Passagens de Francisco Joaquim Bingre

40 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Francisco Joaquim Bingre para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

À Sua Velhice

Meu corpo assaz tem sido espicaçado
Com buídos punhais, por mão da Morte,
Que arrebatado tem, da minha corte,
Grande rancho de quanto tenho amado.

N√£o me poupa a cruel no triste estado
Do caduco viver da minha Sorte:
Quando era vigoroso, moço forte,
Suportava com mais valor meu Fado.

Ent√£o as minhas √°speras feridas
N√£o tinham para mim tardias curas,
Porque o Tempo receitas tem, sabidas.

Mas velho e c’o vapor das sepulturas,
Como posso curar as desabridas
Chagas, das minhas novas amarguras?

Morte não é a Esquálida Caveira

Morte não é a esquálida caveira
Dura, disforme, seca e carcomida:
Ela um destroço é, uma caída
Da abreviada, racional carreira.

De ossos e carne envernizada, inteira,
Por vida tem a nossa própria vida.
Come, bebe, passeia, est√° vestida
E, até morrer, é nossa companheira.

E sombra que sentimos e n√£o vemos,
Segue-nos sempre aonde quer que vamos,
S√≥ nos deixa nos √ļltimos extremos.

A Morte é sempre a vida que logramos,
Pois morte s√£o os dias que vivemos
E, vida, só o instante que expiramos.

Ar

Vivificante ar, pai da existência,
Assopro animador do Autor Divino,
Deste nosso subtil moto contino
Composto, onde um Deus p√īs sua ci√™ncia!

Tu tens, ó ar, a excelsa preeminência
De ser exalação do bafo Trino,
Tu susténs, sem cair, o home a pino:
Sem ti tem sempre pronta a decadência.

Tu as ardentes febres lhe mitigas
Nesta, do mundo, trabalhosa lida,
Nestas da Terra (sem cessar) fadigas.

Tu és o sustentáculo da vida,
Porém, quando do corpo te desligas,
Lhe d√°s, com dor, eterna despedida.

O Avarento

No meio de seus cofres, desvelado,
Co’as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista est√° no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.

Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.

Fechado nele est√°, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas inven√ß√Ķes, de ideias tortas.

N√£o emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!

Quanto é Melhor Calar, que Ser Ouvido

Silêncio divinal, eu te respeito!
Tu, meu Numen ser√°s, ser√°s meu guia
Se at√© ‘qui, insensato, errei a via
De Harpócrates, quebrando o são preceito,

Hoje à vista do mal que tenho feito,
Em ser palreira pega em demasia,
Abraçarei a sã Filosofia
Pitagórica escola de proveito.

Tenho visto que males tem nascido
Pelo muito falar: tenho sondado
Quanto é melhor calar, que ser ouvido.

Minha língua vai ter férreo cadeado.
Eu a quero enfrear, arrependido
De tanto sem proveito ter falado.

Feliz Habitação da Minha Amada

Feliz habitação da minha Amada,
Ninho de Amor, albergue da Ternura,
Onde, outro tempo, a próspera Ventura
Dormia nos meus braços, descuidada.

Ent√£o, minha Alma terna, embriagada,
Gostava do prazer toda a doçura:
Hoje, contr√°ria minha, a Sorte dura
Do teu √Čden Amor, m’impede a entrada.

Com que m√°goa, de longe te diviso!…
Com que pena cruel!…
Com que saudade!
Ah! que n√£o sei como n√£o perco o sizo!…

B√°rbara Sorte! Ao menos por piedade,
Se me privas da entrada do Paraíso,
Deixa ver me, de Arm√Ęnia, a divindade!

Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito

Nenhum mortal no mundo satisfeito
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.

O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermit√£o, com √Ęnsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.

O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.

Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaci√°veis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os n√£o contenta.

Cegos como as Peças de Ouro Reluzentes

A Fama, a Glória, as Armas, a Nobreza,
A Ciência, o Poder e tudo quanto
Em honra e distinção, de canto a canto,
Encerra deste mundo a v√£ Grandeza,

A Pluto, cego deus, com vil baixeza
Adoram de joelhos, como a santo:
Pois só o deus do reino atroz do espanto
Pode ser rei e Numen da riqueza.

Do dossel do seu trono est√£o pendentes
C’roas, mitras, laur√©is, braz√Ķes, tiaras,
Que o cego deus reparte às cegas gentes.

Tudo of’rendar-lhe vai nas torpes aras,
Cegos co’as pe√ßas de ouro reluzentes,
A Honra, a Liberdade, as vidas caras.

Retrato das Mulheres em Todas as Idades

Mulher, de quinze a vinte é fresca rosa;
De vinte, a vinte e cinco √© de exp’rimenta.
De vinte cinco a trinta, a graça aumenta:
Ditoso nesta idade quem a goza!

De trinta a trinta e cinco é mal gostosa
Porém, pode passar, com sal, pimenta,
Mas j√° dos trinta e cinco aos quarenta
Vai-se tornando assaz fastidiosa.

De quarenta e cinco ela é bachareleira,
Fala fanhoso e é já de pouco gabo.
De cinquenta cerrados é santeira!

Aos sessenta este seu retrato acabo:
Menina, moça, velha benzedeira,
Bruxa gogosa, ent√£o, leve-a o diabo!

Princípio de Amores com Marília

Um r√°cimo ferral engrinaldado
Com rosas carmesins no seu regaço,
Tinha Mar√≠lia um dia, e o p√©, c’um la√ßo,
De fita verde mar lhe tinha atado.

Eu, de seus magos olhos j√° tocado,
Junto dela cheguei com leve passo,
E furtando-lhe o cacho, dele faço
Néctar que a Jove, igual, nunca foi dado

Em ta√ßa de cristal, co’as mesmas rosas,
E do mesmo list√£o toda enfeitada,
O licor lhe fui p√īr nas m√£os mimosas.

Marília se sorriu, bebeu, corada,
O sagrado elixir e as deleitosas
Prim√≠cias deu d’Amor, por Baco instada.

Os Teus Beijos, Meu Bem, Tuas Carícias

Os teus beijos, meu bem, tuas carícias,
Teus afagos, teus íntimos abraços,
São apertados nós que dás nos laços
Que prendem nossas ditas vitalícias.

Deixa gabar os deuses co’as del√≠cias
Que desfrutam nos seus etéreos Paços,
Que estas, que nós gozamos por espaços
São, Marília, reais, não são fictícias.

Ora na tua ideia um pouco finge,
S’um prazer imortal que n√£o se altera
As faces divinais com rosas tinge:

Se o ch√£o que em teus olhos reverbera,
Se a ternura sem par que a mim te cinge
Durasse um dia, o sol sua luz perdera.

Basta, n√£o Posso Mais, Mundo Enganoso!

Basta, n√£o posso mais, Mundo enganoso!
Findaram para mim teus v√£os prazeres.
Envelheci com eles, que mais queres
Deste escravo anci√£o, fraco e rugoso?

Se o teu carro triunfal puxei, fogoso,
Quando inda forças tinha, nada esperes
Deste caduco mais: quanto fizeres
Para outra vez servir-te, é duvidoso.

Enquanto n√£o pensei, fui encantado:
Bebendo em taças de ouro o teu engano,
Eu fui, por ti, em bruto transformado.

Graças, graças ao santo Desengano,
Que a forma de homem outra vez me h√° dado,
Livrando-me de um m√°gico tirano!

Paraíso

Sala imensa de luz, que o pavimento
Uma esmeralda é só, que tem por tecto
Inteiriça safira, que o Arquitecto
Supremo abobadou, com s√°bio invento.

Trono dum só diamante, em trino assento,
De que é amplo dossel rubim selecto,
Onde se assenta um Deus piedoso e recto,
Sem começo nem fim, tempo ou momento.

Junto ao sidério sólio está Maria,
Sentada numa pérola formosa
E, em torno dela, a excelsa jerarquia.

Toda a celeste corte venturosa
Em perpétuo Te Deum hinos envia,
Ao Trino Rei da Glória luminosa.

Ao Tempo

Levanta o pano, ó tragador das eras,
A cena mostra das fatais desditas,
Pois que no giro das paix√Ķes que incitas
Tragar venturas, vorazmente, esperas.

Do vário mundo que só nutre feras,
Co’a torva dextra lhe desvia as ditas.
Solta das asas as Tenta√ß√Ķes malditas,
Os filhos traga, que indolente geras.

Leva de rojo, c’o decretado gume,
Planos que traças ao profundo Averno.
Acende e apaga da Raz√£o o lume!

√ď Tempo, √≥ Tempo, regedor do Inferno!
Louvem-te as F√ļrias, de quem tens ci√ļme,
Que s√≥ adoro as decis√Ķes do Eterno.

Inverno

Já na quarta estação final da vida
Estou, do triste Inverno rigoroso.
Fustigado do tempo borrascoso,
Co’a saraiva das asas sacudida.

Gelada tenho a fronte encanecida,
O sangue frio, p√°lido e soroso.
Compresso está o físico nervoso
E a m√°quina de todo enfraquecida.

Nesta quadra da f√ļnebre tristeza,
Que alegria terei na sombra escura,
Se enlutada se vê a Natureza?

S√≥, c’os frutos da m√° agricultura,
Vago triste no espaço da incerteza
De que a Morte me dê melhor ventura.

À Discórdia

Pouco importa amarrar com m√£o valente
A Discórdia infernal, com cem cadeias,
Que ela tem subtilezas, tem ideias
De saber desligar-se facilmente.

De que serve lançar limpa semente
Em ch√£o infecto, de ziz√Ęnias feias,
De ervilhacas, lericas, joio, aveias,
Sem os campos limpar primeiramente?

Ninguém, té gora, à ligadura górdia
O nó soube desdar, que o vil Egoísmo
Empata as vazas à geral Concórdia.

N√£o se pode extinguir o Despotismo,
Nem acabar c’o imp√©rio da Disc√≥rdia,
Sem cortar a raiz do Fanatismo.

√Āgua

O líquido delgado e transparente
Com que o barro amassou o Autor sob’rano,
Da insigne construção do corpo humano,
Que temperas do home o fogo ardente!

Quando a chama se ateia em continente
Tu corres a sustar o nosso dano:
Tu desabafo és do mal tirano,
Que ataca o coração, soltando a enchente.

Quando tu pelos poros és filtrada,
√Āgua que o fogo aquece, a calma fica
Da m√°quina acendida, refrescada.

Porém, quando o suor gela na bica,
Quando o frio te torna condensada,
Nossa queda final se verifica.

Aquela que Cantei na Doce Lira

Aquela que cantei na doce lira,
Que j√° do Tempo estragos tem sentido,
Inda veio, com seu garbo fingido,
Tentar meu coração, que em paz respira.

Mas, qual duro rochedo que n√£o vira,
Por mais que o bata o mar enfurecido,
Assim firme fiquei, no meu sentido,
Vendo o cepo enfeitado da Mentira.

Encarei-o com dor, mas sem transporte,
Pois de meus longos anos na carreira
Já do Tempo sofri, também, o corte.

Pensando na minha hora derradeira,
Eu vi só entre nós sentada a Morte,
E ao pé de uma caveira, outra caveira.

Amar sem Possuir é um Tormento

Se a ti, onde Amor leva o pensamento,
Meu triste coração levar pudesse,
Dó terias, cruel, do que padece,
S’inda em teu peito cabe sentimento.

Amar sem possuir é um tormento
Que só quem o suporta é que o conhece.
N√£o o conheces tu, pois te arrefece
Sempre, na ausência, o frio esquecimento.

Tu tens um coração que se persuade
Dever amar só quando se deleita
Na posse do prazer, da sociedade.

O meu segue outra estrada mais direita,
Ama distante, ferem-no a Saudade
O Ci√ļme infernal, a vil Suspeita.

Estio

Saí da Primavera, entrei no Estio
Das fogosas fun√ß√Ķes da mocidade.
Nesta estação louçã da minha idade,
Entreguei-me √†s paix√Ķes, com desvario.

Qual cavalo rinch√£o, solto com cio,
Saltei desenfreado em liberdade:
Fui escravo da cega divindade
Que tem do cego mundo o senhorio.

Largos anos servi t√£o falso Nume;
Consagrei-lhe, servil, os sons da lira
Acesa em labaredas do seu lume.

Em c√Ęmbio de o cantar, deu-me a Mentira,
O engano, a ingratid√£o, o vil ci√ļme:
Que paga de o servir o homem tira!