Sonetos sobre Estradas

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Sonetos de estradas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

N√£o me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto f√°cil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, √°gua corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

A Vida

“A Vida”
III
“… A vida √© assim, segue e ver√°s, – a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida…

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida…
– amanh√£, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida…

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardan√ßa…

E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,
ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!…”

Mors – Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fant√°sticas estradas,

Donde vem ele? Que regi√Ķes sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
N√£o sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de express√£o potente,
Formid√°vel, mas pl√°cido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!”
Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

O Meu Soneto

Em atitudes e em ritmos fleum√°ticos,
Erguendo as m√£os em gestos recolhidos,
Todos brocados f√ļlgidos, hier√°ticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…

E os meus olhos serenos, enigm√°ticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
S√£o letras de poemas nunca lidos…

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d¬īamor trazem de rastros…

E a minha boca, a r√ļtila manh√£,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

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Tudo Esqueço

Tudo posso esquecer em minha vida
inquieta e livre como uma enxurrada:
– a ilus√£o, num segundo, mais querida…
– a mulher, num segundo, mais amada…

a vis√£o de algum trecho azul da estrada
entre ternos carinhos percorrida;
Рuma história que um dia interrompida
nunca mais afinal foi terminada!

Os desejos… os sonhos… os amores…
que julgo eternos, e que por enquanto
despetalam-se e morrem como flores…

Esqueço tudo! O que passou, morreu!
Só não consigo me esquecer no entanto
da primeira mulher que me esqueceu…

Soneto Da Rosa

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como astro matinal, que a adora
Molhar de puras l√°grimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como √°vida ferida
Guardar o plasma m√ļltiplo da vida
Que a faz materna e pl√°cida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude.

Para que o sonho viva de certeza
Para que o tempo da paix√£o n√£o mude
Para que se una o verbo à natureza.

In Memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “il Poverello”
santo, três vezes santo, andou pregando
Que o Sol, a Terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto h√° de vil, quanto h√° de belo,
Tudo era nosso irm√£o! — E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbra foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irm√£o Sol, nossa irm√£ √Āgua…”
Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de m√°goa

Batida por furiosos vendavais!
— Eu fui na vida a irm√£ de um s√≥ Irm√£o,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

Estranha Encruzilhada

N√£o sei por que cruzou com a tua a minha estrada,
o destino √© inconsciente e n√£o sabe o que faz…
РEncontro-te, e afinal, já sei que tu és amada,
encontras-me, e afinal, j√° √© bem tarde demais…

Já não posso esquecer a existência passada,
perdi meu cora√ß√£o – o amor n√£o tenho mais…
Рjá não tens coração, e a tua alma, coitada,
sofrendo h√° de ficar sem me esquecer jamais…

Até hoje nesse amor não tínhamos pensado:
é por isso talvez que em silêncio tu choras,
e em silêncio também meu pranto é derramado

Eu cheguei… Tu chegaste… Estranha encruzilhada:
se eu tenho que partir depois que tu me adoras,
se, tu tens que ficar sabendo-te adorada!…

Canção do Mar Aberto

Onde puseram teus olhos
A m√°goa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
N√£o paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!…

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar

As Vozes Da Natureza

As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um m√ļtuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.

Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
√Č um pensamento de outro pensamento.

Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a √°gua parada
E o amigo sol, apenas se levanta,

Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.

Em Busca Da Beleza V

Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem m√°goas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que s√£o beijos?
A vida é só o esperar morrer.

Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes √ļnicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.

C’roado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,

Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.

Tudo Passa – II

O cora√ß√£o n√£o morre: ele adormece…
E antes morresse o coração traído,
Mulher que choras teu amor perdido,
Amor primeiro que n√£o mais se esquece!

Quando tu vais rezar, quando anoitece,
Beijas as contas do colar partido;
E o cora√ß√£o n’um tr√™mulo gemido
Vem perturbar a paz de tua prece.

Reza baixinho, ó noiva desolada!
E quando, à tarde, pela mesma estrada
Chorando fores esse imenso amor…

Geme de manso, juriti dolente!
Vais acordar o cora√ß√£o doente…
N√£o o despertes para nova dor.

O Que Tu √Čs…

√Čs Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a M√°goa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no ch√£o como as mendigas,
Todo feito de l√°grimas amargas!

√Čs ano que n√£o teve Primavera…
Ah! N√£o seres como as outras raparigas
√ď Princesa Encantada da Quimera!…

Adeus, Adeus, Adeus!

Pareceu-me inda ouvir o nome dela
No badalar monótono dos sinos.
Hermeto Lima

Adeus, adeus, adeus! E, suspirando,
Saí deixando morta a minha amada,
Vinha o luar iluminando a estrada
E eu vinha pela estrada soluçando.

Perto, um ribeiro claro murmurando
Muito baixinho como quem chorava,
Parecia o ribeiro estar chorando
As l√°grimas que eu triste gotejava.

S√ļbito ecoou do sino o som profundo!
Adeus! – eu disse. Para mim no mundo
Tudo acabou-se, apenas restam m√°goas.

Mas no mistério astral da noute bela
Pareceu-me inda ouvir o nome dela
No marulhar monótono das águas!

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

Quem Sabe?…

Ao √āngelo

Queria tanto saber por que sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber por que seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!

Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bord√£o de estrelas de ceguinho,
√Āgua da fonte de que estou sedenta!

Quem sabe se este anseio de Eternidade,
A tropeçar na sombra, é a Verdade,
√Č j√° a m√£o de Deus que me acalenta?

Dor

H√° de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E and√°-la-√°s sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras
disse-me um dia um p√°lido adivinho.

“No entanto, sempre h√°s de cantar venturas
que jamais encontraste… O teu caminho,
dirás que é cheio de alegrias puras,
de horas boas, de beijos, de carinho…”

E assim tem sido… Escondo os meus lamentos:
√Č meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas l√°grimas no rosto!

A Partida

Partimos muito cedo — A madrugada
Clara, serena, vaporosa e fresca,
Tinha as nuances de mulher tudesca
De fina carne esplêndida e rosada.

Seguimos sempre afora pela estrada
Franca, poeirenta, alegre e pitoresca,
Dentre o frescor e a luz madrigalesca
Da natureza aos poucos acordada.

Depois, no fim, l√° de algum tempo — quando
Chegamos nós ao termo da viagem,
Ambos joviais, a rir, cantarolando,

Da mesma parte do levante, de onde
Saímos, pois, faiscava na paisagem
O sol, radioso e altivo como um conde.

No Campo

Tarde. Um arroio canta pela umbrosa
Estrada; as águas límpidas alvejam
Com cristais. Aragem suspirosa
Agita os roseirais que ali vicejam.

No alto, entretanto, os astros rumorejam
Um press√°gio de noute luminosa
E ei-la que assoma – a Louca tenebrosa,
Branca, emergindo às trevas que a negrejam.

Chora a corrente m√ļrmura, e, √† dolente
Unção da noute, as flores também choram
Num chuveiro de pétalas, nitente,

Pendem e caem – os roseirais descoram
E elas bóiam no pranto da corrente
Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.