na aur√©ola de luz d’um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde h√° homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher’s cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh’alma √† voz dos marinheiros.

Tradução de Delfim Guimarães

A M√ļsica

A m√ļsica p’ra mim tem sedu√ß√Ķes de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha p√°lida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulm√Ķes distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as como√ß√Ķes
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convuls√Ķes

Conseguem a minh’alma acalentar.
‚ÄĒ Mas quando reina a paz, quando a bonan√ßa impera,
Que desespero horrível me exaspera!

Tradução de Delfim Guimarães

A Teodoro de Banville

De tal modo agarraste a Deusa pela crina,
Com ar dominador, num gesto sacudido
Que se alguém presencia o caso acontecido
Poderia julgar-te um rufi√£o de esquina.

Com o l√≠mpido olhar, ‚ÄĒ precoce e ardente vista,
Audaz, vais expandido o orgulho de arquitecto
Em nobres produ√ß√Ķes, de tra√ßo t√£o correcto,
Que deixam futurar um prodigioso artista.

O nosso sangue, Poeta, esvai-se dia a dia!…
Acaso, do Centauro, a t√ļnica sombria,
‚ÄĒ Que, f√ļnebres caudais as velas transformava ‚ÄĒ

Três vezes se tingiu com as barbas subtis
D’aqueles infernais, monstruosos, r√©pteis,
Que Hércules, em crença, a rir, estrangulava?

Tradução de Delfim Guimarães

A Vida Anterior

Longos anos vivi sob um pórtico alto
De gigantes pilares, nobres, dominadores,
Que a luz, vinda do mar, esmaltava de cores,
Tornando-o semelhante às grutas de basalto.

Chegavam até mim os ecos da harmonia
Do orfe√£o colossal das ondas chamejantes,
Ligando a sua voz às tintas deslumbrantes
Da luz crepuscular que em meus olhos fugia.

Em meio do esplendor do céu, do mar, dos lumes,
Foi-me dado gozar, voluptuosas calmas!
Escravos seminus, rescendendo perfumes,

Minha fronte febril refrescavam com palmas,
E tinham por miss√£o apenas descobrir
A misteriosa dor que eu andava a carpir

Tradução de Delfim Guimarães

Uma Gravura Fant√°stica

Um vulto singular, um fantasma faceto,
Ostenta na cabeça horrível de esqueleto
Um diadema de lata, – √ļnico enfeite a orn√°-lo
Sem espora ou ping’lim, monta um pobre cavalo,

Um espectro também, rocinante esquelético,
Em baba a desfazer-se como um epitético,
Atravessando o espaço, os dis lá vão levados,
O Infinito a sulcar, como drag√Ķes alados.

O Cavaleiro brande um gl√°dio chamejante
Por sobre as multid√Ķes que pisa rocinante.
E como um gran-senhor, que seus reinos visite,

Percorre o cemitério enorme, sem limite,
Onde jazem, no alvor d’uma luz branca e terna,
Os povos da História antiga e da moderna.

Tradução de Delfim Guimarães

A Musa Enferma

√ď minha musa, ent√£o! que tens tu, meu amor?
Que descorada est√°s! No teu olhar sombrio
Passam fulgura√ß√Ķes de loucura e terror;
Percorre-te a epiderme em fogo um suor frio.

Esverdeado gnomo ou duende tentador,
Em teu corpo infiltrou, acaso, um amavio?
Foi algum sonho mau, vis√£o cheia de terror,
Que assim te magoou o teu olhar macio?

Eu quisera que tu, saud√°vel e contente.
Só nobres idéias abrigasses na mente,
E que o sangue crist√£o, ritmado, te pulsara

Como do silab√°lirio antigo os sons variados,
Onde reinam, o par, os deuses decantados;
Febo ‚ÄĒ pai das can√ß√Ķes, e P√£ ‚ÄĒ senhor da seara!

Tradução de Delfim Guimarães

A Giganta

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava à terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos p√©s d’uma rainha!

Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terríveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensíveis

Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E às vezes, no verão, quando no ardente solo

Eu visse deitar, numa quebreira estranha estranha,
Dormir serenamente à sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!

Tradução de Delfim Guimarães

A Beleza

De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, ‚ÄĒ jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor’ de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p’ra fascinar o meu d√≥cil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A pr√≥pria imperfei√ß√£o: ‚ÄĒ os meus olhos ardentes!

Tradução de Delfim Guimarães

Sepultura d’um Poeta Maldito

Se, em noite horrorosa, escura,
Um crist√£o, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ru√≠nas d’alguma herdade,

As aranhas h√£o-de armar
No teu coval suas teias,
E nele ir√£o procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
– Em constantes como√ß√Ķes,

H√°s-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladr√Ķes.

Tradução de Delfim Guimarães

A Musa Venal

Musa do meu amor, ó principesca amante,
Quando o inverno chegar, com seus ventos irados
Pelos longos ser√Ķes, de frio tiritante,
Com que hás-de acalentar os pésitos gelados?

Tencionas aquecer o colo deslumbrante
Com os raios de luz pelos vidros filtrados?
Tendo a casa vazia e a bolsa agonizante
o ouro vais roubar aos céus iluminados?

Precisas, para obter o triste p√£o di√°rio,
Fazer de sacrist√£o e de turibul√°rio,
Entoar um Te-Deum, sem crença nem favor,

Ou, como um saltimbanco esfomeado, mostrar
As tuas perfei√ß√Ķes, atrav√©s d’um olhar
Onde ocultas, a rir, o natural pudor!

Tradução de Delfim Guimarães