Poemas sobre Feras

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Poemas de feras escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Três Poemas da Solidão

I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
J√° nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira n√£o d√° flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez s√£o mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, n√£o fujam de mim!
N√£o mordo, n√£o arranho.
Direi:
‚ÄĒ ¬ęPois n√£o! Ora essa! Tem raz√£o¬Ľ.

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como p√°ssaros mudos.

III

Solid√£o.
A multid√£o em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.

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As Profecias

(fragmentos)

I

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi l√° que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi l√° a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

foi l√° que brinquei de longe
e me perdi de mim

II

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso.

Perto estamos
dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos.
Perto estamos
da nocturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras.

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver.
Ouvi, solit√°rias meninas, solit√°rios meninos:
o vento ch√£o que varre os prados
onde somos horizontais,
afinal.

III

Trago a palma na m√£o, aqui estou,

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O Solit√°rio

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua p√°tria;
os dias cheios est√£o sobre as suas mesas
mas para mim a dist√Ęncia √© puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
t√£o desabitado talvez como uma lua;
mas eles n√£o deixam um √ļnico pensamento s√≥,
e todas as suas palavras s√£o habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas ‚ÄĒ:
na sua vasta p√°tria s√£o feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.

Tradução de Maria João Costa Pereira

O Fogo no Canavial

A imagem mais viva do inferno.
Eis o fogo em todos seus vícios:
eis a √≥pera, o √≥dio, o energ√ļmeno,
a voz rouca de fera em cio.

E contagioso, como outrora
foi, e hoje não é mais, o inferno:
ele se catapulta, exporta,
em brulotes de curso aéreo,

em petardos que se disparam
sem pontaria, intransitivos;
mas que queimada a palha dormem,
bêbados, curtindo seu litro.

(O inferno foi fogo de vista,
ou de palha, queimou as saias:
deixou nua a perna da cana,
despiu-a, mas sem deflor√°-la).

Os Amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infind√°veis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as m√°scaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solid√£o transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

A Alvorada do Amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Ad√£o, vendo fechar-se a porta do √Čden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Aben√ß√īo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as l√°grimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indigna√ß√£o…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tuf√£o de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulc√Ķes, encrespa a √°gua dos rios;
As estrelas est√£o cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o c√©u…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o ch√£o; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

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Benção

Quando, por uma lei da vontade suprema,
O Poeta vem a luz d’este mundo insofrido
A desolada mãe, numa crise de blasfêmia,
Pragueja contra Deus, que a escuta comovido:

‚ÄĒ “Antes eu procriasse uma serpe infernal!
Do que ter dado vida a um disforme aleij√£o!
Maldita seja a noite em que o prazer carnal
Fecundou no meu ventre a minha expiação!

J√° que fui a mulher destinada, Senhor,
A tornar infeliz quem a si me ligou,
E n√£o posso atirar ao fogo vingador
O fatal embri√£o que meu sangue gerou.

Vou fazer recair o meu ódio implacável
No monstro que nasceu das tuas maldi√ß√Ķes
E saberei torcer o arbusto miser√°vel
De modo que n√£o vingue um s√≥ dos seus bot√Ķes!”

E sobre Deus cuspindo a sua m√°goa ingente
Ignorando a razão dos desígnios do Eterno,
A tresloucada m√£e condena, inconsciente,
A sua pobre alma às fogueiras do inferno.

Bafeja a luz do sol o fruto malfadado,
Vela pelo inocente um anjo peregrino;
A água que ele bebe é um néctar perfumado,
O pão é um manjar saboroso,

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Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Des√Ęnimo

Que mimos me confortam?
Que doce luz me acena?
Eu tenho muita pena
De ter nascido até!

Quizera antes ao pé
D’uma arvore frondosa
Ter j√° em cima a lousa
E descançar emfim!

Alli, nem tu de mim
De certo te lembravas,
Nem estas feras bravas
Me iriam assaltar!

Alli, teria um ar
Mais puro e respiravel,
E a paz imperturbavel
De quem, emfim, morreu!

D’alli, veria o c√©o
Ora sereno e puro,
Ora toldado e escuro…
Ainda assim melhor,

Que este areal de amor
Onde ando ao desamparo,
Onde a ninguem sou caro
E nem, a mim, ninguem!

Alli pass√°ra eu bem
A noite derradeira
√Ā sombra hospitaleira
Que mais ninguem me d√°!

Tu mesma, que n√£o ha
Quem eu mais queira e ame,
Quem a minha alma inflamme
De mais ardente amor,

Os ais da minha d√īr
A ti o que te importam?
Teus olhos nem supportam
A minha vista ao pé!

Que mimos me confortam?

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Dois Excertos de Odes

(Fins de duas odes, naturalmente)

I

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas r√°pidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as v√°rias √°rvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as √°rvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na dist√Ęncia imprecisa e vagamente perturbadora,
Na dist√Ęncia subitamente imposs√≠vel de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que v√™m ter conosco ao crep√ļsculo, √† janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das m√ļsicas e das vozes longe e perto,

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O que se Passa na Cama

O que se passa na cama
é segredo de quem ama.

√Č segredo de quem ama
n√£o conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e t√£o fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pénis.

Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a c√Ęndida vagina,
dorme a √ļltima sirena
ou a pen√ļltima… O p√©nis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda h√ļmidos de s√©men,
estes segredos de cama.

Fizeram os dias assim

Por mais que larguem os braços
Por mais que soltem amarras
E que se tapem as covas

Por mais que rasguem os quadros
Por mais que queimem as leis
E que os costumes esmoreçam

Por mais que arrasem as feras
E que os pap√Ķes arrefe√ßam
E que as bruxas se convertam

Por mais que riam as caras
E que ternura se esqueça
Por mais que o amor prevaleça
Vocês
Fizeram os dias assim!

N√£o nos venham pedir contas
N√£o venham p√īr-nos regras
Sabemos que os nossos dias
N√£o v√£o ser gastos assim!

Uma Beleza Dificílima

O silêncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as √°rvores
caminham. Mas s√£o as mulheres quem lhes assegura
a eleg√Ęncia do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas s√£o as folhas. Simples.
Lisa a copa.

N√£o h√° rumor na terra.
As feras n√£o nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de √°gua
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.

A Jovem Cativa

(André Chenier)

‚ÄĒ ‚ÄúRespeita a foice a espiga que desponta;
Sem receio ao lagar o tenro p√Ęmpano
Bebe no estio as l√°grimas da aurora;
Jovem e bela também sou; turvada
A hora presente de infort√ļnio e t√©dio
Seja embora: morrer n√£o quero ainda!

De olhos secos o estóico abrace a morte;
Eu choro e espero; ao vendaval que ruge
Curvo e levanto a tímida cabeça.
Se há dias maus, também os há felizes!
Que mel n√£o deixa um travo de desgosto?
Que mar n√£o incha a um temporal desfeito?

Tu, fecunda ilus√£o, vives comigo.
Pesa em v√£o sobre mim c√°rcere escuro,
Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:
Escapa da pris√£o do algoz humano,
Nas campinas do céu, mais venturosa,
Mais viva canta e rompe a filomela.

Deve acaso morrer ? Tranq√ľila durmo,
Tranq√ľila velo; e a fera do remorso
Não me perturba na vigília ou sono;
Terno afago me ri nos olhos todos
Quando apareço, e as frontes abatidas
Quase reanima um desusado j√ļbilo.

Desta bela jornada é longe o termo.

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O Dil√ļvio

H√° muitos dias j√°, h√° j√° bem longas noites
que o estalar dos vulc√Ķes e o atroar das torrentes
ribombam com furor, quais rábidos açoites,
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.

Pradarias, vergéis, hortos, vinhedos, matos,
tudo desapar’ceu ao rude desabar
das constantes, hostis, raivosas cataratas,
que fizeram da Terra um grande e torvo mar.

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
onde homens e le√Ķes b√≥iam agonizantes,
imprecando com f√ļria e ang√ļstia, erguem-se apenas,
quais monstros colossais, as montanhas gigantes.

√Č a√≠ que, ululando, os homens como as feras
refugiar-se v√£o em tr√°gicos cardumes,
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras,
crianças e reptis caminham para os cumes.

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite,
arremessam ao ch√£o pobres velhos cansados.
e as mães largam. cruéis, os filhinhos de leite,
que os que seguem depois pisam, alucinados.

Um sinistro pavor; crescente e sufocante,
desnorteia, asfixia a turba pertinaz:
ouvem-se urros de dor, e os que v√£o adiante
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás.

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Os Treze Anos

(Cantilena)

J√° tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

J√° sou mulherzinha,
j√° trago sombreiro,
j√° bailo ao domingo
com as mais no terreiro.

J√° n√£o sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos ser√Ķes j√° canto,
nas feiras j√° feiro,
j√° n√£o me d√° beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co’as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas √°guas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que s√£o cativeiro.

Em tudo, madrinha,
j√° por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gib√£o largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Br√°s cabaneiro,

dizendo-lhe: ¬ęToma
gib√£o,

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Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Se um Dia a Juventude Voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em p√°ssaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimens√£o nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
n√£o estou triste n√£o tenho projectos nem ambi√ß√Ķes
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das vis√Ķes pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesita√ß√Ķes no leme do fr√°gil barco…

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Verdade e Mentira

Neste livro do mundo
Quase perfeito
Preto e branco irmanados
De igual jeito
Quem n√£o foi a tribunal
Quem teve m√£o
Nos juizes da Santa Inquisição?

Em menino te ensinaram
Mentiras que a morte leva
Para outra morte bem longe
De pensares que outra contr√°ria
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida o Infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
Que na fogueira o lançava
Aquela verdade brilha
A morte à morte diziam
Os que n√£o adivinhavam
Que era verdade a mentira
Até o Mar se acomoda
E paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
Só não mente quem não sente
Que o mistério não tem fundo

Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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