Poemas sobre P√°ssaros

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Poemas de pássaros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Poema Explicativo

In√ļteis s√£o os voos. In√ļteis s√£o os p√°ssaros.
Silenciosas sombras tudo extinguem.
Como as vagas de um mar longínquo e frio,
s√£o de in√ļteis palavras estes versos,
pois o calado tempo esmaga tudo.

Moro num rio in√ļtil que caminha
entre margens de musgo e subalternas
pontes e √°guas que reflectem
estrelas, lumin√°rias, desencanto.

Os peixes n√£o obstante j√° n√£o dormem.
S√£o in√ļteis os sonhos e as amarras
que nos prendem ao cais.
E o sangue que nos leva
em artérias eléctricas de desejo.

J√° somos todos poetas ‚ÄĒ e a poesia √© in√ļtil ‚ÄĒ
antepassados simples de um futuro
remoto onde seremos sinais na rocha, apenas.

Germinar√° o trevo entre os alexandrinos
e nenhum p√°ssaro compreender√° o sentido
das p√°ginas dispersas sobre a areia.

Estas palavras nuas se transformar√£o
em pó, em lodo, em traças e raízes.

√Č por Ti que Vivo

Amo o teu t√ļmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu h√°lito de p√°ssaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro n√£o o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofere√ßo-te esta fr√°gil Ô¨āor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

Esta Noite Morrer√°s

Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse hor√°rio de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma,

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Devo-te

Devo-te tanto como um p√°ssaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma p√°lpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas – estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta fr√°gil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta Рó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas m√£os!

Para o Meu Cora√ß√£o…

Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.

√Čs em ti a ilus√£o de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nost√°lgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
p√°ssaros que dormiam na tua alma.

Pequenos Poemas Mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem n√£o sai de sua casa,
n√£o atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implac√°veis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com ind√īmitos √≥dios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade in√ļtil,
in√ļtil e v√£,
riqueza de miser√°veis.

II

Como sempres, h√°-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunir√°, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
√Č prov√°vel, mas desconfiados e inv√°lidos,
Rosnando est√ļpidos, com c√£es.

√ď in√ļteis, aquietai-vos!
Voltai como os c√£es das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto…
Esse des√Ęnimo e essa vaidade…
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela,

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Chegada a Hora o Sonho Ser√° Terra

Chegada a hora o sonho ser√° terra,
o medo dar√° seu √ļltimo vint√©m,
e o passado e o futuro ser√£o guerra
do não-ser sobre terras de ninguém
√Ārvore g√©mea √† que em dor se enterra,
o céu descerá em busca de outro além,
e unidos ambos, corpo e céu, a alma er-
rará distante, mas morta, também.
Será possível mesmo o fim de tudo,
tudo t√£o r√°pido? √ď p√°ssaro ao vento,
ó ave sombria: cantai num templo mudo,
a atroz saudade da alma nunca vista,
passo perdido em negro firmamento,
paisagem morta ‚ÄĒ que a terra conquista!

√Č In√ļtil Querer Parar o Homem

√Č in√ļtil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas m√ļsicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos a√©reos da sem√Ęntica
sob uma indeferida eternidade.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na p√°tria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

√Č in√ļtil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.

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Barganha

Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gib√£o de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fog√£o de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de l√°grima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela sua reflectida
na escurid√£o das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminh√£o de pedra
por um port√£o de peroba.

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Iniciação ao Diálogo

I

De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos s√£o mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.

II

O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, h√£o-de gast√°-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum p√°ssaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma r√©stia de azul ‚ÄĒ o azul de todos.

III

Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus des√≠gnios…
N√£o por√°s terra onde se p√īs o c√©u:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.

IV

Provando fr√°gil o que acreditavas
inexpugn√°vel, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!

V

Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens,

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Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!…
E no entanto h√° Sol a cada canto
e n√£o h√° Mar t√£o lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
‚ÄĒ busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
‚ÄĒ olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

As Amadas Passam como o Vento

Um dia percebemos que as amadas se evaporam
no ar como se nunca tivessem existido.
Sombras de p√°ssaros na √°gua

elas emigram para lugares distantes
ou talvez para alguma estrela
dessas que flamejam nos trapézios do céu.

As amadas passam como o vento
s√£o inconstantes como as brisas que derrubam
as folhas mortas de um pomar.

Semelhantes a esses gatos de pel√ļcia
que nos arranham com seus bigodes de merc√ļrio
e v√£o-se lambuzar no pires de leite.

As amadas, quando v√£o embora,
deixam apenas a memória do perfume
como um punhal cravado em nosso peito.

[Argila Erótica: 8]

O Amor Limitado

Algum homem indigno de ser possuidor
De amor velho ou novo, sendo ele próprio falso ou fraco,
Pensou que a sua dor e vergonha seriam menores
Se a sua ira sobre as mulheres descarregasse.
E ent√£o uma lei nasceu:
Que cada uma um só homem conhecesse.
Mas s√£o assim as outras criaturas?

S√£o o sol, a lua, as estrelas proibidos por lei
De sorrir para onde lhes apetece, ou de esbanjar a sua luz?
Divorciam-se os p√°ssaros, ou s√£o censurados
Se abandonam o seu par, ou dormem fora uma noite?
Os animais n√£o perdem as suas pens√Ķes
Ainda que escolham novos amantes,
Mas nós fizémo-nos piores do que eles.

Quem j√° armou belos navios para ancorar nos portos,
Em vez de buscar novas terras, ou negociar com todos?
Ou construiu belas casas, plantou √°rvores e arbustos,
Apenas para as trancar, ou ent√£o deix√°-los cair?
O Bom não é bom, a não ser
Que mil coisas possua,
Mas arruína-se com a avidez.

Tradução de Helena Barbas

Versos para a Patrícia

1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, n√£o
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

2. Véspera

H√° um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

H√° um rosto
que regressa à fonte
√°gua readormecendo

E só hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

P√°ssaros brancos
v√£o pousando
na varanda dos teus olhos

Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de √°gua

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

Um outro Poema de Amor

No fundo, as rela√ß√Ķes entre mim e ti
cabem na palma da m√£o:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno p√°ssaro,
ou um simples segredo
que guard√°vamos para a noite.

Sete Haicais – um Poema

Este vale canta
– um p√°ssaro fez morada
em sua garganta.

O inverno me achou
lavrando a terra. Havia paz
no canto das p√°s.

Botas de soldado
frente ao mar. ‚Äď Vindes matar
até as gaivotas?

Partes para a guerra.
Sim, nada digas. Ouçamos
o rio de formigas.

A ideia da morte
vem-me ao colo e pede afagos
como um gato (abstracto).

Ah! amigo, amigo
Рalém da morte, que posso
repartir contigo?

Porque tudo j√°
foi dito, destravo a língua
no vazio, aos gritos!

Agora Mesmo

Est√° gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Est√° gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
J√° est√°s diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
N√£o √© vento √Č movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

Nocturno a Duas Vozes

‚ÄĒ Que posso eu fazer
sen√£o beber-te os olhos
enquanto a noite
n√£o cessa de crescer?

‚ÄĒ Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

‚ÄĒ N√£o tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciar√° a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

‚ÄĒ N√£o √© de medo
que tremem os meus l√°bios,
tremo por um fruto de lume
e solid√£o
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

‚ÄĒ V√™ como brilha
a estrela da manh√£,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de √°gua
vem no vento.

‚ÄĒ Tu √©s a √°gua, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

‚ÄĒ Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.

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Teus Olhos

Teus olhos s√£o a p√°tria do rel√Ęmpago e da l√°grima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
p√°ssaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma √°rvore e s√£o p√°ssaros todas as folhas,
praia que a manh√£ encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solit√°ria.

Tradução de Luis Pignatelli

Canto

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim j√° estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas m√£os,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

Cinco vidas, nada menos,
cinco vidas querias ter.
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inef√°vel,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
√Č primavera! sa√≠u-me da boca.
E tu sorriste.
Sorriste, creio.
Primavera e todas as esta√ß√Ķes‚Ķ
Chuva e sol, tempo sem idade.

Aqueles suaves, langues verdes, t√£o cariciosos;
os redondos troncos
e os musgos fofos;
os melros agrestes
e as campainhas roxas daquelas flores da minha inf√Ęncia,
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho…
E as loucas nuvens corredias
e as pedras hier√°ticas
e as veredas am√°veis,
como se os ofereciam!
Amavam-nos,
N√£o o viste?
No passo certo em que ambos íamos
tudo,

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