Passagens de Ferreira Gullar

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Frases, pensamentos e outras passagens de Ferreira Gullar para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Meu pai foi ao Rio se tratar de um c√Ęncer (que o mataria) mas
perdeu os óculos na viagem.

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.

Como dois e dois s√£o quatro
sei que a vida vale a pena
embora o p√£o seja caro
e a liberdade pequena
Como teus olhos s√£o claros
e a tua pele, morena
como é azul o oceano
e a lagoa, serena

No Corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o ver√£o levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora s√£o apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Aqui me tenho como não me conheço nem me quis, sem começo nem fim. Aqui me tenho sem mim, nada lembro, nem sei.

Prometi-me Possuí-la

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na cat√°strofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da √°gua e do musgo, solit√°ria nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, l√ļcido e demente.
Se por detr√°s da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e √°geis!
Vocabul√°rio e corpo ‚ÄĒ deuses fr√°geis ‚ÄĒ
eu colho a ausência que me queima as mãos.

[Poemas Portugueses]

Neste Leito de Ausência

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solit√°rio:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas √°guas levando, involunt√°rio,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho ‚ÄĒ o prec√°rio no prec√°rio.
Flore um lado de mim? No outro, ao contr√°rio,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

[Poemas Portugueses]

Muito me criticam por ter feito uma reavaliação da arte de vanguarda. Conservadora é a vanguarda, que tem nas mãos todos os prêmios oficiais. A vanguarda ampliou nosso campo de visão, mas chegou ao esgotamento.

N√£o h√° Vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
n√£o cabe no poema.
N√£o cabem no poema o g√°s
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do a√ß√ļcar
do p√£o

O funcion√°rio p√ļblico
n√£o cabe no poema
com seu sal√°rio de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como n√£o cabe no poema
o oper√°rio
que esmerila seu dia de aço
e carv√£o
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
est√° fechado:
“n√£o h√° vagas”

Só cabe no poema
o homem sem est√īmago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
n√£o fede
nem cheira

Somos todos irmãos, não porque dividamos, o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada, sobre nossa cabeça.