Sonetos sobre Estradas

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Sonetos de estradas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Aparição

Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Doiravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.

Dos olhos divinais no doce abrigo
N√£o tinha laivos de Paix√Ķes e ci√ļmes:
Domadora do Mal e do perigo
Da montanha da Fe galgara os cumes.

Vestida na alva excelsa dos Profetas
Falou na ideal resignação de Ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.

No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!

Supremo Anseio

Esta profunda e intérmina esperança
Na qual eu tenho o espírito seguro,
A tão profunda imensidade avança
Como é profunda a idéia do futuro.

Abre-se em mim esse clar√£o, mais puro
Que o céu preclaro em matinal bonança:
Esse clar√£o, em que eu melhor fulguro,
Em que esta vida uma outra vida alcança.

Sim! Inda espero que no fim da estrada
Desta exist√™ncia de ilus√Ķes cravada
Eu veja sempre refulgir bem perto

Esse clar√£o esplendoroso e louro
Do amor de m√£e — que √© como um fruto de ouro,
Da alma de um filho no eternal deserto.

A Esmola De Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o √ļltimo harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos l√°bios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

Na Roça

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atr√°s das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabi√° gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada…

Minha √Ārvore

Olha: √Č um tri√Ęngulo est√©ril de √≠nvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!

Entre os pedrouços maus dessa morada
√Č que, √†s apalpadelas e √†s escuras,
H√£o de encontrar as gera√ß√Ķes futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!

Mulher nenhuma afagar√° meu tronco!
Eu n√£o me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do furac√£o que, r√°bido, remoinha…

Folhas e frutos, sobre a terra ardente
H√£o de encher outras √°rvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!

Benoit

Acende no meu peito o sério lume
Aceso no teu peito porco e bento,
E sê no medo meu, no meu tormento,
O mestre predileto, o amado nume

Capaz de iluminar, sob o cardume
De estrelas, uma estrada que, por dentro,
Percorre o meu país de amor, detento
De tudo que te fez, no mundo, estrume.

Vem dar-me o braço e me levar até
Por onde andaste, noivo e peregrino,
Da Pátria que se esconde atrás da Fé.

Ensina-me a viver o Amor Divino,
E quando o meu cajado florescer,
D√°-me o teu santo modo de morrer.

No Meio Do Caminho

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de s√ļbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua m√£o, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solit√°rio, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Caminho

III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada…
Eis os nossos bord√Ķes da caminhada,
Vai j√° rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
T√£o virgem n√£o o temos na jornada…
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este n√©ctar avigora!…

Cada um por seu lado!… Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir √† grande calma!…

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar Рencher a alma.

Anima Mea

√ď minh’alma, √≥ minh’alma, √≥ meu Abrigo,
Meu sol e minha sombra peregrina,
Luz imortal que os mundos ilumina
Do velho Sonho, meu fiel Amigo!

Estrada ideal de S√£o Tiago, antigo
Templo da minha fé casta e divina,
De onde é que vem toda esta mágoa fina
Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

De onde é que vem tanta esperança vaga,
De onde vem tanto anseio que me alaga,
Tanta diluída e sempiterna mágoa?

Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa Transcendência
Que estes olhos me dixam rasos de √°gua?!

Cheguei Tarde

Cheguei tarde, bem sei…E ap√≥s minha chegada
foi que eu vi, afinal, que tu tinhas partido…
Mas teu vulto, distante, em sombras j√° perdido,
divisar ainda pude, ao longe, pela estrada…

Seguia-te outro vulto, Рo alguém desconhecido
que primeiro encontraste em tua caminhada…
Partiste! …E eras feliz, porque partiste amada,
e eu fiquei, entretanto, infeliz e esquecido…

J√° n√£o te vejo mais… Vai distante talvez…
E ainda hoje tenho o olhar na estrada, sem ninguém,
por onde tu partiste, um dia, certa vez…

Fiquei…Curtindo a dor de um destino atrasado…
– Sorrindo, por te ver feliz…Junto de algu√©m,
– chorando, por n√£o ter mais cedo te encontrado!…

No Campo

Tarde. Um arroio canta pela umbrosa
Estrada; as águas límpidas alvejam
Com cristais. Aragem suspirosa
Agita os roseirais que ali vicejam.

No alto, entretanto, os astros rumorejam
Um press√°gio de noute luminosa
E ei-la que assoma – a Louca tenebrosa,
Branca, emergindo às trevas que a negrejam.

Chora a corrente m√ļrmura, e, √† dolente
Unção da noute, as flores também choram
Num chuveiro de pétalas, nitente,

Pendem e caem – os roseirais descoram
E elas bóiam no pranto da corrente
Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.

Sê de Pedra!

N√£o reparaste nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegraphicos da estrada,
Cantam as aves, desde que o sol nada,
E, √° noite, se faz sol a lua cheia…

No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vae, n’uma ancia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, √°s vezes, d’al√©m-mar anceia:

РRevolução! РInutil. РCem feridos,
Setenta mortos. – Beijo-te! – Perdidos!
– Emfim, feliz! – ?- ! – Desesperado. -Vem!

E as lindas aves, bem se importam ellas!
Continuam cantando, tagarellas:
Assim, Antonio! deves ser tambem.

Pouso

Pervaguei muito tempo a procura de um pouso
como alguém que batesse em vão de porta em porta
– meu olhar, parecia perguntar ansioso:
quem me d√° sua m√£o?… quem minha alma conforta!

Caminheiro sem rumo, a alma j√° quase morta,
via ao longe o caminho int√©rmino e sinuoso…
– (quanta coisa afinal na vida se suporta
antes de conseguir-se um pouco de repouso!)

Minha vida era assim… – uma estrada vazia…
E eu caminhava a olhar buscando o que surgisse
a frente, – e ao meu redor tudo aos poucos fugia…

At√© que te encontrei! … E se n√£o te encontrasse,
– talvez ha muito tempo eu j√° n√£o existisse!
– talvez que ha muito tempo eu j√° n√£o caminhasse!

Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra j√° enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse ágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
– Foi ent√£o que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o c√©u… e mar e c√©us azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ing√™nua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do c√©u, subiu do mar, cantou na estrada…

XXII

A Goethe.

Quando te leio, as cenas animadas
Por teu gênio, as paisagens que imaginas,
Cheias de vida, avultam repentinas,
Claramente aos meus olhos desdobradas.

Vejo o céu, vejo as serras coroadas
De gelo, e o sol que o manto das neblinas
Rompe, aquecendo as frígidas campinas
E iluminando os vales e as estradas.

Ou√ßo o rumor soturno da charr√ļa,
E os rouxinóis que, no carvalho erguido,
A voz modulam de ternuras cheia.

E vejo, à luz tristíssima da lua,
Hermann que cisma, p√°lido, embebido
No meigo olhar da loura Doroth√©a…

Unge-me de Perfumes

‚ÄúGosto tanto de ti…‚ÄĚ, dizes. √Č pouco.
√Č das tuas m√£os erguidas que eu preciso.
Vê bem, Amor: não é orgulho louco.
Para os outros eu sou apenas riso.

Unge-me de perfumes, minha amada,
Como certa Maria de Magdala,
Ungiu os p√©s d¬īAquele cuja estrada
Só começou para além da vala.

Ama-me mais ainda, ó meu amor
Como aquela mulher ungiu o Cristo,
Unge o meu corpo todo, a minha dor…

Ela ungiu-o p¬īra o t√ļmulo, p¬īra a Cruz.
Unge-me teu, p¬īra o Sol por quem existo:
Viver é ir morrendo a beijar luz.

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

Caminho III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada…
Eis os nossos bord√Ķes da caminhada,
Vai j√° rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
T√£o virgem n√£o o temos na jornada…
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este n√©ctar avigora!…

Cada um por seu lado!… Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir √† grande calma!…

Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar Рencher a alma.

No Campo

Acordo de manh√£ cedo
Da luz aos doces carinhos:
Que rosas pelos caminhos!
Que rumor pelo √°rvoredo!

Para o azul radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos
Cheio de amor e segredo.

Dentre moitas de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.

Pelas margens das estradas
Que penetrante frescura
Que femininas risadas!

Trazes-me em Tuas M√£os de Vitorioso

Trazes-me em tuas m√£os de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso
Que a solit√°ria estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O sil√™ncio, ao redor, √© uma asa quieta…
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um c√°lix de tulipa entreaberta…

Cheira a ervas amargas, cheira a s√Ęndalo…
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus bra√ßos m√°sculos de v√Ęndalo…