Passagens sobre Tempo

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Frases sobre tempo, poemas sobre tempo e outras passagens sobre tempo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A morte √© uma brev√≠ssima varanda. Dali se espreita o tempo como a √°guia se debru√ßa no penhasco ‚Äď em volta todo o espa√ßo se pode converter em espl√™ndida voa√ß√£o.

Todas as coisas têm o seu tempo, e até os valores estão sujeitos à moda. Mas o sábio tem a vantagem de ser eterno. Se este século não o reconhece, os séculos futuros lhe farão justiça.

Janela do Sonho

Abri as janelas
que havia dentro de ti
e entrei abandonado
nos teus braços generosos.

Senti dentro de mim
o tempo a criar silêncio
para te beber altiva e plena.

Mil vezes
repeti teu nome,
mil vezes,
de forma aveludada
e era a chave
que se expunha
e fecundava dentro de mim.

J√° n√£o se sonha,
deixei de sonhar,
o sonho é poeira dos tempos
é a voz da extensão
é a voz da pureza
que dardejava na nossa doçura.

Quando abri as tuas janelas
e despi teus braços
perdi a vaidade
e a pressa,
amei a partida
e em silêncio abri,
(sem saber que abria)
uma noite h√ļmida
em combust√£o secreta
desmaiado no teu ombro
de afrodite.

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

√Č incr√≠vel como as pessoas gastam tanto tempo a combater o diabo. Se gastassem a mesma energia a amar os seus semelhantes, o diabo morreria nas suas pr√≥prias faixas de t√©dio.

Sociedade do Desperdício

Uma tenta√ß√£o imediata do nosso tempo √© o desperd√≠cio. N√£o √© s√≥ resultado duma inven√ß√£o constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como √©, sobretudo, uma forma de aristocracia t√©cnica. O tecnocrata, novo aristocrata da intelig√™ncia artificial, dos n√ļmeros e dos computadores, prop√Ķe uma sociedade de dissipa√ß√£o. Prop√Ķe-na na medida em que favorece os m√©todos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em tr√™s meses, as √°rvores que d√£o fruto tr√™s vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais. Para qu√™? Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperd√≠cios de cozinha ou de vestu√°rio sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade.

O Nobre Patriotismo dos Patriotas

H√° em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a p√°tria, n√£o dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos cora√ß√Ķes fortes. Respeitam a tradi√ß√£o, mas o seu esfor√ßo vai todo para a na√ß√£o viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para tr√°s as gl√≥rias que ganh√°mos nas Molucas, ocupam-se da p√°tria contempor√Ęnea, cujo cora√ß√£o bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspira√ß√Ķes, dirigir-lhe as for√ßas, torn√°-la mais livre, mais forte, mais culta, mais s√°bia, mais pr√≥spera, e por todas estas nobres qualidades elev√°-la entre as na√ß√Ķes. Nada do que pertence √† p√°tria lhes √© estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas n√£o ficam para todo o sempre petrificados nessa admira√ß√£o: v√£o por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instru√ß√£o, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ci√™ncia e justi√ßa.
P√Ķem a p√°tria acima do interesse, da ambi√ß√£o, da glor√≠ola; e se t√™m por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paix√£o diviniza-os. Tudo o que √© seu o d√£o √† p√°tria: sacrificam-lhe vida, trabalho, sa√ļde, for√ßa, o melhor de si mesmo. D√£o-lhe sobretudo o que as na√ß√Ķes necessitam mais,

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A Imensa Imoralidade da Existência

Viver era como correr em c√≠rculo num grande labirinto, esse g√©nero de labirinto para crian√ßas que se v√™ em certos parques de jogos modernos; em cima de uma pedra no meio do labirinto h√° uma pedra brilhante; os m√≠udos chegam com as faces coradas, cheios de uma f√© inabal√°vel na honestidade do labirinto e come√ßam a correr com a certeza de alcan√ßarem dentro de pouco tempo o seu alvo. Corremos, corremos, e a vida passa, mas continuaremos a correr na convic√ß√£o de que o mundo acabar√° por se mostrar generoso para quem correr sem des√£nimo, e quando por fim descobrimos que o labirinto s√≥ aparentemente tende para o ponto central, √© tarde demais – de facto, o construtor do labirinto esmerou-se a desenhar v√°rias pistas diferentes, das quais s√≥ uma conduz √† p√©rola, de modo que √© o acaso cego e n√£o a justi√ßa l√ļcida o que determina a sorte dos que correm.
Descobrimos que gast√°mos todas as nossas for√ßas a realizar um trabalho perfeitamente in√ļtil, mas √© muito tarde j√° para recuarmos. Por isso n√£o √© de espantar que os mais l√ļcidos saiam da pista e suprimam algumas voltas in√ļteis para atingirem o centro cortando caminho. Se dissermos que se trata de uma ac√ß√£o imoral e maldosa,

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O ódio não cessa com o ódio em tempo algum, o ódio cessa com o amor: esta é a lei eterna.

Vida Ilusória

Ao mesmo tempo que a realidade √© uma f√°bula, simula√ß√Ķes e enganos s√£o considerados como as verdades mais s√≥lidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e n√£o se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as hist√≥rias das Mil e Uma Noites.
Se respeit√°ssemos apenas o que √© inevit√°vel e tem direito a ser, a m√ļsica e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e s√°bios, percebemos que s√≥ as coisas grandes e dignas t√™m exist√™ncia permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres n√£o passam de sombra da realidade, o que √© sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas apar√™ncias, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas di√°rias de rotina e h√°bito em cima de funda√ß√Ķes puramente ilus√≥rias.

O amor floresce com a expectativa. A expectativa passeia pelos amplos campos do Tempo rumo à Oportunidade.

N√£o h√° movimento sem tempo. Mesmo parado, o tempo passa, n√£o √© preciso que se mova, porque tudo se move, o tempo corre. O tempo √© movimento em si. E a imagem…

A Face Oculta dos Progressos Técnicos

Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre,

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√Č not√°vel que toda a obra de f√īlego, pelo qual um indiv√≠duo se institui mestre na sua categoria, √©, ao mesmo tempo, obra de emo√ß√£o e de pensamento, cont√©m tanto uma forma de arte como uma f√≥rmula de filosofia.

Tateio

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em l√ļcida altivez, eu j√° sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De n√ļpcias e caminho
√Č t√£o diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e √°gua
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

A vis√£o torna o mundo uma janela, mas percebemos que h√° outras dimens√Ķes igualmente fulcrais do olhar. A come√ßar pela dimens√£o de reflexividade: o nosso corpo, que olha todas as coisas, pode tamb√©m olhar-se; ele √© ao mesmo tempo vidente e vis√≠vel.

O amor √© duas coisas ao mesmo tempo; uma, muito fraca, quebra √† m√≠nima oscila√ß√£o; e outra, de uma fortaleza sobrenatural, aliada a um poder que vem das entranhas, for√ßa c√≥smica, para al√©m das conven√ß√Ķes, das leis morais, dos requisitos t√©cnicos das religiosidades.