Poemas sobre Luz

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Poemas de luz escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Voz

√Č t√£o suave ess’hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz j√° se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a m√£o de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
J√° varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,
Com hórrido clamor;
Dos vagalh√Ķes nas ribas
Expira o v√£o furor,

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,

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O Mundo, o Demónio e a Carne

Rel√Ęmpago adormecido
entre a malva e o estalo
tua pen√ļria, √≥ Mundo
√© a minha pen√ļria.
Somos a mesma falta
de olhos a perseguir
a vis√£o que negou
o barro de meu rosto.

Demónio entre o retinir
das esporas e o redondo
dia,
que fizeste da luz
a arder em minha alma?
Sou teu c√ļmplice na m√£o
que apertou o pensamento
em sua nudez.

Carne de minha carne
entre uma pedra e outra
abre-se o trigo
da maldição.
Nossos corpos s√£o nossos
mas o abraço rói
o h√°lito que foi um
antes de existirmos.

Sol do Meu Dia

Se eu fosse nuvem tinha imensa m√°goa
N√£o te servindo de asas maternais
Que te pudessem abrigar da √°gua
Que chovesse das mais!

E sendo eu onda, tinha m√°goa suma
N√£o te podendo a ti, mulher, levar
De praia em praia sobre a alva espuma,
Sem nunca te molhar!

E sendo aragem eu, que pela face
Te roçasse de rijo alguma vez
Que o Senhor com mais for√ßa respirasse…
Que m√°goa imensa… V√™s?

E a luz do teu olhar que me n√£o luza
Um r√°pido momento a mim sequer,
Como a √°guia no ar, que passa e cruza
A terra sem na ver!

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
Um dia aos pés o coração a mim,
As vozes que lhe ouviras, se escutasses,
Era o teu nome… sim;

O teu nome gemido docemente,
Com toda a fé de um mártir em Jesus.
Se acaso j√° em Cristo p√īs um crente
A fé que eu em ti pus!

A fé, mais o amor! Porque ele expira
Sem que a ninguém lhe estale o coração;

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Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
√Čs a dura√ß√£o,
o tempo que amadurece
num instante enorme, di√°fano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Tradução de Luis Pignatelli

Ignoto Deo

D. D. D.

Creio em Ti, Deus; a fé viva
De minha alma a Ti se eleva.
√Čs: – o que √©s n√£o sei. Deriva
Meu ser do Teu: luz… e treva,
Em que – indistintas! – se envolve
Este espírito agitado,
De Ti vem, a Ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o h√°-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que est√° sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és Tu, luz és Tu,
Verdade és Tu só. Não creio
Sen√£o em Ti; o olho nu
Do homem não vê na Terra
Mais que a d√ļvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor – o prazer
Que n√£o fatiga e n√£o gasta…
Só por Ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas v√£s e grosseiras
Sua alma, raz√£o, sentidos,
A Ti se d√£o, em Ti vida,
E por Ti vida têm.

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Com uma Estrela na Voz

Que voz é esta? De onde vem?
Que fantasmas antigos desperta
quando tudo o mais parece
ferido pela imobilidade de um sono de pedra?

Corres agora atr√°s das vozes
acantonadas nas arcas de Dezembro
e o que buscas é uma centelha de riso,
o fugaz cristal de uma l√°grima,
o aconchego de uma carícia
capaz de vergar a noite ao peso
imaterial de um instante de ternura.

√Č s√≥ isso que buscas, nada mais.
E tudo o que buscas
é uma lança que trespassa a morte
tantas vezes anunciada
no mudo sofrimento dos animais.

E se, buscando, é a luz que encontras,
ergue-a ent√£o como um estandarte
na hora de todos os fingimentos
e continua buscando até descobrires
que a voz que persegues e quase te enlouquece
é a tua própria voz soletrando nos portais
os nomes piedosos e límpidos
de quem chega um dia no rasto de uma estrela.

Olhos de Lobas

Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemit√©rio…

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clar√Ķes Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
‚ÄĒ Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

‚ÄĒ Como a Luz que na Noute Misteriosa
‚ÄĒ Fant√°stica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausol√©u!…

‚ÄĒ Mausol√©u, das Saudades do Ideal!…
‚ÄĒ Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
‚ÄĒ Oh mem√≥rias saudosas do Ido ao C√©u!…

‚ÄĒ Oh P√©rpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
‚ÄĒ Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…

Seleccionei para Ti

Seleccionei para ti
esta manh√£ de setembro
à margem dela
trabalho
para que
em canto e glória
sejas o centro unit√°rio
no corpo dessa elegia
relacionei coisas mi√ļdas
que possam complementar
o equilíbrio das formas
que te transitam eleita
na exaltação de meu sonho
e dentro desse equilíbrio
um n√ļcleo de resist√™ncia
feito uma flor
uma fonte
que se iluminam feridas
de uma incidência de luz
o pouso breve de um p√°ssaro
que em vigil√Ęncia
nos olhos
preserva o voo completo
a m√ļsica radical
do teu contexto moreno
a fala que n√£o se escuta
na fundação dos abraços
evocação do momento
que defrontou
por acaso
a minha
e a tua vida
erguido o painel de espaço
és madrugada no dia
e retomada no tempo
és unidade centrada
compondo a mesma harmonia
assim usei tua ausência
num pressuposto de esquema
buscando tua presença
sobre alicerces de um poema

Stella

J√° raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o √ļltimo pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E j√° de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manh√£.

Uma por uma, v√£o
As p√°lidas estrelas,
E v√£o, e v√£o com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o √ļmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Vir√° do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera
Em l√°grimas a pares,

Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma est√° deserta.

A virgem da manh√£
J√° todo o c√©u domina…

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quando a ternura for a √ļnica regra da manh√£

um dia, quando a ternura for a √ļnica regra da manh√£,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
t√£o distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantar√£o p√°ssaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantar√£o p√°ssaros, haver√° flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

Manh√£ de Inverno

Coroada de névoas, surge a aurora
Por detr√°s das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fant√°stica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, l√°grimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras √ļmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o ch√£o recebe o pranto da vi√ļva.

Gelo n√£o cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
V√£o subindo as que encheram todo o vale;
J√° se v√£o descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;

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Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.
Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?…
Aqui, tudo j√° foi… Em sombra estilizada,
A cor morreu – e at√© o ar √© uma ru√≠na…
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina –
Um som opaco me dilui em Rei…

A Nossa Inteligência as Está Vendo

A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca m√ļsculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas di√°fanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.

Acendem-se as Luzes

Acendem-se as luzes
nas ruas da cidade.

Ainda h√° claridade
ao alto das cruzes
da igreja da praça
e para l√° dos telhados
j√° meio esfumados
na mesma cor baça
do casario velho
que recobre a encosta
e mal entremostra
as cores de Botelho,
sobranceiro à massa
fluida e movente
das cordas de gente
por onde perpassa
um ar de alegria
que é do tempo quente
e deste andar contente
que no fim do dia
leva para casa,
a paz das varandas,
o √°lcool das locandas,
tanta vida rasa
minha semelhante.
Solid√£o povoada
que a tarde cansada
suspende um instante
ao acender das luzes.

Em cada olhar uma rosa
de propósito formosa
para que a uses.

Fé

As ora√ß√Ķes dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os c√Ęnticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira b√ļssola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que h√° de abrir √† est√Ęncia eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo d√° e o mesmo tempo some,
Despida j√°, ‚ÄĒ os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos l√°bios,
No cora√ß√£o, na mente p√Ķe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

L√†-bas, Je Ne Sais O√Ļ…

V√©spera de viagem, campainha…
N√£o me sobreavisem estridentemente!
Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do est√īmago,
Antes de p√īr no estribo um p√©
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida in√ļtil, que era melhor deixar, que √© uma cela?
Que importa?
Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.

Sabe-me a n√°usea pr√≥xima o cigarro. O comboio j√° partiu da outra esta√ß√£o…
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que n√£o veio despedir-se de mim,
Minha fam√≠lia abstrata e imposs√≠vel…
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida ‚ÄĒ
“E esta? Ent√£o n√£o houve um tipo que deixou isto aqui?”

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A Ultima Serenada do Diabo

No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortez√£o,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Mil√£o:

……………………………………
……………………………………
……………………………………

√ď flores meigas, √≥ Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
– Os alfinetes dourados!

S√≥ pelo amor quebro lan√ßas! –
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranças
No bra√ßo d’esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!…
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lança que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!
Eu tornaria √°s alturas…
Subindo pelas escadas
Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe
Não conta diques, ó bellas!
Só minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

√ď batalhas amorosas!
– Era d’aventuras cheia!
√ď brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

√ď flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
√ď brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

N√£o me deixeis no abandono
√ď tristes olhos leaes!

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Carta a √āngela

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em l√°grimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

No Lugar dos Pal√°cios Desertos

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos dos sinais
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o v√īo.

Por certo eles foram mais reais e felizes.