Poemas sobre Fruto

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Poemas de fruto escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Tua Boca Adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E h√° um c√£o de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto p√°ssaros de ouro com m√£os de marfim
transplantam as √°rvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As l√°grimas que n√£o chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um len√ßol f√ļnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e n√£o o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

A um Amigo

Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver t√£o singelos,
T√£o simples como eu, n√£o ria:
Qualquer os far√° mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os far√° mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurar√° nelas as linhas do teu rosto?
Quem dar√° o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te por√° como fruto nas √°rvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro esta√ß√Ķes?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Lamentação dos Filhos

Do infinito nascemos
para um termo preciso.
De infindas, as penas,
de vago, o aviso.

Nados mornos, fr√°geis,
de entre dois gemidos.
Quando a morte, a eterna?
Quando o Conhecido?

Que isto j√° nos cansa,
a nós, os malformados,
desde a distante inf√Ęncia
frutos destinados.

Somos os que a vida
fez limite amargo.
De infindas, só as penas,
de vago, o aviso vago.

Mistério

Teu corpo veio a mim. Donde viera?
Que flor? Que fruto? P√©tala indecisa…
Rima suave: Outono ou Primavera?
Teu corpo veio como vem a brisa…

Rosa de Maio, encastoada em luto:
O dos meus olhos e o do meu cabelo.
Um quarto para as onze! E esse minuto
Ai! nunca, nunca mais pude esquecê-lo!

Viu-se, primeiro, o rosto e o ombro, depois.
E a m√£o subiu das ancas para o peito…
‚ÄĒ Quem √©s? Sou teu… (Quando um e um s√£o dois,
Dois podem ser um só cristal perfeito!)

Um quarto para as onze! Caiu neve?
Abri os olhos! Era quase dia…
Ou bater de asas, cada vez mais leve,
De p√°ssaro na sombra que fugia?

Ver√£o

Eu te chamo tumulto
e virei sobre ti
ao fogo dos frutos
na hora em que a polpa da tarde
fende
e pelo campo escorrem farelos de ouro
à luz azul da bruma.

Para ti alço
com a rigidez de um bico,
garras, córneas, penas descendo
em teu tremor,
instante todo de corpo a n√£o ser
mais que carcassa, maré, esvaimento.

E quando, inerte
‚ÄĒ casca ou pele, gretado
o teu querer não for mais que apetência
ou saudade,
o sangue a escorrer ainda
escondendo os talos da grama mais pequena,
há-de permanecer aos olhos que o não vêem
íntimo sinal de união
entre a fêmea e o macho
‚ÄĒ o que penetra
e quanto, deixando penetrar
inaugura.

Eternidade

A minha eternidade neste mundo
Sejam vinte anos só, depois da morte!
O vento, eles passados, que, enfim, corte
A flor que no jardim plantei t√£o fundo.

As minhas cartas leia-as quem quiser!
Torne-se p√ļblico o meu pensamento!
E a terra a que chamei ‚ÄĒ minha mulher ‚ÄĒ
A outros dê seu lábio sumarento!

A outros abra as fontes do prazer
E teça o leito em pétalas e lume!
A outros dê seus frutos a comer
E em cada noite a outros dê perfume!

O globo tem dois pólos: Ontem e hoje.
Dizemos s√≥: ‚ÄĒ Meu pai! ou s√≥:‚ÄĒ Meu filho!
O resto é baile que não deixa trilho.
Rosto sem carne; fixidez que foge.

Venham beijar-me a campa os que me beijam
Agora, frágeis, frívolos e humanos!
Os que me virem, morto, ainda me vejam
Depois da morte, vivo, ainda vinte anos!

Nuvem subindo, anis que se evapora…
Assim um dia passe a minha vida!
Mas, antes, que uma l√°grima sentida
Traga a certeza de que alguém me chora!

Adro!

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Mito

Vir√° o dia em que o jovem deus ser√° um homem,
sem sofrimento, com o morto sorriso do homem
que compreendeu. Também o sol se move longínquo
avermelhando as praias. Vir√° o dia em que o deus
j√° n√£o saber√° onde eram as praias de outrora.

Acorda-se uma manh√£ em que o Ver√£o morreu,
e nos olhos tumultuam ainda esplendores
como ontem e no ouvido os fragores do sol
feito sangue. A cor do mundo mudou.
A montanha já não toca o céu; as nuvens
j√° n√£o se amontoam como frutos; na √°gua
j√° n√£o transparece um seixo. O corpo dum homem
curva-se pensativo onde um deus respirava.

O grande sol acabou, e o cheiro da terra
e a rua livre, colorida de gente
que ignorava a morte. N√£o se morre de Ver√£o.
Se alguém desaparecia, havia o jovem deus
que vivia por todos e ignorava a morte.
Nele a tristeza era uma sombra de nuvens.
O seu passo pasmava a terra.

Agora pesa
o cansaço sobre todos os membros do homem,
sem sofrimento: o calmo cansaço da madrugada
que abre um dia de chuva.

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Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paix√Ķes tardias
S√£o ironias
Dos deuses desleais.

Ornitologia

Chegado o Outono, o conhecimento concentra-se nas asas
dos p√°ssaros que pousam lentos sobre as cores dos frutos.
Sem sentimentos, as aves entregam-se ao sabor do vento
e deixam que no cérebro cresça a febre negra das urzes.
Aquieta-os a experiência que conservam do espaço
e que todas as tardes os inibe de partir para continentes
mais prósperos e seguros. Sustém-os um atavismo
apenas explic√°vel pelo saber dos signos e o seu desejo
colectivo de suicídio. Porque não escolhem antes
perder-se na tempestade? Talvez visto do ar,
aos seus olhos o mundo se torne mais pesado
e o pensamento se confunda, na memória,
com uma paisagem festiva de piras f√ļnebres.
E contudo, apesar do car√°cter cerrado da atmosfera,
o seu peso parece ter-se j√° deixado de sentir
sobre o discurso. Virados para dentro,
as imagens em que se reflectem s√£o
as de um mundo banhado pela pen√ļmbra.
Afogado na sua raz√£o de ser. Medi√ļnico.
Imagine-se agora o caçador a entrar
paisagem dentro para abater as peças
de que se comp√Ķe o cen√°rio uma a uma:
vista de dentro,

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Os Meus Pensamentos s√£o Todos Sensa√ß√Ķes

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos s√£o todos sensa√ß√Ķes.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz√°-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Natal

Mais uma vez, c√° vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as m√£os cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, ‚ÄĒ do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos ‚ÄĒ n√£o uma vez, mas cada ‚ÄĒ
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob esc√°rnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infane.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leil√£o a arrematamos
Como sagrada pe√ßa √ļnica,
Somos os que jogamos,
Para com√©rcio, a tua t√ļnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,

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Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei l√° o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opini√£o tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E n√£o pensar. √Č correr as cortinas
Da minha janela (mas ela n√£o tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O √ļnico mist√©rio √© haver quem pense no mist√©rio.
Quem est√° ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E j√° n√£o pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol n√£o sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

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Requiescat

Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que n√£o vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
N√£o lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez…

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas p√°lidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguid√£o!

Lembras-te? os frutos eram doces…
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu… se minha fosses,
E eu te pudesse amar…

Em v√£o,

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O Amigo

1.

Um amigo, o primeiro amigo
dentro da nuvem de um sonho.

O impossível toca-nos as mãos
subitamente ‚ÄĒ o fogo, a flor conc√™ntrica
de planetas no exílio.

Na terra do silêncio
os frutos caem
de sua própria vontade.

2.

Ao coração das coisas,
ao jugo das cores da memória,
ao pequeno desvio da sombra no deserto,
ao amor que nos alimenta de morte, à morte
que morre connosco
opomos a infinita
constelação
dos nossos sentidos.

Os Semeadores

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os √°speros e amargos
Tempos do semeador?

Rude era o ch√£o; agreste e longo aquele dia;
Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
E a f√©, e as ora√ß√Ķes
Fizeram transformar a terra pobre em rica
E os centos em milh√Ķes.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
O frio, a descalcês,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrê-la, talvez,

Entre b√°rbaras m√£os, como se fora crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
De as levantar ao céu!

√ď Paulos do sert√£o! Que dia e que batalha!
Venceste-a; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!

Este é o Prólogo

Deixaria neste livro
toda minha alma.
Este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que compaix√£o dos livros
que nos enchem as m√£os
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!

Que tristeza t√£o funda
é mirar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!

Ver passar os espectros
de vidas que se apagam,
ver o homem despido
em Pégaso sem asas.

Ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se miram e se abraçam.

Um livro de poemas
é o outono morto:
os versos s√£o as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
‚ÄĒ entranh√°veis dist√Ęncias. ‚ÄĒ

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchadas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza-m√£e
que explica sua grandeza
por meio das palavras.

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Amor

Dentro da noite,
o som escuro de um monjolo
‚ÄĒ pil√£o como n√≥s cham√°vamos ‚ÄĒ
e a azenha mais distante, denunciavam
a clareza do riacho.

A fant√°stica vis√£o do passado,
memória contando histórias!

Da janela fechada
uma frincha de luz ia incidir
no galho pendido, nítido aos meus olhos.
E bem na ponta ‚ÄĒ, seio tentando ‚ÄĒ
a rósea, a serena forma do pêssego
em sua penugem ‚ÄĒ puro e obsceno!
Havia vento, (n√£o sei)
mas devia haver
quando o urubu, tétrico
e hirto no seu desequilíbrio,
pousou sobre a planta
e o fruto bicou,
e o fruto bicou
bem no jacto de luz.

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos ‚ÄĒ se ningu√©m atrai√ßoasse ‚ÄĒ proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
‚ÄĒ Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

A Humana S√ļmula

A Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.

E a paz se alcan√ßa com m√ļtuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece ent√£o a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.

Senta-se depois com temores sagrados,
E de l√°grimas os ch√£os ficam regados;
A raiz da Humildade ali ent√£o se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.

Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
√Č a√≠ que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.

E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e t√£o malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P’la Natureza esta √Ārvore foram procurar;
Mas foi em v√£o esta procura insana,
Esta √Ārvore cresce s√≥ na Mente Humana.

Tradução de Hélio Osvaldo Alves