Cita√ß√Ķes de Manuel Ant√≥nio Pina

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Manuel Ant√≥nio Pina para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Lugares da Inf√Ęncia

Lugares da inf√Ęncia onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
j√° l√° n√£o est√£o nem l√° estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, p√Ķem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recorda√ß√Ķes.

O quarto eu n√£o o via
porque era ele os meus olhos;
e eu n√£o o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que n√£o me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa j√° n√£o cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
j√° o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

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Chico

Talvez n√£o fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte n√£o lhes basta.

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discuss√£o,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu j√° n√£o fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas s√£o coisas √ļteis, andantes,
e n√£o caminhos por andar como dantes.

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manh√£ o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos dem√≥nios da noite e das afli√ß√Ķes do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

A um Homem do Passado

Estes s√£o os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora t√£o fundo,
onde n√£o chegam as afli√ß√Ķes nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo t√£o inevit√°vel como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, j√° n√£o chega fechar os olhos.

N√£o o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
est√°s tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
met√°fora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma inf√Ęncia
inicial n√£o embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas ent√£o
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

O Medo

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

√Č a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de n√£o ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
v√£o ser colocados em lugares mais √ļteis.
Por exemplo, observadores de p√°ssaros
(enquanto os p√°ssaros n√£o
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa reparti√ß√£o p√ļblica.
Um senhor míope atendia devagar
ao balc√£o; eu perguntei: ¬ęQue fez algum
poeta por este senhor?¬Ľ¬†¬†¬† E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
‚ÄĒ Como uma coroa de espinhos:
est√£o todos a ver onde o autor quer chegar? ‚ÄĒ

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

O Lado de Fora

Eu n√£o procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto n√£o reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo n√£o deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas d√ļvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

Aos Filhos

J√° nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes s√£o tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
f√īssemos ao menos infames.

Compr√°mos e n√£o pag√°mos,
falt√°mos a encontros:
nem sequer quando err√°mos
fizemos grande coisa!