Passagens de Rainer Maria Rilke

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Frases, pensamentos e outras passagens de Rainer Maria Rilke para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Inf√Ęncia

Passa lento o tempo da escola e a sua ang√ļstia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solid√£o, oh perda de tempo t√£o pesada…
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins √© t√£o vasto o mundo ‚ÄĒ.
E atravessar tudo isto em cal√ß√Ķes,
diferente de como os outros v√£o e foram ‚ÄĒ:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solid√£o.

E olhar tudo isto √† dist√Ęncia:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crian√ßas, t√£o diferentes e coloridas ‚ÄĒ;
e ent√£o uma casa, e de vez em quando um c√£o
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infind√°vel abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a m√£o agarrada com for√ßa ‚ÄĒ:
Oh compreens√£o cada vez mais fugaz,
Oh ang√ļstia,

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Recordação

E tu esperas, aguardas a √ļnica coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordin√°rio,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e j√° perdidas.

E ent√£o de s√ļbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti est√£o
ang√ļstia e forma e ora√ß√£o
de certo ano que passou.

Tradução de Maria João Costa Pereira

Excesso de Vol√ļpia

A vol√ļpia carnal √© uma experi√™ncia dos sentidos, an√°loga ao simples olhar ou √† simples sensa√ß√£o com que um belo fruto enche a l√≠ngua. √Č uma grande experi√™ncia sem fim que nos √© dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal n√£o √© que n√≥s a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experi√™ncia, malbaratando-a, fazendo dela um mero est√≠mulo para os momentos cansados da sua exist√™ncia.

O Homem que Lê

Eu lia h√° muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas p√°ginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflex√£o
e em redor da minha leitura parava o tempo. ‚ÄĒ
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde… em todas elas.
N√£o olho ainda para fora, mas rasgam-se j√°
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Ent√£o sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. ‚ÄĒ
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que est√° disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos v√£o pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada ser√° estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;

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Sempre a Amante Ultrapassa o Amado

O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.

Primeiro amor não é nada, surgem, entrega e união com outra pessoa, significa (para o que seria uma união de esclarecidos e inacabados, ainda não ordenada?), é um grande incentivo para o indivíduo amadurecer.

Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse a si próprio de não ser muito bom poeta para extrair suas próprias riquezas.

Vivo a minha vida em círculos cada vez maiores
que se estendem sobre as coisas.
Talvez n√£o possa acabar o √ļltimo,
mas quero tentar.

Os homens, com o aux√≠lio das conven√ß√Ķes, t√™m resolvido tudo com facilidade e pelo lado mais f√°cil da facilidade; mas √© claro que precisamos ater-nos ao dif√≠cil.

Uma √ļnica coisa √© necess√°ria: a solid√£o. A grande solid√£o interior. Ir dentro de si e n√£o encontrar ningu√©m durante horas, √© a isso que √© preciso chegar. Estar s√≥, como a crian√ßa est√° s√≥.

Amar outro ser humano é talvez a tarefa mais difícil que a nós foi confiada, a tarefa definitiva, a prova e o este finais; a obra para a qual todas as outras não passam de mera preparação.

O amor √© a ocasi√£o √ļnica de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. √Č uma alta exig√™ncia, uma ambi√ß√£o sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes.

A Canção do Idiota

N√£o me incomodam. Deixam-me ir.
Dizem que n√£o pode acontecer nada.
Ainda bem.
N√£o pode acontecer nada. Tudo chega e gira
sempre em torno do Espírito Santo,
em torno de determinado esp√≠rito (tu sabes) ‚ÄĒ
que bem.

N√£o, realmente n√£o deve pensar-se que haja
qualquer perigo nisso.
Sim, h√° o sangue.
O sangue é o mais pesado. O sangue é pesado.
Por vezes penso que n√£o posso mais ‚ÄĒ
(Ainda bem.)

Ah, que linda bola;
vermelha e redonda como um Em-toda-a-parte.
Ainda bem que a criastes.
Ela vem quando se chama?

De que estranha maneira tudo se comporta,
apressa-se a juntar-se, separa-se nadando:
amig√°vel, um pouco vago.
Ainda bem.

Tradução de Maria João Costa Pereira

Um ser humano amar a outro talvez seja a mais dif√≠cil das tarefas, a mais importante, o √ļltimo teste e prova, o trabalho para o qual todos os trabalhos s√≥ foram prepara√ß√£o.