Poemas sobre Tarde

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Poemas de tarde escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Poezia do Outomno

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d’agoa… √ď tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
S√£o como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando…
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
E a larangeira, aos repell√Ķes do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae… E, √° falta d’agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, l√° de longe, prega
O seu Serm√£o de Lagrymas, √° Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes…
L√° vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

Nome Para Uma Casa

Ossos enxutos de repente as m√£os
sobre o repousado peito entrelaçadas
como quem adormeceu
à sombra de uma quieta
e morosa √°rvore de copa alargada.
Dos olhos direi que abertos
para dentro me parecem
não os verei mais de agitação ansiosa
e h√ļmido afago brandos no seu ferver
de amor avarento agora tão acalmados também
tão de longe observando incrédulos e astuciosos
a escura gente de roda com ladainhas de
abjuradas m√°goas.

Julgo ouvir a chuva no tépido pinhal
mas pode ser engano
ainda há pouco o vento limpara o céu anoitecido
por entre o sussuro do lamuriado tédio
alguém se aproxima em bicos dos pés
por entre hortências ou dálias
de ambas minha m√£e gostava

as ratazanas heréticas perseguem-se no sótão
como no tempo de n√£o sei quando
os estalidos de madeira seca
no tecto antigo que os bichos mastigam aplicadamente
enquanto as velas agónicas se revezam
uma a uma dançando no sereno rosto que dorme
sem precisar de dormir t√£o perto o rosto e t√£o ausente
t√£o da vida agreste aliviado
as pessoas vão repartindo ais estórias lembranças
v√£o repartindo haveres e contos largos
enquanto no barco do tempo o morto se afasta
solene e majest√°tico mesmo que o medo
o persiga até ao limite das águas.

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h√°-de flutuar uma cidade…

h√°-de flutuar uma cidade no crep√ļsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas √°guas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lent√≠ssimos… sem ningu√©m

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado √† porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solid√£o

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive d√ļvidas que alguma vez me visite a felicidade

L√ļbrica

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da lux√ļria febril na chama intensa…
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da √Āsia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os m√ļsculos herc√ļleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,

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Par√Ęmetro

Uma tarde amarela noroeste
modo nosso de amar lembrando a estrada,
que passa sempre a leste
de urna tarde espantada,

de urna tarde amarela soterrada
numa caixa de pêssegos, madura,
uma janela madura de bandeiras abortas
para o mar, e frias;

encarcerada pelo verdoenga de pêssegos
e a√ß√ļcar cristalizado sobre a polpa
dos verdes apanhados na ch√°cara. Setembro.
Ah, setembro, setembro

essa menina e teus jardins sobre a cabeça
castanha e cacheada, numa tarde amarela
de vapores entrando a barra, de sinos
batendo, que reconheço de outra época,

do espanto de outras torres, de outra tarde espantada,
que amarravas no inverno embora outubro:
esse rapaz que atravessa o corporal de pêssegos
de urna tarde amarela,
como se fincasse a cisma de uma lança
no rosto da palavra genial
e seu ramo de rosas, sua neblina.

Não Sei se Isto é Amor

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos rom√Ęnticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do C√Ęntico dos c√Ęnticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu n√£o demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu n√£o sei se √© amor. Ser√° talvez come√ßo…
Eu n√£o sei que mudan√ßa a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

O Homem que Lê

Eu lia h√° muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas p√°ginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflex√£o
e em redor da minha leitura parava o tempo. ‚ÄĒ
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde… em todas elas.
N√£o olho ainda para fora, mas rasgam-se j√°
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Ent√£o sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. ‚ÄĒ
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que est√° disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos v√£o pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada ser√° estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;

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Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…

C√Ęntico ao Amor

Somos na obra do Mundo
um corpo em carne e desejo
que alimenta de alquimia
o tumulto do vento
que o tempo do teu corpo espalha
ao passar.

√Čs mar,
és rainha
és o sol da tarde confidente
és acácia perfumada
companheira coroada
voz de inquietação
és insónia de seda
nas paredes do meu corpo.
Sulcas a lembrança
batalhas a meu lado
vives comigo às escondidas
mesmo no dia
do meu suicídio.

Recordas-me a tarde
nos Champs Elysées
mas também em Roma, Veneza ou Madrid
minha companheira coroada
minha ac√°cia perfumada
trazes a tarde incendiada trazes
a tarde no teu olhar
lembras a praia
onde nas ondas mergulh√°mos,
vem contigo a madrugada
beijada de carícias,
meus olhos n√£o se cansam
s√£o fruto do teu reino
oh sempre bela
oh sempre rainha,
tua palavra determinante
tuas m√£os determinadas
tua alma vibrante
tua boca de eternidade
minha ac√°cia perfumada
minha coluna rainha
falas comigo baixinho
d√°s-me tua vontade em surdina.

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Contemplo o que n√£o Vejo

Contemplo o que n√£o vejo.
√Č tarde, √© quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est√° parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que h√° e no que penso.
Nem h√° ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
N√£o sinto, n√£o sou triste.
Mas triste é o que estou.

Amor o Quis assim

Agravos de Colopêndio
Pois Amor o quis assi,
que meu mal tanto me dura,
n√£o tardes triste ventura,
que a dor n√£o se doi de mi,
e sem ti n√£o tenho cura.

Foges-me, sabendo certo
que passo perigo marinho,
e sem ti vou t√£o deserto
que, quando cuido que acerto,
vou mais fora de caminho.
Porque tais carreiras sigo,
e com tal dita naci
nesta vida, em que n√£o vivo,
que eu cuido que estou comigo,
e ando fora de mi.

Quando falo, estou calado;
quando estou, entonces ando;
quando ando, estou quedado;
quando durmo, estou acordado;
quando acordo, estou sonhando;
quando chamo, ent√£o respondo;
quando choro, entonces rio;
quando me queimo, hei frio;
quando me mostro, me escondo;
quando espero, desconfio.

N√£o sei se sei o que digo,
que cousa certa n√£o acerto;
se fujo de meu perigo,
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns v√£os cuidados
mil mundos favorecidos,
com que ser√£o descansados;
e eu acho-os todos mudados
em outros mundos perdidos.

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Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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Noivado

Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.

Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o c√°lix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que amor a ler convida;
Da tua solid√£o rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asilo;
Encontrar√°s aqui o amor tranq√ľilo…
Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
L√° do horizonte oposto
A lua, como l√Ęmpada, j√° surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;

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Serenata do Adolescente

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
sen√£o a luz, a luz e a grade.
√ď lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint’anos? ou cinquenta?
Quis l√° saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda ‚ÄĒ ante o teu seio ‚ÄĒ
queimar t√£o pobre mocidade!

Carta a um ¬ęAmor¬Ľ

Recordo, Margarida, as tardes quando
Cata no Mar√£o o Sol de Julho!
Meu ranchinho de rolas rorolando,
Vós éreis meu orgulho.

O ar como um veludo, os ares t√£o macios,
√ď tardes do jardim! √† fonte da √°gua, aos fios,
íamos todos nós era tão alegre bando
Que desde que eu o n√£o sinto
Sou como um corpo extinto,
N√£o sinto ora nem quando.

E estar de vós tão longe
Cá neste meu terreno onde pareço um monge,
Sem uma linha, um verso
Desse Corgo sem par, a boa e madre
Terra como outra assim n√£o haver√°,
Montanhas que no Céu têm aquase o berço!
Escreve, Margarida, ao teu compadre,
V√°!

Quero que diga
Florinda como vai, e vai assim Loreto,
Lindo pajem, que linda em seu veludo preto!
E os mais amorzinhos, rapariga,
Os que tua amizade aí me deu!

Na alma dum poeta, vê-se nela o céu:
E assim
A tudo, Margarida, o que o prendeu
Arrecada-o na vida, e para a morte.
Escreve mal, e daí,

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Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou n√£o seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manh√£ inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haver√° nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte m√°rio ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida

Leitura

Quando por fim as √°rvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
√°vidas de frio:
nimbos e c√ļmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de g√°s sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos cl√°ssicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na p√°lida aleluia
de que fulgor ainda?
e s√£o agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Para Ser Lido Mais Tarde

Um dia
quando j√° n√£o vieres dizer-me Vem
jantar

quando j√° n√£o tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

j√° n√£o vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haver√° talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolher√° talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim ser√° j√° t√£o frio e j√° t√£o tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficar√°
desta hora redonda
em que ninguém repara

Atravessaremos Juntos as Grandes Espirais

Que boca h√° de roer o tempo? Que rosto
H√° de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro h√° de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezezs dirás: vida, vésper, magna-marinha

E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas ag√īnicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente h√° de nascer em ti
E quantas vezes em mim h√° de morrer.

Se a Vida Fosse Sempre Vida

Felizes, cujos corpos sob as √°rvores
Jazem na √ļmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.

Verta Eolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Netuno, em cheias m√£os, ao alto
As ondas estoirando.

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a √°rvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,

N√£o sabe que os seus passos v√£o cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre vida, a glória
De uma beleza eterna.