Passagens de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Frases, pensamentos e outras passagens de Sophia de Mello Breyner Andresen para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Estado e Cultura

A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder. E se é evidente que o Estado deve à cultura o apoio que deve à identidade de um povo, esse apoio deve ser equacionado de forma a defender a autonomia e a liberdade da cultura para que nunca a acção do Estado se transforme em dirigismo.

Pirata

Sou o √ļnico homem a bordo do meu barco.
Os outros s√£o monstros que n√£o falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E h√° momentos que s√£o quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu n√£o
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que n√£o tem perd√£o
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros s√£o os t√ļmulos caiados
Onde germina calada a podrid√£o.
Porque os outros se calam mas tu n√£o.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos d√£o sempre dividendo.
Porque os outros s√£o h√°beis mas tu n√£o.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de m√£os dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu n√£o.

Apesar das Ruínas

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilus√£o,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas m√£os ficam vazias.

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos m√°gicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua m√£o me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que n√£o moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a subst√Ęncia do tempo

Aqui

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu ‚ÄĒ eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
N√£o pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Assim o Amor

Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em v√£o busquei eterna luz precisa

Sua Beleza

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como p√°tria do ser

Terror de Te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Data

{à maneira de Eustache Deschamps)

Tempo de solid√£o e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravid√£o

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue n√£o tem rastro
Tempo de ameaça

Revolução

Como casa limpa
Como ch√£o varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como p√°gina em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

ESPERO

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E h√° em todas as coisas o agoiro
De uma fant√°stica vinda.

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
√Č a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do ch√£o
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos ‚ÄĒ se ningu√©m atrai√ßoasse ‚ÄĒ proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
‚ÄĒ Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Os Erros

A confus√£o a fraude os erros cometidos
A transpar√™ncia perdida ‚ÄĒ o grito
Que n√£o conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Dever√° tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem t√£o frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse t√£o direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma t√£o simples claridade sobre a testa
Foram necess√°rias sucessivas gera√ß√Ķes de escravos
De corpo dobrado e grossas m√£os pacientes
Servindo sucessivas gera√ß√Ķes de pr√≠ncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
√Āvidos cru√©is e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solit√°ria exilada sem destino

Os Amigos

Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga –
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha m√£o

P√°tria

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactid√£o
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das t√£o amadas
Palavras sempre ditas com paix√£o
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

РPedra   rio   vento   casa
Pranto   dia   canto   alento
Espaço   raiz   e água
√ď minha p√°tria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo

Com F√ļria e Raiva

Com f√ļria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela p√īs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a √°gua
E tudo emergiu porque ele disse

Com f√ļria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra