Poemas sobre Café

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Poemas de café escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Resgate

Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.

Tudo isto
– moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.

Nas Praças

Nas pra√ßas vindouras ‚ÄĒ talvez as mesmas que as nossas ‚ÄĒ
Que elixires ser√£o apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que j√° s√£o nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solit√°rias de tanta trapeira de falhado,
As id√©ias casuais de tanto casual, as intui√ß√Ķes de tanto ningu√©m ‚ÄĒ
Um dia talvez, em fluido abstrato, e subst√Ęncia implaus√≠vel,
Formem um Deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
N√£o h√° sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que n√£o desvendo,
Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto.

N√£o h√° sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
N√£o seriam montes, n√£o estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

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Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impress√£o da tarde,
o √ļltimo estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, n√£o conseguimos dizer. √Č
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a n√£o ser que nos fale,
de s√ļbito, o sentido da despedida, e que cada um de n√≥s
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me pe√ßas: ¬ęVem comigo!¬Ľ, e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo,

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Tudo é Belo

Tudo é belo
Mulher e por exemplo uma √°gua quando a gente bebe
ou uma √°gua que a gente joga na cara
e fica deixando a frieza vir penetrando na pele;
a √°gua que escorre da bica e cai no monjolo e o monjolo toca;
a água de um poço na mata.
A água quando a gente bebe é por exemplo como um beijo.

Mulher e por exemplo café, ou estrada quando o trem-de-ferro
atravessa um rio;
um rio que banha terras verdes, longe.

Tudo é belo.
√Ārvore de cedro e por exemplo um homem que est√°
preso injustamente, um homem que tem esperança
e que é mais forte que os risos e sevícias,
quando tentam matar nele a esperança…

Tudo é belo.
A cabeça fatigada de um homem.
As pernas solit√°rias. As m√£os solid√°rias.
O peito largo como um tronco de √°rvore secular.

Tudo é belo.
Mulher e por exemplo, as can√ß√Ķes.
O caminho do nascimento à morte de um homem.

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja m√ļsica.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tip√≥grafo que comp√Ķe bem esta p√°gina, que talvez n√£o lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham raz√£o.
Essas pessoas, que se ignoram, est√£o a salvar o mundo.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Serradura

A minha vida sentou-se
E n√£o h√° quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, l√° est√°,
Estendida, a perna traçada,
No infind√°vel sof√°
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de R√ļssias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha s√≥ pel√ļcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
L√™ o “Matin” de castigo,
E n√£o h√° nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comich√£o que n√£o passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso J√ļlio Dantas –
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio j√° bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
√Č capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim n√£o pode ser…
Mas como achar um remédio?

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Recusa

a Alberto de Serpa

Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a m√£o aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
N√£o falarei de minha poesia.
N√£o rimarei minha ang√ļstia
Com a solenidade de suas quest√Ķes.
A poesia n√£o est√° na discuss√£o.
A poesia n√£o est√° no n√£o estar com este ou com aquele.
A poesia est√° em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a vida renasça.
A poesia está em gritar do alto dos arranha-céus
E das planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo vai acabar
Que o mundo est√° maduro para o sangue
Que o mundo perverso e caótico vai vagar.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo defendendo sua solid√£o
De todos os truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas rendilheiros n√£o perdoar√£o.
Os poetas vaidosos v√£o barafustar
E exigir a expuls√£o imediata
Do √ļltimo vendilh√£o do Templo,
Em nome da religi√£o,
Em nome da estética,
Em nome da dignidade amarfanhada,

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Entrei no café com um rio na algibeira

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no ch√£o,
a vê-lo correr
da imagina√ß√£o…

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um p√°ssaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das √°rvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

Os Poetas

Nunca os vistes
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?

Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nost√°lgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido…

Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
√Č fogo de artif√≠cio.

Por vezes, fecham-lhes as portas
‚ÄĒ √ďdio que a nada se resume ‚ÄĒ
Voltam, depois, a horas mortas,
Sem um queixume.

E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar…

Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!

Alexandrina, Como Era

Minha tia Alexandrina bebia café
meia tigela de manh√£ e meia de tarde
o que dava mais dum litro.
Com esse rio de fogo correndo no seu corpo
punha ela dez filhos fora de casa
e lavava dez sobrados às senhoras da cidade.

E quando voltava para os Biscoitos na camioneta da carreira
deixava-me nos ouvidos a m√ļsica das gargalhadas dadas
e nos olhos os demónios dos seus olhos
pretos, estrelas pequeninas fulgurantes.

N√£o passo pela ilha sem ir aos Biscoitos
não por vê-la, que ela já não está:
(levou-a o Canad√°, a carta de chamada)
mas porque tenho consciência que são esplêndidos
os ramos das vinhas que alastram nos calhaus.

16

Esta inconstancia de mim próprio em vibração
√Č que me ha de transp√īr √†s zonas interm√©dias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular… Soltas as r√©deas,
Meus sonhos, le√Ķes de fogo e pasmo domados a tirar
A t√īrre d’ouro que era o carro da minh’Alma,
Transviar√£o pelo deserto, muribundos de Luar –
E eu s√≥ me lembrarei num baloi√ßar de palma…
Nos o√°sis, depois, h√£o de se abismar gumes,
A atmosfera ha de ser outra, noutros planos:
As r√£s h√£o de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes…

*       *       *

H√° sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos…
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu cora√ß√£o gira: √© uma roda de c√īres…
N√£o sei aonde vou, nem vejo o que persigo…
J√° n√£o √© o meu rastro o rastro d’oiro que ainda sigo…
Resvalo em pontes de gelatina e de bol√īres…
Hoje, a luz para mim √© sempre meia-luz…

. . . . . . . . . . .

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Balada para um Homem na Multid√£o

Este homem que entre a multid√£o
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necess√°rios
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a √°rvore que d√° dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
n√£o tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

Poemas da Inf√Ęncia

Segundo

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, √† tarde, brincar comigo?…
… Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as m√£es se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, n√£o sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
T√£o grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os p√°ssaros quando passam voando.

E desafiava,
sem raz√£o aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada t√£o certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!

Em toda a vila
se falou logo num caso de política;
o Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contr√°rio
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o c√©u…

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

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10

A nuvem anuncia a secura das casas.
Um homem desloca-se devagar,
atravessa uma plantação de café em
silêncio, como as aves da noite. A sua fome
é igual à dos pássaros que reflectem no espelho
uma m√°scara de dor. Quando o homem desperta
dessa travessia apenas encontra um rolo de tabaco
velho e um machado quebrado em cima de uma
mesa. E n√£o volta nunca mais a esse lugar.

Projecto de Sucess√£o

Para o M√°rio Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e n√£o morrer numa rua solit√°ria
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer √Ęngulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discuss√£o,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu j√° n√£o fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas s√£o coisas √ļteis, andantes,
e n√£o caminhos por andar como dantes.

Romance de Dubrovnik

S√£o estas casas de cinza
De cinza petrificada
√Č como se aqui a vida
tivesse jogado às cartas
e só a morte saíra
ganhando em cada jogada
√Č esta rua comprida
mas que se chama Platza
(embora em eslava grafia
se escreva apenas Placa)
e que na Ragusa antiga
j√° dois mundos separava
De um lado terra latina
e do outro terra b√°rbara
S√£o as verdes gelosias
s√£o as muralhas douradas
a segredarem que a vida
se inda quisesse ganhava
√Č agora ao meio-dia
a Porta Pile empilhada
E s√£o cachos de turistas
trepando pelas muralhas
tirando fotografias
contudo n√£o vendo nada
S√£o fileiras de boutiques
São cafés sob as arcadas
√Č tudo a fingir que a vida
n√£o se d√° por derrotada
√Č no porto a maresia
quando mais avança a tarde
incrustada em cada esquina
suspensa de cada iate
Mas das naves bizantinas
é que ela sente saudades
e das galeras esguias
que Veneza lhe enviava
se bem que tal nostalgia
inda hoje a sobressalte
Nenhum sabor tem a vida
se a morte a n√£o acicata
E s√£o argolas vazias
as que há no porto à entrada
e de onde outrora pendiam
correntes sempre de guarda
Quem ali√°s adivinha
as marítimas estradas
que deste porto saíam
que neste nó se cruzavam
Com certeza agora vivem
na tinta azul de outros mapas
Ou permanecem cativas
Ou ficaram bloqueadas
S√£o em redor tantas ilhas
tanta rocha tanta escarpa
tantas flutuantes ravinas
Mas quando a noite se abate
não são mais do que faíscas
no mar de prata lavrada
E j√° a Lua surgia
na sua rica dalm√°tica
Nem mais a preceito vinha
do que no céu da Dalmácia
Ser√° que o fulgor da vida
vem da morte iluminada
Subo ao monte Zarkovica
(Na língua serbo-croata
deve ler-se Djarkovitza)
e à sombra desta latada
bebo um copo de mastika
olho de novo a cidade
√ď mem√≥ria empedernida
de uma divina morada
√ď ferradura de cinza
de algum cavalo com asas
√ď mediterr√Ęnea figa
mais propriamente adri√°tica
que foi feita por Posídon
e no litoral deixada
O que a morte à vida ensina
através dos deuses passa
Mas não é só nas ruínas
que fica a sua pegada