Cita√ß√Ķes de Carlos Nejar

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Carlos Nejar para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Idade

Falou e disse um p√°ssaro,
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que cal√°ssemos
e disse amor, pen√ļria, brevidade.
E disse   disse   disse
a idade    da eternidade.

Contra a Esperança

√Č preciso esperar contra a esperan√ßa.
Esperar, amar, criar
contra a esperança
e depois desesperar a esperança
mas esperar,
enquanto um fio de √°gua, um remo,
peixes
existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater a m√°quina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

√Č preciso esperar
por um pouco de vento,
um toque de manh√£s.
E n√£o se espera muito.
Só um curto-circuito
na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
cachorro
a correr sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite em v√£o esconde.

O universo é um telhado
com sua calha t√£o baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

√Č preciso esperar contra a esperan√ßa
e ser a m√£o pousada
no leme de sua lança.

E o peito da esperança
é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
√Č preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança.

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Se Perguntas Onde Fui

Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
N√£o mudei de mudar.

2

O que mudou em mim,
sen√£o andar mudando
sem nunca mais mudar?

Quem mudar√° em mim,
se n√£o sei mudar?

3

Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.

Ent√£o que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível
e √°spero.

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de n√£o mudar.

Gazel da Paciente Espera

Para Regina Célia Colónia

Quanto te esperei
nas portas do dia
e te esperei
quando a terra nascia:
o espírito metáfora
boiava.

E te esperava
mas nenhuma nebulosa
te envolvia e nenhum
peixe era tu e nenhuma
circular √°gua apascentava
esta maternidade.

Te esperava
e o dia voltava
e vinha
e nas portas
o relógio de sinais
rangia.

E te esperava,
ave lua
ovelha de tuas m√£os
a noite.
Te esperava
porque as palavras
as palavras
batem à porta
e se abrem.

E   te   esperarei
a   vida   repleta
e a morte.

Depois na eternidade
recomeço.

Amar é a Mais Alta Constelação

Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas m√£os telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

√Č a mais alta constela√ß√£o.

Nas Altas Torres

Nas altas torres do corpo
todas as horas cantavam.
Eu quis ficar mais um pouco
como se um campo de potros
espantasse a madrugada.

Eu quis ficar mais um pouco
e o teu corpo e o meu tocavam
inquietudes, caminhos,
noites, n√ļmeros, datas.

Nas altas torres do corpo
eu quis ficar mais um pouco
e o silêncio não deixava.
Conjug√°mos m√£os e peitos
no mesmo leito, trançados;
eis que surgiu outro peito,
o do tempo atravessado.

Eu quis ficar mais um pouco
e o teu corpo se iniciava
na liturgia do vento,
lenta e veloz como enxada.
Era a semente batendo,
era a estrela debulhada.

Nas altas torres do corpo,
quis ficar. Amanhecia.
Todos os pombos voavam
das altas torres do corpo.
As horas resplandeciam.

C√Ęntico

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.