Cita√ß√Ķes sobre Tempo

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Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca d√™s ouvidos √†queles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspira√ß√Ķes. Tu bem sabes qual √© a tua voca√ß√£o, pois a sentes exercer press√£o sobre ti. E, se a atrai√ßoas, √© a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se far√° lentamente, pois ela √© nascimento de √°rvore e n√£o descoberta de uma f√≥rmula. O tempo √© que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha dif√≠cil. Porque o ser novo, que √© unidade libertada no meio da confus√£o das coisas, n√£o se te imp√Ķe como a solu√ß√£o de um enigma, mas como um apaziguamento dos lit√≠gios e uma cura dos ferimentos. E s√≥ vir√°s a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu t√£o √ļtil ao homem como o sil√™ncio e a lentid√£o. Por isso os tenho honrado sempe como deuses por demais esquecidos.

Felicidade e Cultura

A vis√£o das imedia√ß√Ķes da nossa inf√Ęncia comove-nos: a casa de campo, a igreja com as sepulturas, a lagoa e o bosque… √© sempre com padecimento que voltamos a ver isso. Apodera-se de n√≥s a compaix√£o para com n√≥s pr√≥prios, pois por que sofrimentos n√£o pass√°mos, desde ent√£o! E ali continua a estar tudo t√£o calmo, t√£o eterno: s√≥ n√≥s estamos mudados, t√£o agitados; at√© tornamos a encontrar algumas pessoas, nas quais o tempo n√£o meteu dente mais do que num carvalho: camponeses, pescadores, habitantes da floresta… s√£o os mesmos. Como√ß√£o, compaix√£o consigo pr√≥prio, √† vista da cultura inferior, √© sinal de cultura superior; donde se conclui que, por interm√©dio desta, a felicidade, em todo o caso, n√£o foi acrescida. Justamente, quem quiser colher da vida felicidade e deleite s√≥ tem que se desviar sempre da cultura superior.

Proibir Demasiado Prejudica a Lei

Penso que um excesso de decretos e de interditos prejudica a autoridade da lei. Podemos observ√°-lo: onde existem poucas proibi√ß√Ķes, estas s√£o obedecidas; onde a cada passo se trope√ßa em coisas proibidas, sente-se rapidamente a tenta√ß√£o de as infringir. Al√©m disso, n√£o √© preciso ser-se anarquista para se ver que as leis e os decretos, do ponto de vista da sua origem, n√£o gozam de qualquer car√°cter sagrado ou invulner√°vel. Por vezes s√£o pobres de conte√ļdo, insuficientes, ofensivas do nosso sentido de justi√ßa, ou nisso se tornam com o tempo, e ent√£o, dada a in√©rcia geral dos dirigentes, n√£o resta outro meio de corrigir essas leis caducas sen√£o infringi-las de boa vontade! Para mais, √© prudente, quando se pretende manter o respeito por leis e decretos, n√£o promulgar sen√£o aqueles cuja observa√ß√£o ou infrac√ß√£o possam ser facilmente controladas.

Uma pessoa fixada no presente, sem atender ao passado e ao futuro, fica naquela situação triste em que ficaram os gregos que nunca se livraram da presença do tempo e do espaço.

O Céu e o Ninho

√Čs ao mesmo tempo o c√©u e o ninho.

Meu belo amigo, aqui no ninho,
o teu amor prende a alma
com mil cores,
cores e m√ļsicas.

Chega a manh√£,
trazendo na m√£o a cesta de oiro,
com a grinalda da formosura,
para coroar a terra em silêncio!

Chega a noite pelas veredas n√£o andadas
dos prados solit√°rios,
j√° abandonados pelos rebanhos!
Traz, na sua bilha de oiro,
a fresca bebida da paz,
recolhida
no mar ocidental do descanso.

Mas onde o céu infinito se abre,
para que a alma possa voar,
reina a branca claridade imaculada.
Ali n√£o h√° dia nem noite,
nem forma, nem cor,
nem sequer nunca, nunca,
uma palavra!

Tradu√ß√£o de Manuel Sim√Ķes

Esperanças de um Vão Contentamento

Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; c√° ficar√° meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

J√° n√£o me iludir√° um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas raz√Ķes do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu lim√£o de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Em Busca

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver t√£o outro, t√£o mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal ‚ÄĒ o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilus√Ķes perdi o meu rebanho,
N√£o sei do meu amor, sa√ļde n√£o na tenho,
E a vida sem sa√ļde √© um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu cora√ß√£o em busca dos seus rastros…

Soneto VIII – O Tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo,
√Č for√ßoso do tempo j√° dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e n√£o foi conta.
N√£o quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
N√£o gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
N√£o choravam como eu o n√£o ter tempo.

Em geral, os sábios de todos os tempos disseram sempre o mesmo, e os tolos, isto é, a imensa maioria de todos os tempos, sempre fizeram o mesmo, ou seja, o contrário; e assim continuará a ser.

Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos.

Olhando de perto, um sonho n√£o √© uma coisa sem perigo. √Č como uma pistola com dois gatilhos. Se vive muito tempo acaba por ferir algu√©m.

Porque a Vida é feita contra o Tempo. Sem medida, tecida de ínfimos infinitos.

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
√Čs a dura√ß√£o,
o tempo que amadurece
num instante enorme, di√°fano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Tradução de Luis Pignatelli

A Humildade é a Base da Sociedade

A humildade oferece a todos, mesmo ao que se desespera na solid√£o, a rela√ß√£o mais forte com o semelhante, e, na realidade, imediatamente, mas, com certeza, s√≥ no caso da humildade completa e duradoura. Ela √© capaz disso por ser ao mesmo tempo a verdadeira linguagem da ora√ß√£o e a mais s√≥lida das liga√ß√Ķes. A rela√ß√£o com o semelhante √© a rela√ß√£o da prece; a rela√ß√£o consigo mesmo, a rela√ß√£o do esfor√ßo para alcan√ßar algo; a energia para esse esfor√ßo √© extra√≠da da ora√ß√£o.

Podes conhecer outra coisa que não seja a fraude? Fosse ela um dia obstruída, tu de modo nenhum poderias olhar para lá a não ser que quisesses tranformar-te numa estátua de sal.