Cita√ß√Ķes sobre Adivinhos

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Frases sobre adivinhos, poemas sobre adivinhos e outras cita√ß√Ķes sobre adivinhos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Que me Mata é o Quotidiano

Dor? Alegria? S√≥ √© simplesmente quest√£o de opini√£o. Eu adivinho coisas que n√£o t√™m nome e que talvez nunca ter√£o. √Č. Eu sinto o que me ser√° sempre inacess√≠vel. √Č. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber n√£o tem sin√≥nimo no mundo da fala mas enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei fal√°-la. E saber-tudo-sem saber √© um perp√©tuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avan√ßam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida √© expulsar-me de mim. Civilizar minha exist√™ncia a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso no entanto n√£o fala de meu poss√≠vel significado.
O que me mata √© o quotidiano. Eu queria s√≥ excep√ß√Ķes. Estou perdida: eu n√£o tenho h√°bitos.

A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Técnicas de Narrador

Os que me conheceram aos quatro anos dizem que era pálido e ensimesmado e que só falava para contar disparates, mas os meus relatos eram em grande parte episódios simples da vida diária, que eu tornava mais atraentes com pormenores fantásticos para que os adultos me prestassem atenção. A minha melhor fonte de inspiração eram as conversas que os mais velhos mantinham diante de mim, porque pensavam que não as entendia, ou as que cifravam de propósito para que não as entendesse. E, de facto, acontecia o contrário: absorvia-as como uma esponja, desmontava-as em peças, alterava-as para escamotear a origem, e quando as contava aos mesmos que as tinham contado ficavam perplexos pelas coincidências entre o que eu dizia e o que eles pensavam.

Às vezes não sabia o que fazer com a minha consciência e procurava dissimular com um rápido pestanejar. Tanto era assim que algum racionalista da família decidiu que eu fosse observado por um médico da vista, que atribuiu o meu pestanejar a uma infecção das amígdalas e me receitou um xarope de rábano iodado que me fez muito bem para aliviar os adultos. A avó, por seu lado, chegou à conclusão providencial de que o neto era adivinho.

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A guerra, disse o adivinho, é uma espécie de serpente que matamos sem pisar a cabeça. Um pequeno descuido e eis que ela ressurge no escondido do capinzal.

Genérico

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos
das l√°grimas quebrando
um a um na boca triste mas
por dentro, para que digamos
mais tarde, sem invenção escusada:
o pai n√£o chorou.

Eu soube das tuas f√ļrias
mordendo-se em silêncio,
ou de como te p√Ķes
às vezes tão de cinza.
O barco, o barco. Ficaremos
ainda estes minutos quantos.
Do que quiseres. E como quiseres.
Fala. Mas nada de telegramas
para depois da barra
– posso n√£o os abrir,
juro que posso.
Se eu fosse um amigo, se estivesses
em frente dum copo.
Custava menos. Assim
deslizas a unha
pelo tecido da farda, in√ļtil
dedo terno com os olhos longe.
O pai, que n√£o chorou, tremia
de modo imperceptível.

Lembro-me da bebedeira
em Alpedrinha, na estalagem,
com o Luís Melo
subitamente velho.
¬ęTramados, p√°, tramados.¬Ľ
O carro falha, s√£o as velas
os platinados sujos
¬ęa puta que os pariu¬Ľ (Lu√≠s).

Um √ļltimo aceno s√≥ vinho
para estas adolescentes
ao balc√£o do bar e depois e depois?

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A Louca

A Dias Paredes

Quando ela passa: – a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sud√°rio de m√°goa sepultada.

Eu sei a sua história. РEm seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
– O segredo d’um peito torturado –

E hoje, para guardar a m√°goa oculta,
Canta, soluça Рcoração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

Aprender de Cor quem Amamos

Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida.
Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazen√°-las para o dia em que nos fizerem falta. S√£o pobres as maneiras que temos para o fazer, √© t√£o fraca a mem√≥ria, que todo o esfor√ßo √© pouco. Guard√°-las √© t√£o dif√≠cil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar √† frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, fa√ßo de conta que ela morreu, mas voltou mais um √ļnico dia, para me dar uma √ļltima oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que n√£o vi; uma √ļltima oportunidade de a resguardar e de a reter. Funciona.

Amor, se te Repito

Amor, se te repito, se te clamo
se te exijo e te cravo em mim, se espero
sabendo que n√£o vens, e se te gero
em cada instante meu, e se te amo,

amor, se te reservo o que mais quero,
se te acredito exacto e te reclamo,
se te adivinho e sonho e te proclamo
Deus, coração e pátria, o que venero.

Amor, se te situo necess√°rio,
se me unifico em ti, eu que fui v√°rio
e fraco para todas as batalhas,

em nome de que glória irei firmado
a conquistar-te, amor, se nem me é dado
pedir no instante extremo que me valhas?

O Amor em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso l√ļbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o p√£o for invadido pelas ondas –
seu corpo arder√° mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arder√° para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bord√Ķes da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze,

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Uma Direc√ß√£o, e N√£o Solu√ß√Ķes

A diferen√ßa entre solu√ß√£o e direc√ß√£o √© esta: a solu√ß√£o √© sempre um rem√©dio passageiro para disfar√ßar a desgra√ßa. Ao passo que a direc√ß√£o √© a pr√≥pria dignidade posta nas m√£os do desgra√ßado para que deixe de o ser, e a direc√ß√£o √ļnica √© a garantia perp√©tua dessa dignidade. E foi o que fez Goethe: Descobriu a direc√ß√£o √ļnica. Artista, na verdadeira acep√ß√£o da palavra; Artista √© aquele que precede a pr√≥pria ci√™ncia. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealiz√°veis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impass√≠vel, desde cima, assistiu ao desenrolar da trag√©dia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabe√ßas, e viu a Europa toda e com cada um dos seus peda√ßos, e viu cada indiv√≠duo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na par√°bola da sua pr√≥pria traject√≥ria, e viu que de todos os seres deste mundo o √ļnico que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! E viu que era na Humanidade que estavam os √ļnicos seres deste mundo que n√£o cumpriam com o seu pr√≥prio destino, e finalmente viu! Viu com os seus pr√≥prios olhos o que ningu√©m tinha visto antes dele.

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Amo-te Por Todas as Raz√Ķes e Mais Uma

Por todas as raz√Ķes e mais uma. Esta √© a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que raz√£o te amo. Porque nunca existe apenas uma raz√£o para amar algu√©m. Porque n√£o pode haver nem h√° s√≥ uma raz√£o para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te √© uma aventura. Amo-te porque sim mas tamb√©m porque n√£o e, quem sabe, porque talvez. E por todas as raz√Ķes que sei e pelas que n√£o sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conhe√ßo e porque me conhe√ßo. E porque te adivinho. Estas s√£o todas as raz√Ķes.
Mas h√° mais uma: porque n√£o pode existir outra como tu.

Valem Mais as Vidas do que os Livros

Defende Cleantes a opini√£o de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos p√īr o seu car√°cter, a honestidade e a firmeza, a independ√™ncia e a lisura do seu procedimento. Se de pol√≠tica tratamos, Cleantes, que, por defini√ß√£o, √© honesto, sentir-se-√° muito bem representado ou muito bem governado n√£o por aquele que, incluindo nos seus programas de elei√ß√£o ou nas suas declara√ß√Ķes ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a ra√ßa infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha min√ļscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um est√° no partido contr√°rio ao nosso mas √© um honesto, seguro cidad√£o, e o outro se proclama correligion√°rio, mas nos deixa d√ļvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ningu√©m deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que d√° garantias de uma fiscaliza√ß√£o s√©ria dos neg√≥cios e n√£o deixar√° que se maltrate a Justi√ßa. Sobretudo se formos moralistas, isto √©, se acreditarmos que o mundo se salvar√° pela moral; e, como cumpre a moralistas,

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Dor

H√° de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E and√°-la-√°s sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras
disse-me um dia um p√°lido adivinho.

“No entanto, sempre h√°s de cantar venturas
que jamais encontraste… O teu caminho,
dirás que é cheio de alegrias puras,
de horas boas, de beijos, de carinho…”

E assim tem sido… Escondo os meus lamentos:
√Č meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas l√°grimas no rosto!

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos m√°gicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua m√£o me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que n√£o moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

√Čs como o Ar que Respiro

Qual √© a for√ßa extraordin√°ria que possuis? ‚ÄĒ pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou tr√™s princ√≠pios crist√£os inabal√°veis ‚ÄĒ e por tr√°s milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os p√°ssaros aquecem o ninho. Sua vida d√° luz, para alumiar os outros. Foi assim com t√£o pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com sil√™ncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos √°geis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres t√™em cumprido a vida em sil√™ncio, aceitando-a sem exageros. Nas m√£os das mulheres at√© as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o p√£o, lan√ßar a teia ‚ÄĒ assumem um car√°cter sagrado. Elas passam desconhecidas e disp√Ķem dum poder extraordin√°rio. Mant√™em a vida ordenada com um sorriso t√≠mido. A mulher est√° mais perto que n√≥s da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que h√° de puro em mim a ti o devo.

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