Passagens sobre Mar

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O Futuro de Portugal

O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
‚ÄĒ O Quinto Imp√©rio. O futuro de Portugal ‚ÄĒ que n√£o calculo, mas sei ‚ÄĒ est√° escrito j√°, para quem saiba l√™-lo, nas trovas do Bandarra, e tamb√©m nas quadras de Nostradamus. Esse futuro √© sermos tudo. Quem, que seja portugu√™s, pode viver a estreiteza de uma s√≥ personalidade, de uma s√≥ na√ß√£o, de uma s√≥ f√©? Que portugu√™s verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza est√©ril do catolicismo, quando fora dele h√° que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? N√£o queiramos que fora de n√≥s fique um √ļnico deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos j√° o Mar: resta que conquistemos o C√©u, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascen√ßa, os europeus que n√£o s√£o europeus porque n√£o s√£o portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade n√£o pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Polite√≠smo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, s√≥ os deuses todos s√£o verdade.

Conheço esse Sentimento

Conheço esse sentimento
que é como a cerejeira
quando est√° carregada de frutos:
excessivo peso para os ramos da alma.

Conheço esse sentimento
que é o da orla da praia
lambida pela espuma da maré:
quando o mar se retira
as conchas s√£o pequenas saudades
que doem no coração da areia.

Conheço esse sentimento
que é o dos cabelos do salgueiro
revoltos pelas m√£os √°geis da tempestade:
na hora quieta do amanhecer
pendem-lhe tristemente os braços
vazios do amado corpo do vento.

Conheço esse sentimento
que passa nos teus olhos e nos meus
quando de m√£os dadas
ouvimos o Requiem de Mozart
ou visitamos a nave de Alcobaça.

Pedro e Inês
a praia e a maré
o salgueiro e o vento
a verdade e o sonho
o amor e a morte
o pó das cerejeiras
tu.
e eu.

Soneto à Rendeira

O linho é uma oração remota, nesse
fluir fabril de fio para a flor.
Move-se o coração da moça, e esquece
o tempo prisioneiro, em derredor

da sombra esguia que à almofada tece.
Move-se, em seu af√£ modelador
de paz, o mito imemorial da prece
que do limbo da morte inventa o amor.

Movem-se dentro dela o sol e o vento.
Move-se o mar, e os pórticos se movem
das √°guas em perp√©tuo movimento…

Move-se a gênese em seu corpo jovem.
E, enquanto o olhar medita, os dedos tecem
gestos de amor que os l√°bios n√£o conhecem.

A justiça cobrirá a terra como a água cobre o mar Eu não quero o sucesso, o sucesso não me diz nada Muitas pessoas tem sucesso mais vivem como mortos

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Entrei pelo mar…

Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem n√£o se esquece
embalado pelas ondas.

Somos para Nós mesmos Objecto de Descontentamento

Se os outros se observassem a si próprios atentamente como eu achar-se-iam, tal como eu, cheios de inanidade e tolice. Não posso livrar-me delas sem me livrar de mim mesmo. Estamos todos impregnados delas, mas os que têm consciência de tal saem-se, tanto quanto eu sei, um pouco melhor.
A ideia e a prática comuns de olhar para outros lados que não para nós mesmos de muito nos tem valido! Somos para nós mesmos objecto de descontentamento: em nós não vemos senão miséria e vaidade. Para não nos desanimar, a natureza muito a propósito nos orientou a visão para o exterior. Avançamos facilmente ao sabor da corrente, mas inverter a nossa marcha contra a corrente, rumo a nós próprios, é um penoso movimento: assim o mar se turva e remoinha quando em refluxo é impelido contra si mesmo.
Cada qual diz: ¬ęOlhai os movimentos do c√©u, olhai para o p√ļblico, olhai para a querela deste homem, para o puso daquele, para o testamento daqueloutro; em suma, olhai sempre para cima ou para baixo, ou para o lado, ou para a frente, ou para tr√°s de v√≥s.¬Ľ
O mandamento que na antiguidade nos preceituava aquele deus de Delfos ia contra esta opini√£o comum: ¬ęOlhai para dentro de v√≥s,

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Génios

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E disse-me: Poeta, ao longe no horizonte
Não vês quase a lamber a abóbada do céu
Brilhante e luminoso um t√ļmido escarc√©u?
Como alvacento le√£o, na r√°pida carreira
Vem sacudindo a juba… A natureza inteira
Cisma, contempla, escuta o c√Ęntico profundo
Em trágico silêncio. O Sol já moribundo
Resvala-lhe no dorso, iria-lho de chamas,
Como dum monstro enorme as f√ļlgidas escamas…
Rugindo enovelada em turbilh√£o insano,
A vaga colossal, rasoira do oceano,

L√° vem rolando grave, e deixa ao caminhar
Um campo atr√°s dum monte, um lago atr√°s dum
[mar!
Qual l√ļcida serpente agora ei-la decresce
Em curva indefinida;‚ÄĒalonga-se… parece
Que a terra há-de estoirar em brancos estilhaços
No círculo fatal dos seus enormes braços.
Como galope infrene! Ei-la que chega!… voa
Num ímpeto feroz, num salto de leoa
Aos rudes alcantis! e em hórrida tormenta
Na rígida tranqueira o vagalhão rebenta,
Bramindo pelo ar: trepa, vacila, nuta,
E ex√Ęnime por fim, vencida nesta luta,
Sem voz, sem força, inerte, exausta, esfarrapada   .
L√° vai… aonde a leve a r√≠spida nortada.

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Grandes Homens Forjam-se a si Próprios

Para conhecer a realidade do mundo, √ļnico fim s√©rio da ci√™ncia, √© preciso entrar no combate da vida como entravam na li√ßa os paladinos bastardos – sem pai e sem padrinho. Os pr√≠ncipes n√£o constituem excep√ß√£o a esta lei geral da forma√ß√£o dos homens. Da educa√ß√£o de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sairam sen√£o doentes e pedantes.
Na sagração dos czares há uma cerimónia de alta significação simbólica: o imperador não se confirma enquanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado sozinho na multidão; e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarcas recebe uma tão sagrada unção como a da santa crisma. Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que s√≥ aos quarenta anos √© que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educa√ß√£o de c√Ęmara come√ßou por fazer um poltr√£o. Aos quinze anos n√£o se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu enfim sobre si mesmo pela sua √ļnica for√ßa pessoal.

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O Somno de Jo√£o

O Jo√£o dorme… (√ď Maria,
Dize √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O Jo√£o seria… um morango!
Podia engulil-o um le√£o
Quando nasce! As pombas s√£o
Um poucochinho maiores…
Mas os astros s√£o menores!

O Jo√£o dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
√ď mar! falla mais baixinho…
E tu, M√£e! e tu, Maria!
Pede √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…

O Jo√£o dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
N√£o acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto √©…

√ď Mae! canta-lhe a can√ß√£o,
Os versos do teu irm√£o:
¬ęNa Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que √© dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.¬Ľ

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… at√© morrer!

E tu vel-o-√°s crescendo
A teu lado (estou-o vendo
Jo√£o!

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que n√£o te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Ser√°s sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilus√£o,
Surdo √†s raz√Ķes do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na g√°vea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Paciência, um Sofrimento Voluntário

Tu és, ó Paciência, um sofrimento
Volunt√°rio, fiel, bem ordenado,
Da conhecida sem raz√£o tirado,
De um constante var√£o nobre ornamento.

Tu, recolhendo n’alma o pensamento,
Suportas com valor o Tempo irado.
Tu sustentas, com √Ęnimo esfor√ßado,
Todo o peso do mal, no bem atento.

Magn√Ęnima tu √©s, tu √©s Const√Ęncia,
Cedro que n√£o derruba a tempestade,
Rocha, onde a f√ļria quebra o mar com √Ęnsia.

Tu triunfas da mesma Adversidade.
Subjugando as paix√Ķes co’a Toler√Ęncia,
Tu vences os ardis da vil Maldade.

A Aeronave

Cindindo a vastid√£o do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

E na esteira sem fim da az√ļlea esfera
Ei-la embalada n’amplid√£o dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.

Voa, se eleva em busca do infinito,
√Č como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.

Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.

A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
fic√°mos n√≥s os dois, parados, de m√£o dada…
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de s√ļbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, √† proa…
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre nossas m√£os, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
n√≥s olhamos, sem ver, a long√≠nqua miragem…
Aonde iremos ter? ‚ÄĒ Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
‚ÄĒ Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

Para Quê?

Ao velho amigo Jo√£o

Para quê ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta ang√ļstia estranha

E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E t√£o profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?

Pra que ser asa quando a gente voa,
De que serve ser c√Ęntico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?

Para quê ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. N√£o h√° d√ļvida, anoitece.
√Č preciso partir, √© preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio s√£o interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem j√° reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas m√£os nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Nas Praças

Nas pra√ßas vindouras ‚ÄĒ talvez as mesmas que as nossas ‚ÄĒ
Que elixires ser√£o apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que j√° s√£o nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solit√°rias de tanta trapeira de falhado,
As id√©ias casuais de tanto casual, as intui√ß√Ķes de tanto ningu√©m ‚ÄĒ
Um dia talvez, em fluido abstrato, e subst√Ęncia implaus√≠vel,
Formem um Deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
N√£o h√° sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que n√£o desvendo,
Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto.

N√£o h√° sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
N√£o seriam montes, n√£o estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

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