Poemas sobre Quartos

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Poemas de quartos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Acendimento

Seria bom sentir no quarto qualquer m√ļsica
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detr√°s das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que n√£o cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
√Č isso que te levo, isso que me d√°s
quando dizes, j√° sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de merc√ļrio trespassa.
Na gravilha passos que n√£o h√°
esmagam a m√ļsica que ningu√©m escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,

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Desastre

Ele ia numa maca, em √Ęnsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma m√£e erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: “Homem n√£o desfale√ßa!”
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

***
Findara honrosamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da prov√≠ncia, at√īnita, exclamava:
“Que provid√™ncias! Deus! L√° vai para o hospital!”

Por onde o morto passa h√° grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que n√£o entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas:
“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

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Mistério

Teu corpo veio a mim. Donde viera?
Que flor? Que fruto? P√©tala indecisa…
Rima suave: Outono ou Primavera?
Teu corpo veio como vem a brisa…

Rosa de Maio, encastoada em luto:
O dos meus olhos e o do meu cabelo.
Um quarto para as onze! E esse minuto
Ai! nunca, nunca mais pude esquecê-lo!

Viu-se, primeiro, o rosto e o ombro, depois.
E a m√£o subiu das ancas para o peito…
‚ÄĒ Quem √©s? Sou teu… (Quando um e um s√£o dois,
Dois podem ser um só cristal perfeito!)

Um quarto para as onze! Caiu neve?
Abri os olhos! Era quase dia…
Ou bater de asas, cada vez mais leve,
De p√°ssaro na sombra que fugia?

Eu Digo do Amor n√£o Mais que a Sombra

Eu digo do amor n√£o mais que a sombra.
Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz
aos dedos que tremem só de aflorar
o que da carne é já incorruptível saber
e crispação sem causa natural.
S√£o nossas inimigas as cortinas
amplas do ver√£o, os fumos e vapores
que esta terra nos devolve, a fria
repercussão do espírito que treme
sobre um tão ausente e despossuído mundo.
Disse-te que voltasses devagar os teus olhos
para o mecanismo simples da eros√£o.
Eu parti h√° muito e neste quarto
apenas aguardo o rel√Ęmpago surdo do teu corpo,
a contenção muda e não menos esplendorosa
da carne recordada e pressentida.
No entanto, deix√°mos escurecer
excessivamente o mundo. Ele acolhe-se
a nós, com terror e evidência,
e nós, em verdade, que podemos dizer?
Eu digo do amor n√£o mais que a sombra,
mas o teu rosto e a luz nada pode conter.

A Mulher Mais Bonita do Mundo

est√°s t√£o bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que est√°s bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o arm√°rio,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde est√° o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

est√°s t√£o bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os l√°bios.

est√°s dentro de algo que est√° dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os l√°bios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

Lugares da Inf√Ęncia

Lugares da inf√Ęncia onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
j√° l√° n√£o est√£o nem l√° estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, p√Ķem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recorda√ß√Ķes.

O quarto eu n√£o o via
porque era ele os meus olhos;
e eu n√£o o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que n√£o me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa j√° n√£o cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
j√° o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

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Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os √°cidos, os gumes
E os √Ęngulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulm√Ķes doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas…

O obst√°culo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, h√° dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

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Poema dum Funcion√°rio Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as m√£os
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcion√°rio apagado
um funcion√°rio triste
a minha alma n√£o acompanha a minha m√£o
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma n√£o dan√ßa com os n√ļmeros tento escond√™-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcion√°rio cansado dum dia exemplar
Porque n√£o me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irm√£o beijo namorada
m√£e estrela m√ļsica

S√£o as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na pris√£o da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

Ah Deixem-me Dormir!

O Poeta

Olá, bom velho! é aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova…
(Como eu estou molhado! √© de chorar…)
O povo

O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
Jezus! que lindo…

Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho somno, quero-me deitar!
√ď velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…
A Sra Julia

S√£o as Janeiras da Lua!
O Coveiro

Os quartos, meu senhor, est√£o tomados
Mas se quizer na valla (que √© de gra√ßa…)
Dormem, alli, somente os desgraçados:
T√™m bom dormir… bom sitio… ninguem passa…
O Zé dos Lodos

A lua é a nossa vacca, ó Maria!
Mugindo…

Ainda lá, hontem, hospedei um moço
E n√£o se queixa… E ha-de poupal-o a tra√ßa,
Porque esses hospedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.
O Dr. Delegado

A noite parece dia!
O Poeta

Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,

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Vocação de Poeta

Recentemente, ao repousar
Sob essa folhagem
Ouvi bater, tiquetaque,
Suavemente, como em compasso.
Aborrecido, fiz uma careta,
Depois, abandonando-me,
Acabei, como um poeta,
Por imitar o mesmo tiquetaque.

Ouvindo assim, upa,
Saltar as sílabas,
Desatei de repente a rir,
Durante um bom quarto de hora.
Tu poeta? Tu poeta?
Estarás assim mal da cabeça?
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

Quem espero eu sob este arbusto?
Quem estarei a espreitar como um ladr√£o?
Uma palavra? Uma imagem?
Logo a minha ruína aparece.
Nada do que rasteja, ou que saltite
Escapa ao impulso dos meus versos,
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

A rima é como uma flecha,
Que temor, que tremor,
Ao penetrar no coração,
Lagarto a contorcer-se!
Morrereis assim, pobres diabos,
Ou ficareis embriagados,
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

Versículos informes que se atropelam,
Pequenas palavras loucas, que efervescência
Até que, linha a linha,

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Carta a Manoel

Manoel, tens raz√£o. Venho tarde. Desculpa.
Mas n√£o foi Anto, n√£o fui eu quem teve a culpa,
Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
A cuja influencia a minha alma n√£o reziste,
Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
V√°! dize aos choupos do Mondego que se callem…
E pede ao vento que n√£o uive e gema tanto:
Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
Mas que me deixe em paz! Ah tu n√£o imaginas
Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
Dos ursos na aula, peor que beatas correrias
De velhas magras, galopando Ave-Marias,
Peor que um diamante a riscar na vidraça!
Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
Tal a menina pelas vesperas da boda,
Atarefada mail-a ama, a arrumar…
O vento afoga o meu espirito n’um mar
Verde, azul, branco, negro, cujos vagalh√Ķes
S√£o todos feitos de luar, recorda√ß√Ķes.
√Ā noite, quando estou, aqui, na minha toca,
O grande evocador do vento evoca, evoca
Nosso ver√£o magnifico, este anno passado,
(E a um canto bate,

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Tabacaria

N√£o sou nada.
Nunca serei nada.
N√£o posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milh√Ķes do mundo que ningu√©m sabe quem √©
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a p√īr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje l√ļcido, como se estivesse para morrer,
E n√£o tivesse mais irmandade com as coisas
Sen√£o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

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Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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O Horror de ser Pobre

Risco c’um tra√ßo
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes n√£o me ver√£o
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem √°gua de banho, solid√£o e tabaco
Nada h√° que exigir.
O desprezo do p√ļblico
Arruina o espinhaço.
O pobre
Nunca est√° sozinho. Est√£o todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. N√£o sabe pra onde h√°-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
N√£o o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro n√£o tem.

Tradução de Paulo Quintela

Largo do Espírito Santo

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.

E moramos num largo… E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também.
(√Čramos dois sonhando e exigindo.)

Da nossa casa o Alentejo é verde.
√Č atirar os olhos: S√£o searas,
s√£o olivais, s√£o hortas… E pensaras
que haviam nossos olhos de ter sede!

E o p√£o da nossa mesa!… E o pucarinho
que nos d√° de beber!… E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois p√°ssaros cantando sobre um ninho…

E o nosso quarto? Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne.

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas.

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Farto de voar

Farto de voar
Pouso as palavras no ch√£o
Entro no mar
Sinto o sal de m√£o em m√£o
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arp√£o
no arp√£o

Levo a dormir
Sonhos que andei para tr√°s
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de rasp√£o
de rasp√£o

Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão

Farto de voar
Pouso as palavras no ch√£o
Entro no mar
Sinto o sal de m√£o em m√£o
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arp√£o
no arp√£o

Autobiografia de um Só Dia

A Maria Dulce e Luiz Tavares

No Engenho Poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim,

veio de l√° para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou n√£o queiram,

os netos tinham de nascer,
no quarto-avós, frente à maré.

Ou porque cheg√°ssemos tarde
(n√£o porque quisesse apressar-me,

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria)

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha m√£e no quarto-dos-santos,

misto de santu√°rio e capela,
lá dormiria, até que para ela,

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam.

Porém em pleno Céu de gesso,
naquela madrugada mesmo,

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela Corte

que nada de um homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita.

Parido no quarto-dos-santos,
sem querer, nasci blasfemando,

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à freirice de lírios,

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácara entre marés, mangues.

Funchal

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos.

Muitos, chegados √† porta, voltam para tr√°s, mas n√£o assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cub√≠culo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atl√Ęntida, pequenas explos√Ķes de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trep√°ssemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansa√ßo. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, n√£o envelhecemos. Mas j√° suport√°mos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que tamb√©m de pouco ou nada serv√≠amos ( por exemplo, quando esper√°vamos na bicha para doar o sangue saud√°vel ‚Äď ele tinha prescrito uma transfus√£o). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se n√£o nos tiv√©ssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos ‚Äď mas eles n√£o nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede,

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Elegia

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste l√°, mettida n’uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma crian√ßa…
Mas, t√£o longe de ti, n’este Payz de Fran√ßa,
Onde mal viste, ent√£o, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Vir√°s tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bord√£o que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-te√£da cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Mar√£o que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o c√©u √© todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: ¬ęV√° seguindo sempre a minha estrella, no Ar!¬Ľ
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que √©s tu a Virgem disfar√ßada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade,

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Veio Tudo de Longe

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, nupcial e magnífica.
Caminho e tenda. O mar. Livros. A indizível
matéria da dor. Ternura
cercada e repartida, pouco
a pouco, à mesa rápida
dos l√°bios, clandestina voz baixa
das m√£os juntas. Sobreviventes
de invernos, d√ļvidas, den√ļncias.
E o teu sorriso honrado. A oferta
duplicada e vulc√Ęnica
dos seios. Esta noite que nos p√īs
à prova. Sobre o vento e o repouso
do vento. E a m√ļsica ainda cheia
de muitos outros quartos. Sim, a import√Ęncia
do teu rosto: alvo claro deste mês
desmedido que nós somos.

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, sagrada e partilhável.

O banho comum gradual e abundante
dos sentidos. As faces que só tenho
entre o convívio doce dos teus dedos
sempre em férias. E a chave
do desejo. Erecta dureza doadora
do óleo e da viagem
aos lugares da origem
e do êxtase. Resposta
da terra contra a terra.

E a surpresa ensina e desvenda
as partes mais antigas da alegria
dupla,

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