Passagens sobre Espelho

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Frases sobre espelho, poemas sobre espelho e outras passagens sobre espelho para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Uma máquina: aquilo que entra determina aquilo que sai. Se passámos o dia a receber notícias de crimes, assassínios à facada, corpos esquartejados, teremos medo à noite, caminharemos receosos pelos cantos. Até o espelho será olhado com desconfiança.

Os saudáveis não se analisam a si próprios, sequer se contemplam no espelho. Só os doentes sabemos algo sobre nós mesmos.

As pessoas assimilam o caráter daqueles com quem convivem. Os filhos tornam-se parecidos com os pais; por isso, os pais devem corrigir a si mesmos, mirando-se nos filhos. Os filhos são espelhos; corrigindo-se os pais, corrigem-se também os filhos.

Diana Prateada, Esclarecia

Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.

Cem mil milh√Ķes de gra√ßas lhe influ√≠a,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.

Eu, vendo-me t√£o cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,

Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que n√£o posso
de dia para vós já ter ventura.

Os Meus Livros

Os meus livros (que n√£o sabem que existo)
S√£o uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em v√£o vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha m√£o c√īncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estar√£o nessas folhas
Que n√£o sabem quem sou, n√£o nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-√£o para sempre.

Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na met√°fora dada
pela inf√Ęncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de raz√£o nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite t√£o quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguir√°.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas Рé sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.

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A nossa memória está nos livros, nas pinturas e nos filmes. Dizia Arturo Ripstein, um realizador mexicano, que os governos deviam ajudar os realizadores não por favor mas por obrigação, porque o cinema é o espelho da vida, não temos outro.

Eu sou o meu pr√≥prio espelho. E vivo de achados e perdidos. √Č o que me salva. Estou metida numa guerra invis√≠vel entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco.

Quem tem a mente alegre não precisa recorrer especialmente ao método de sorrir diante de um espelho. Basta contemplar a própria alegria interior. Assim, finalmente conseguirá ver com os olhos da mente a sua própria imagem plena de luz. Este é o estado espiritual mais elevado.

Agradar a Todos e a Ninguém

Aqueles que procuram agradar andam muito enganados. Para agradar, tornam-se male√°veis e d√ļcteis, apressam-se a corresponder a todos os desejos. E acabam por trair em todas as coisas, para serem como os desejam. Que hei-de eu fazer dessas alforrecas que n√£o t√™m ossos nem forma? Vomito-os e restituo-os √†s suas nebulosas: vinde ver-me quando estiverdes constru√≠dos.
As pr√≥prias mulheres se cansam quando algu√©m, para lhes demonstrar amor, aceita fazer-se eco e espelho, porque ningu√©m tem necessidade da sua pr√≥pria imagem. Mas eu tenho necessidade de ti. Est√°s constru√≠do como fortaleza e eu bem sinto o teu n√ļcleo. Senta-te ali, porque tu existes.
A mulher desposa e torna-se serva daquele que é de um império.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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Escrevo como quem Quer Ser Escrito

escrevo como quem quer ser escrito

uma √°rvore ou uma pena no centro da frase
um espelho branco onde observo a palavra

e dos seus troncos brotam folhas, letras
inunda√ß√Ķes de verde no lago azul do c√©u
que caem, voando, asas de papel

como tu, também eu sussurro
lentas sílabas à leve melancolia que nos abraça

O Prestígio da Poesia

O prest√≠gio da poesia √© menos ela n√£o acabar nunca do que propriamente come√ßar. √Č um in√≠cio perene, nunca uma chegada seja ao que for. E ficamos estendidos nas camas, enfrentando a perturbada imagem da nossa imagem, assim, olhados pelas coisas que olhamos. Aprendemos ent√£o certas ast√ļcias, por exemplo: √© preciso apanhar a ocasional distrac√ß√£o das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consci√™ncia; e apanh√°-las quando fecham as p√°lpebras, um momento, r√°pidas, e rapidamente p√ī-las sob o nosso senhorio, apanhar as coisas durante a sua fortuita distrac√ß√£o, um interregno, um instante obl√≠quo, e enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas. Tamb√©m roub√°mos a cara chamejante aos espelhos, roub√°mos √† noite e ao dia as suas inextric√°veis imagens, roub√°mos a vida pr√≥pria √† vida geral, e fomos conduzidos por esse roubo a um equ√≠voco: a condena√ß√£o ou condana√ß√£o de inquilinos da irrealidade absoluta. O que excede a insolv√™ncia biogr√°fica: com os nomes, as coisas, os s√≠tios, as horas, a medida pequena de como se respira, a morte que se n√£o refuta com nenhum verbo, nenhum argumento, nenhum latroc√≠nio.
Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.

Coração Solitário

A noite esta fechada na janela aberta.
Uma rua perdeu-se na sombra l√° embaixo.
Não existe esta rua Рé um beco surrealista
que fugiu de algum quadro louco que n√£o vi.

Ouço meu coração ardente e solitário
com sua m√ļsica estranha de piano b√™bado.
No espelho, meu olhar: duas chamas de estrelas.
N√£o sei se √© o vento, sei que h√° m√ļsica na noite.

H√° m√ļsica no quarto, nas cortinas, m√ļsica
nos meus cabelos despenteados, nos meus dedos,
no meu rosto, entra e sai pela janela.

M√ļsica indefinida a encher a solid√£o:
– estou no ventre da noite a mexer com os meus sonhos
ouço o meu coração ardente e solitário.

√öltimas Vontades

Na branca praia, hoje deserta e fria,
De que se gosta mais do que de gente,
Na branca praia, onde te vi um dia
Para sonhar, j√° tarde, eternamente,

Achei (ia jurá-lo!) à nossa espera,
Intacto o rasto dos antigos passos,
Aquela praia, inamovível, era
Espelho de pés leves, depois lassos!

E doravante, imploro, em testamento,
Que, nesta areia, a espuma seja a tiara
Do meu cad√°ver, preso ao teu e ao vento…

‚ÄĒ Vaiv√©m sexual, que o mar lega aos defuntos? ‚ÄĒ
Se em vida, agora, tudo nos separa
√ď meu amor, apodre√ßamos juntos!

Tenho um Corpo a Sentir o que é de Todos

Tenho um corpo a sentir o que é de todos,
um espelho aonde n√£o aparece tudo; nem a m√£o que
vai ao sonho tornando menor o ultraje da criança
dividida com fantasmas de adultos. Ali, só permanece
a soma dos noivos deitados sobre a própria imagem.

E subentende-se o espanto da alma que n√£o imita
nada do homem. Ficam as medidas do corte por baixo
dos pontos, pois em cada parte do mundo te junto,
crio o que sou na morte adiantando
esse modelo in√ļtil que est√° no ber√ßo.

E ele embalança por nada. Não sente o que está
dentro e não começa nunca antes da saudade: esse nó
que damos em nós mesmos depois de passado o tempo.

√Č In√ļtil Querer Parar o Homem

√Č in√ļtil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas m√ļsicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos a√©reos da sem√Ęntica
sob uma indeferida eternidade.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na p√°tria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

√Č in√ļtil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.

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Iniciação ao Diálogo

I

De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos s√£o mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.

II

O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, h√£o-de gast√°-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum p√°ssaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma r√©stia de azul ‚ÄĒ o azul de todos.

III

Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus des√≠gnios…
N√£o por√°s terra onde se p√īs o c√©u:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.

IV

Provando fr√°gil o que acreditavas
inexpugn√°vel, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!

V

Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens,

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