Sonetos sobre √Āgua

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Sonetos de água escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Benditas Cadeias!

Quando vou pela Luz arrebatado,
Escravo dos mais puros sentimentos
Levo secretos estremecimentos
Como quem entra em m√°gico Noivado.

Cerca-me o mundo mais transfigurado
Nesses sutis e c√Ęndidos momentos…
Meus olhos, minha boca v√£o sedentos
De luz, todo o meu ser iluminado.

Fico feliz por me sentir escravo
De um Encanto maior entre os Encantos,
Livre, na culpa, do mais leve travo.

De ver minh’alma com tais sonhos, tantos,
E que por fim me purifico e lavo
Na √°gua do mais consolador dos prantos

Fonógrafo

Vai declamando um c√īmico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h√° um odor no ambiente.
A cripta e a p√≥, – do anacr√īnico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L√≠rios, l√≠rios, √°guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext√°tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V√≠vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh√£. Que efl√ļvio de violetas!

Soneto De Intimidade

Nas tardes da fazenda h√° muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a √°gua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ci√ļme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Soneto da Chuva

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha inf√Ęncia, terra que eu pisei:
aqueles versos de √°gua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa √ļltima √≥rbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me s√£o dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu cora√ß√£o, vis√Ķes abandonadas.

Deixem chover as l√°grimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Dói Viver, Nada Sou Que Valha Ser.

Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.

M√°goa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nado do que fui sequer
Ilude, fixa, d√°, faz ou possui.

Assim, noturno, a √°rias indecisas,
O prel√ļdio perdido traz √† mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,

E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
N√£o passa o sonho e a √°gua in√ļtil fica.

O Céu, A Terra, O Vento Sossegado

O c√©u, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem pela areia…
Os peixes, que no mar o sono enfreia…
O nocturno sil√™ncio repousado…

O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a √°gua se meneia,
chorando, o nome amado em v√£o nomeia,
que n√£o pode ser mais que nomeado:

Ondas (dezia), antes que Amor me mate,
torna-me a minha Ninfa, que t√£o cedo
me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

As Minhas M√£os

As minhas m√£os magritas, afiladas,
T√£o brancas como a √°gua da nascente,
Lembram p√°lidas rosas entornadas
Dum regaço de Infanta do Oriente.

M√£os de ninfa, de fada, de vidente,
Pobrezinhas em sedas enroladas,
Virgens mortas em luz amortalhadas
Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.

Magras e brancas… Foram assim feitas…
M√£os de enjeitada porque tu me enjeitas…
T√£o doces que elas s√£o! T√£o a meu gosto!

Pra que as quero eu – Deus! – Pra que as quero eu?!
√ď minhas m√£os, aonde est√° o c√©u?
…Aonde est√£o as linhas do teu rosto?

Heroísmos

Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalh√Ķes, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ru√≠dos dum t√ļmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’√°gua quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

Miritiba

√Č o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na √°gua salobra, a canoada em fila…
Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…
Duas ruas somente… a √°gua tranq√ľila…
Botos no prea-mar… A igreja… A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, n√£o reflito, ou penso.
P√Ķem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha m√£e, pela noite, agita um len√ßo…

Ao vir do sol, a √°gua do mar se alteia.
Range o mastro… Depois… s√≥ me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

Ah! Imiga Cruel, Que Apartamento

Ah! imiga cruel, que apartamento
é este que fazeis da pátria terra?
Quem do paterno ninho vos desterra,
glória dos olhos, bem do pensamento?

Is tentar da fortuna o movimento
e dos ventos cruéis a dura guerra?
Ver brenhas d’√°gua, e o mar feito em serra,
levantado de um vento e d’outro vento?

Mas j√° que vos partis, sem vos partirdes,
para convosco o Céu tanta ventura,
que seja mor que aquela que esperardes.

E só nesta verdade ide segura:
que ficam mais saudades com partirdes,
do que breves desejos de chegardes.

Dos Mais Fermosos Olhos

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:

Dum Angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um esprito peregrino
Se acendeu em mim o fogo, de que indigno
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Não cabe em mim tal bem-aventurança.
√Č pouco uma alma s√≥, pouco uma vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!

Contente a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que n√£o obedece a rogo.

Por Cima Destas √Āguas, Forte E Firme

Por cima destas √°guas, forte e firme,
irei por onde as sortes ordenaram,
pois, por cima de quantas me choraram
aqueles claros olhos, pude vir me.

J√° chegado era o fim de despedir me,
j√° mil impedimentos se acabaram,
quando rios de amor se atravessaram
a me impedir o passo de partir me.

Passei os eu com √Ęnimo obstinado,
com que a morte forçada e gloriosa
faz o vencido j√° desesperado.

Em que figura, ou gesto desusado,
pode j√° fazer medo a morte irosa,
a quem tem a seus pés rendido e atado?

Panteísmo

Ao Botto de Carvalho

Tarde de brasa a arder, sol de ver√£o
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clar√£o
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no ch√£o,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Mar√£o
√Č o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma √© o t√ļmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!

Na Fonte

Bem ao lado da gruta a fonte corre
Trepidamente, as √°guas encrespando,
Em murm√ļrios crebos, levantando
Uns chamalotes prateados — morre

No monte o sol que a luz no oceano escorre
E ainda eu vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que lava, mesmo quando
O sol mais rubro, mais vermelho jorre.

— √Č num s√≠tio afastado, um s√≠tio ermo…
P√°ssaros cortam vastid√Ķes sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

— E a mulher lava, enrubescida a face;
Lava, cantando, como se lavasse
As suas tristes e profundas m√°goas.

XXIV

Sonha em torrentes d’√°gua, o que abrasado
Na sede ardente est√°; sonha em riqueza
Aquele, que no horror de uma pobreza
Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado
De um contínuo delírio esta alma presa,
Quando é tudo rigor, tudo aspereza,
Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia
Do enfermo, do mendigo, se descobre
Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,
Se apesar desta ingrata aleivosia,
Quanto mais rico estou, estou mais pobre.

Anima Mea

√ď minh’alma, √≥ minh’alma, √≥ meu Abrigo,
Meu sol e minha sombra peregrina,
Luz imortal que os mundos ilumina
Do velho Sonho, meu fiel Amigo!

Estrada ideal de S√£o Tiago, antigo
Templo da minha fé casta e divina,
De onde é que vem toda esta mágoa fina
Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

De onde é que vem tanta esperança vaga,
De onde vem tanto anseio que me alaga,
Tanta diluída e sempiterna mágoa?

Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa Transcendência
Que estes olhos me dixam rasos de √°gua?!

√Āguas Da Saudade Para Dirson Costa Que O Musicou

Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.

Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a dist√Ęncia que abriga vaga margem
das √°guas da saudade nos meus passos.

Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, n√£o cantei sua desdita.

Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, ch√£o de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.

Este Livro

Este livro é de mágoas.Desgraçados os
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo…e compreend√™-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
B√≠blia de tristes…√ď Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de M√°goas…Dores…Ansiedades!
Livro de Sombras…N√©voas e Saudades!
Vai pelo mundo…(Trouxe-o no meu seio…)

Irm√£os na Dor, os olhos rasos de √°gua,
Chorai comigo a minha imensa m√°goa,
Lendo o meu livro s√≥ de m√°goas cheio!…

Vênus II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
– Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
– √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

N√£o Canse o Cego Amor de me Guiar

Pois meus olhos n√£o cansam de chorar
Tristezas n√£o cansadas de cansar-me;
Pois n√£o se abranda o fogo em que abrasar-me
P√īde quem eu jamais pude abrandar;

N√£o canse o cego Amor de me guiar
Donde nunca de l√° possa tornar-me;
Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
Enquanto a fraca voz me n√£o deixar.

E se em montes, se em prados, e se em vales
Piedade mora alguma, algum amor
Em feras, plantas, aves, pedras, √°guas;

Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes m√°goas podem curar m√°goas.