Sonetos sobre Astros

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Sonetos de astros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Em Busca

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver t√£o outro, t√£o mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal ‚ÄĒ o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilus√Ķes perdi o meu rebanho,
N√£o sei do meu amor, sa√ļde n√£o na tenho,
E a vida sem sa√ļde √© um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu cora√ß√£o em busca dos seus rastros…

Aparição

Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Doiravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.

Dos olhos divinais no doce abrigo
N√£o tinha laivos de Paix√Ķes e ci√ļmes:
Domadora do Mal e do perigo
Da montanha da Fe galgara os cumes.

Vestida na alva excelsa dos Profetas
Falou na ideal resignação de Ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.

No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!

Marília De Dirceu

Soneto 1

√Č gentil, √© prendada a minha Alt√©ia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!

Prender as duas com grilh√Ķes estritos
√Č uma a√ß√£o, √≥ deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

Canto De Onipotência

Cloto, √Ātropos, Tifon, Laquesis, Siva…
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordin√°rio Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embri√£o do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fen√īmenos o fim.. .

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruína,
A D√ļvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de s√ļbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro j√° reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sud√°rio, d’onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clar√£o
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma aur√©ola apagada…

Em v√£o! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na g√©lida amplid√£o…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No v√°cuo eterno se esvair√° disperso,
Como o alento final d’um moribundo,
Como o √ļltimo suspiro do Universo.

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Conto de Fadas

Eu trago-te nas m√£os o esquecimento
Das horas m√°s que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos s√£o ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crep√ļsculos da tarde,
O sol que √© d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: ‚ÄúEra uma vez…‚ÄĚ

O Grande Sonho

Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmula do vento
Chorar o teu mistério tenebroso.

Sobe dos astros ao clar√£o radioso,
Aos leves fluidos do luar nevoento,
Às urnas de cristal do firmamento,
√ď velho Sonho amargo e majestoso!

Sobe √†s estrelas r√ļtilas e frias,
Brancas e virginais eucaristias
De onde uma luz de eterna paz escorre.

Nessa Amplid√£o das Amplid√Ķes austeras
Chora o Sonho profundo das Esferas
Que nas azuis Melancolias morre…

Equu (Para O Poeta Rafael Courtoisie)

Nos astros me perdia logo cedo
enquanto a luz vestia-me de noites.
Ent√£o chorava no meu ombro o enredo
grave galope breve com seus coices.

As éguas do destino cospem medos
sabendo-me alaz√£o de muitas foices,
ou pangaré lunar dos meus degredos.
Por isso perseguiam-me nas noites

àquelas mais escuras sem estrelas
nas quais sou presa f√°cil sem que fosse
porque flechando verbos sei contê-las.

Não eram éguas mouras dos desertos
senão potrancas férteis com seus roces
estas que vinham mansas muito perto.

Carta às Estrellas

Ninguem soletra mais vossos mysterios
Grandes letras da Noute! sem cessar…
√ď tecidos de luz! rios ethereos,
Olhos azues que amolleceis o Mar!…

O que fazeis dispersas pelo ar?!…
E ha que tempos ha j√°, fogos siderios,
Que ides assim como uns brand√Ķes funereos
Que levaes o Deus Padre a sepultar?!

Ha que tempos, dizei! – Ha muitos annos?…
E, com tudo, astros santos, deshumanos,
A vossa luz é sempre clara e egual!

Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!…
– Mas, tambem… √≥ crueis! sempre distantes…
Como dos nossos braços o Ideal!

Gomes Leal

Sangra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A pl√ļmbea m√£o
Lhe ergueu ao alto o aflito coração.
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

In√ļteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
√Č a lua al√©m de Deus, √°lgida e ignota.

Sidera√ß√Ķes

Para as Estrelas de cristais gelados
As √Ęnsias e os desejos v√£o subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplid√£o vestindo…

Num cortejo de c√Ęnticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Vis√Ķes levanta…

E as √Ęnsias e os desejos infinitos
V√£o com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…

3A Sombra – Ester

Vem! no teu peito c√°lido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a cl√Ęmide aos ventos – ro√ßagante…
T√ļmido o l√°bio, onde o salt√©rio gira…
√ď musa de Israel! pega da lira…
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas n√£o… brisa da p√°tria al√©m revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir… e parte… e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro…
Linda Ester! teu perfil se esvai… s’escoa…
S√≥ me resta um perfume… um canto… um rastro…

Gloriosa

A Ara√ļjo Figueredo

Pomba! dos céus me dizes que vieste,
Toda c’roada de astros e de rosas,
Mas h√° regi√Ķes mais que essas luminosas.
N√£o, tu n√£o vens da regi√£o celeste

H√° um outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar — maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.

Não, tu não vens das célicas planuras,
Do √Čden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus l√°bios tomba.

Vens de mais longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.

√Č Delicada, Suave, Vaporosa

√Č delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura…
√Č linda e alva como a neve pura,
D√©bil, franzina, divinal, nervosa!…

E d’entre os l√°bios setinais, de rosa
Libram-se p√©rolas de nitente alvura…
E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve complei√ß√£o mimosa!…

Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes,
Bem como um astro majestoso, hel√™nio…

Sente-se n’alma as atra√ß√Ķes potentes
Que só se operam ao fulgor do gênio,
As rubras chispas ideais, ferventes!…

Homo

Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece…

Ningu√©m sabe quem sou… e mais, parece
Que h√° dez mil anos j√°, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece…

Sou um parto da Terra monstruoso;
Do h√ļmus primitivo e tenebroso
Gera√ß√£o casual, sem pai nem m√£e…

Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satan√°s; ‚ÄĒ talvez um filho
Bastardo de Jeov√°; ‚ÄĒ talvez ningu√©m!

No Campo

Tarde. Um arroio canta pela umbrosa
Estrada; as águas límpidas alvejam
Com cristais. Aragem suspirosa
Agita os roseirais que ali vicejam.

No alto, entretanto, os astros rumorejam
Um press√°gio de noute luminosa
E ei-la que assoma – a Louca tenebrosa,
Branca, emergindo às trevas que a negrejam.

Chora a corrente m√ļrmura, e, √† dolente
Unção da noute, as flores também choram
Num chuveiro de pétalas, nitente,

Pendem e caem – os roseirais descoram
E elas bóiam no pranto da corrente
Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.

Crê!

Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente.
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.

Que seja a Crença uma celeste brisa
Inflando as velas dos batéis do Oriente
Do teu Sonho supremo, onipotente,
Que nos astros do céu se cristaliza.

Tua alma e coração fiquem mais graves,
Iluminados por carinhos suaves,
Na do√ßura imortal sorrindo e crendo…

Oh! Crê! Toda a alma humana necessita
De uma Esfera de c√Ęnticos, bendita,
Para andar crendo e para andar gemendo!

Marília De Dirceu

Soneto 6

Quantas vezes Lidora me dizia,
Ao terno peito minha m√£o levando:
– Conjurem-se em meu mal os astros, quando
Achares no meu peito aleivosia!

Ent√£o que n√£o chorasse lhe pedia,
Por firme seu amor acreditando.
Ah! que em movendo os olhos, suspirando,
Ao mais acautelado enganaria!

Um ano assim viveu. Oh! céus, agora
Mostrou que era mulher: a natureza,
Só por não se mudar, a fez traidora.

Não, não darei mais cultos à beleza,
Que depois de faltar à fé Lidora,
Nem creio que nas deusas h√° firmeza.

Em Sonhos

Nos Santos óleos do luar, floria
Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade…
E em toda a etérea, branda claridade
Como que erravam fluidos de harmonia…

As √Āguias imortais da Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir a Imensidade
Onde o clarão de tantos sóis radia.

Do espaço pelos límpidos velinos
Os Astros vieram claros, cristalinos,
Com chamas, vibra√ß√Ķes, do alto, cantando…

Nos santos óleos do luar envolto
Teu corpo era o Astro nas esferas solto,
Mais Sóis e mais Estrelas fecundando!

Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
√Č ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

√Č ter de mil desejos o esplendor
E n√£o saber sequer que se deseja!
√Č ter c√° dentro um astro que flameja,
√Č ter garras e asas de condor!

√Č ter fome, √© ter sede de Infinito!
Por elmo, as manh√£s de oiro e de cetim…
√Č condensar o mundo num s√≥ grito!

E √© amar-te, assim, perdidamente…
√Č seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!