Sonetos sobre Graça

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Sonetos de graça escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Penetr√°lia

Falei tanto de amor!… de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No rel√Ęmpago breve com que veio…

O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao p√ļblico recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

N√£o proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava… E ainda hoje, t√≠mido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.

Pois se para os Amar n√£o Foram Feitos

Pois se para os amar n√£o foram feitos,
Senhor, aqueles olhos soberanos,
Porque, por tantos modos, mais que humanos,
Pintando os estivestes t√£o perfeitos?

Se tais palavras e se tais conceitos,
T√£o divinas, t√£o longe de profanos,
N√£o destes por or√°culo aos enganos,
Com que Amor vive nos mais altos peitos,

Porque, Senhor, tanta beleza junta,
Tanta graça e tal ser lhe foi deitado,
Qual ídolo nenhum gozara antigo?

Mas como respondeis a esta pergunta?
Que ou para disculpar o meu pecado,
Ou para eternizar o meu castigo?

Marília De Dirceu

Soneto 1

√Č gentil, √© prendada a minha Alt√©ia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!

Prender as duas com grilh√Ķes estritos
√Č uma a√ß√£o, √≥ deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

Ci√ļme

Encontro em ti tudo o que imaginara
na mulher, para ser o meu ideal;
Рnão é só teu olhar, tua voz clara,
e essa express√£o que tens, sentimental!…

Nem essa graça ingênua, hoje tão rara,
de quem n√£o sabe onde se encontra o mal,
ou teu riso feliz, que se compara
ao tinir de uma ta√ßa de cristal…

√Č tudo em ti, tra√ßo por tra√ßo, tudo!
As tuas m√£os s√£o rendas de ternura;
teus carinhos, macios, de veludo.

Por isso mesmo é que é maior a dor,
quando amargo a mais íntima tortura
por n√£o ter sido o teu primeiro amor…

Amoroso Desdém num Belo Agrado

Amoroso desdém num belo agrado,
No mais duro ferir um doce jeito,
Tirania suave em brando aspeito,
Olhos de fogo em coração nevado,

No vestir um asseio descuidado,
Ingratid√£o am√°vel no respeito,
O brio, a graça, o riso em um sujeito,
Variamente com o grave misturado.

Animado primor da formosura,
Luzido discursar de engenho agudo,
Custosa luz, incêndio pretendido,

Alma no talhe, garbo na postura,
Capricho no cuidado, ar no descuido,
Armas s√£o com que amor me tem rendido.

Deus Do Mal

Espírito do Mal, ó deus perverso
Que tantas almas d√ļbias acalentas,
Veneno tentador na luz disperso
Que a própria luz e a própria sombra tentas.

Símbolo atroz das culpas do Universo,
Espelho fiel das convuls√Ķes violentas
Do gasto coração no lodo imerso
Das tormentas vulc√Ęnicas, sangrentas.

Toda a tua sinistra trajetória
Tem um brilho de lágrima ilusória,
As melodias m√≥rbidas do Inferno…

√Čs Mal, mas sendo Mal √©s solu√ßante,
Sem a graça divina e consolante,
Réprobo estranho do Perdão eterno!

Soneto De Luz E Treva

Ela tem uma graça de pantera
no andar bem comportado de menina
no molejo em que vem sempre se espera
que de repente ela lhe salte em cima

Mas s√ļbito renega a bela e a fera
prendeo cabelo, vai para a cozinha
e de um ovo estrelado na panela
ela com clara e gema faz o dia

Ela é de Capricórnio, eu sou de Libra
eu sou o Oxalá velho, ela é Inhansã
a mim me enerva o ardor com que ela vibra

E que a motiva desde de manh√£.
— Como √© que pode, digo-me com espanto
a luz e a treva se quererem tanto…

Vinho Negro

O vinho negro do imortal pecado
Envenenou nossas humanas veias
Como fascina√ß√Ķes de atras sereias
E um inferno sinistro e perfumado.

O sangue canta, o sol maravilhado
Do nosso corpo, em ondas fartas, cheias.
como que quer rasgar essas cadeias
Em que a carne o retém acorrentado.

E o sangue chama o vinho negro e quente
Do pecado letal, impenitente,
O vinho negro do pecado inquieto.

E tudo nesse vinho mais se apura,
Ganha outra graça, forma e formosura,
Grave beleza d’esplendor secreto.

M√£os

V

√ď M√£os eb√ļrneas, M√£os de claros veios,
Esquisitas tulipas delicadas,
L√Ęnguidas M√£os sutis e abandonadas,
Finas e brancas, no esplendor dos seios.

Mãos etéricas, diáfanas, de enleios,
De efl√ļvios e de gra√ßas perfumadas,
Relíquias imortais de eras sagradas
De amigos templos de relíquias cheios.
M√£os onde vagam todos os segredos,
Onde dos ci√ļmes tenebrosos, tredos,
Circula o sangue apaixonado e forte.

Mãos que eu amei, no féretro medonho
Frias, j√° murchas, na fluidez do Sonho,
Nos mistérios simbólicos da Morte!

Floripes

Fazes lembrar as mouras dos castelos,
As errantes vis√Ķes abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.

Traços ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regi√Ķes sagradas,
Carinhos, beijos, l√°grimas, desvelos.

Um requinte de graça e fantasia
D√°-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o l√Ęnguido abandono…

Desejos vagos, olvidadas queixas
V√£o morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.

Alma Fatigada

Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
Mas repousar um pouco e repousar um tanto,
Os olhos enxugar das convuls√Ķes do pranto,
Enxugar e sentir a ideal serenidade.

A gra√ßa do consolo e da tranq√ľilidade
De um céu de carinhoso e perfumado encanto,
Mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
Sem o tédio senil da vã perpetuidade.

Um sonho lirial d’estrelas desoladas
Onde as almas febris, exaustas, fatigadas
Possam se recordar e repousar tranq√ľilas!

Um descanso de Amor, de celestes miragens,
Onde eu goze outra luz de místicas paisagens
E nunca mais pressinta o remexer de argilas!

Sol E Anarda

O sol ostenta a graça luminosa,
Anarda por luzida se pondera;
o sol é brilhador na quarta esfera,
brilha Anarda na esfera de formosa.

Fomenta o sol a chama calorosa,
Artarda ao peito viva chama altera,
o jasmim, cravo e rosa ao sol se esmera,
cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

O sol à sombra dá belos desmaios,
com os olhos de Anarda a sombra é clara,
pinta maios o sol, Anarda maios.

Mas (desiguais só nisto) se repara
o sol liberal sempre de seus raios,
Anarda de seus raios sempre avara.

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao p√© que no bolero… ao p√© pequeno;
P√© que, al√≠gero e c√©lere, saltita…

Lira do amor, que o amor n√£o mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no √ļltimo treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses l√°bios, enfim, de n√°car vivo,
Virgens dos l√°bios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

Feliz!

Ser de beleza, de melamcolia,
Espírito de graça e de quebranto,
Deus te bendiga o doloroso pranto,
Enxugue as tuas l√°grimas um dia.

Se a tu’alma √© d’estrela e d’harmonia,
Se o que vem dela tem divino encanto,
Deus a proteja no sagrado manto,
No céu, que é o vale azul da Nostalgia.

Deus a proteja na felicidade
Do sonho, do mistério, da saudade,
De c√Ęnticos, de aroma e luz ardente.

E sê feliz e sê feliz subindo,
Subindo, a Perfeição na alma sentindo
Florir e alvorecer libertamente!

Cam√Ķes I

Tu quem és? Sou O século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Pen√ļria, ermo, desgra√ßa.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa obla√ß√£o?… √Č-lhe devida.
Paga?… Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glória apetecida.
N√≥s, que o cantamos?… Volvereis √† morte.
Ele, que √© morto?… Vive a eterna vida.

Vê Minha Vida à Luz da Protecção

Vê minha vida à luz da protecção
que d√°s disposta a dar-se por amor
e quando a mãe te deu à luz com dor
o espírito adensou-se nela então

o mesmo que em espigas pelo ver√£o
a negra fronte bela foi compor
de inverno em voz amarga acusador
a cuja vista as l√°grimas vir√£o

Meu amor em teu corpo se cinzela
e dele os outros seres recebem vida
perante ti criança os que da ferida

sangram exposta ao mundo que flagela
A mim foste mais bálsamo porém
do que as curas bals√Ęmicas que tem.

Tradução de Vasco Graça Moura

Retrato das Mulheres em Todas as Idades

Mulher, de quinze a vinte é fresca rosa;
De vinte, a vinte e cinco √© de exp’rimenta.
De vinte cinco a trinta, a graça aumenta:
Ditoso nesta idade quem a goza!

De trinta a trinta e cinco é mal gostosa
Porém, pode passar, com sal, pimenta,
Mas j√° dos trinta e cinco aos quarenta
Vai-se tornando assaz fastidiosa.

De quarenta e cinco ela é bachareleira,
Fala fanhoso e é já de pouco gabo.
De cinquenta cerrados é santeira!

Aos sessenta este seu retrato acabo:
Menina, moça, velha benzedeira,
Bruxa gogosa, ent√£o, leve-a o diabo!

Como é que a Solidão Hei-de Ir Medindo?

Como é que a solidão hei-de ir medindo?
desse-me os golpes de uso inda esta dor
um a um sua nudez a sobrepor
que o ritmo sem nome a foi vestindo

mas sofro agora o tempo nu saindo
numa levada sem nenhum teor
gasto caudal do meu rio interior
nem chora o peito por mais gritos vindo

Quando é que é novo ano na amargura
quando volto a chegar-me à desventura
que me faz falta em ocos dias vis.

ah quando é que arde escura em cores febris
à testa do ano como a vi na altura
do agosto em chamas funda cicatriz?

Tradução de Vasco Graça Moura

Lembranças Apagadas

Outros, mais do que o meu, finos olfatos,
Sintam aquele aroma estranho e belo
Que tu, √≥ L√≠rio l√Ęnguido, singelo,
Guardaste nos teus íntimos recatos.

Que outros se lembrem dos sutis e exatos
Traços, que hoje não lembro e não revelo
E se recordem, com profundo anelo,
Da tua voz de siderais contatos…

Mas eu, para lembrar mortos encantos,
Rosas murchas de graças e quebrantos,
Linhas, perfil e tanta dor saudosa,

Tanto martírio, tanta mágoa e pena,
Precisaria de uma luz serene,
De uma luz imortal maravilhosa!…

Se Agora n√£o Quereis quem vos Ama

Est√°-se a Primavera trasladando
Em vossa vista deleitosa e honesta;
Nas belas faces, e na boca e testa,
Cecéns, rosas, e cravos debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta,
Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
Se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora n√£o quereis que quem vos ama
Possa colher o fruto destas flores,
Perderão toda a graça os vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
Que semeasse o Amor em vós amores,
Se vossa condição produz abrolhos.