Textos sobre Unidades

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Textos de unidades escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

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Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca d√™s ouvidos √†queles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspira√ß√Ķes. Tu bem sabes qual √© a tua voca√ß√£o, pois a sentes exercer press√£o sobre ti. E, se a atrai√ßoas, √© a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se far√° lentamente, pois ela √© nascimento de √°rvore e n√£o descoberta de uma f√≥rmula. O tempo √© que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha dif√≠cil. Porque o ser novo, que √© unidade libertada no meio da confus√£o das coisas, n√£o se te imp√Ķe como a solu√ß√£o de um enigma, mas como um apaziguamento dos lit√≠gios e uma cura dos ferimentos. E s√≥ vir√°s a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu t√£o √ļtil ao homem como o sil√™ncio e a lentid√£o. Por isso os tenho honrado sempe como deuses por demais esquecidos.

Ao Lado do Ofício de Mandar Deve Andar o de Sugerir

Ningu√©m pode mandar s√≥, se houver de mandar como conv√©m. Ao lado do of√≠cio de mandar, deve andar sempre o of√≠cio de sugerir, ou como companheiro, ou como instrumento insepar√°vel. A obriga√ß√£o e exerc√≠cio deste segundo e t√£o importante of√≠cio, √© o que significa a mesma palavra sugerir; que vem a ser, lembrar, advertir, inspirar, aconselhar, conferir, persuadir, despertar, instar. Os talentos que para o mesmo of√≠cio se requerem, s√£o maiores e mais relevantes: grande entendimento, grande compreens√£o, grande ju√≠zo, grande conselho, grande zelo, grande fidelidade, grande vigil√Ęncia, grande cuidado, grande valor. As disposi√ß√Ķes e os meios com que se exercita, ainda s√£o de mais altas e mais interiores prerrogativas: suma comunica√ß√£o, suma confian√ßa, √≠ntima amizade, √≠ntima familiaridade, √≠ntimo amor; e n√£o s√≥ perfeita uni√£o, sen√£o ainda unidade. De sorte que os dous sujeitos em que concorrerem estes dous of√≠cios, de tal maneira h√£o-de ser dous, que verdadeiramente sejam um: de tal maneira h√£o-de ser diversos, que verdadeiramente sejam o mesmo. H√°-se de multiplicar neles o n√ļmero, mas n√£o se h√°-de dividir a unidade.

O Papel do Desporto

Quem duvida que o desporto é uma janela importantíssima para a propagação do jogo limpo e da justiça? No fim de contas, o jogo limpo é um valor essencial no desporto!
(…) A reconstru√ß√£o e a reconcilia√ß√£o, a constru√ß√£o nacional e o desenvolvimento, devem andar de m√£os dadas. Neste processo, o desporto √© uma grande for√ßa de unidade e reconcilia√ß√£o.
(…) Embora vivamos num mundo em que o bem que existe nas pessoas geralmente impera, √© triste que tamb√©m existam os que exploram a magnanimidade e a honestidade. Temos, pois, de afirmar e celebrar constantemente as boas ac√ß√Ķes e as virtudes sociais. Neste contexto, o desporto desempenha hoje um papel preeminente na apresenta√ß√£o do que √© bom e na exemplifica√ß√£o do que √© saud√°vel.

Absurdo, Liberdade e Projecto

Uma vez admitidos dois factos: que o devir n√£o tem fim e que n√£o √© dirigido por qualquer grande unidade na qual o indiv√≠duo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta s√≥ uma escapat√≥ria poss√≠vel: condenar todo esse mundo do devir como ilus√≥rio e inventar um mundo situado no al√©m, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo n√£o √© sen√£o constru√≠do sobre as suas pr√≥prias necessidades psicol√≥gicas e que ele n√£o √© de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a √ļltima forma do niilismo, que implica a nega√ß√£o do mundo metaf√≠sico e que a si mesma se pro√≠be de crer num mundo verdadeiro. Alcan√ßado este estado, reconhecemos que a realidade do devir √© a √ļnica realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam √† cren√ßa em outros mundos e em falsos deuses – mas n√£o suportamos este mundo que n√£o temos j√° a vontade de negar.
(…) Que se passou portanto? Cheg√°mos ao sentimento do n√£o valor da exist√™ncia quando compreendemos que ela n√£o pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade.

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Um Vento de Ambi√ß√Ķes Econ√≥micas em Todos os Graus

Elementos subversivos fermentam, de mistura com interesses econ√≥micos √† vista, em povos n√£o preparados para a emancipa√ß√£o, que √© hoje a f√≥rmula aliciante das novas servid√Ķes. Independ√™ncias alicer√ßadas em √≥dios pol√≠ticos ou r√°cicos constituem-se em unidades nacionais desprovidas de apoio econ√≥mico e t√©cnico, capaz de valoriz√°-las e faz√™-las progredir. Nacionalismos imprudentes e excessivos cavam a ru√≠na de povos que s√≥ a coopera√ß√£o amig√°vel podia salvar. A miragem do aumento indefinido das riquezas traz as imagina√ß√Ķes em alvoro√ßo: confiantes numa t√©cnica que se afirma de possibilidades ilimitadas, somos batidos por um vento de ambi√ß√Ķes econ√≥micas em todos os graus ‚ÄĒ nos indiv√≠duos, nos povos, no g√©nero humano. E no entanto os homens por toda a parte se mostram desalentados, ansiosos, inquietos, como se a riqueza e as divers√Ķes n√£o trouxessem √†s almas consola√ß√£o nem paz. Os t√£o reclamados direitos da pessoa humana (que muitos julgam ter descoberto agora) parece visarem preferentemente a massa confusa, desumanizada, despersonalizada, e n√£o o homem na integridade e plenitude do seu ser, da sua nobreza e valor infinito.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.

A Eleição Narcísica dos Ideais dos Povos

As pessoas estar√£o sempre prontamente inclinadas a incluir entre os predicados ps√≠quicos de uma cultura os seus ideais, ou seja, as suas estimativas a respeito de que realiza√ß√Ķes s√£o mais elevadas e em rela√ß√£o √†s quais se devem fazer esfor√ßos por atingir. Parece, a princ√≠pio, que esses ideais determinam as realiza√ß√Ķes da unidade cultural; contudo, o curso real dos acontecimentos parece indicar que os ideais baseiam-se nas primeiras realiza√ß√Ķes que foram tornadas poss√≠veis por uma combina√ß√£o entre os dotes internos da cultura e as circunst√Ęncias externas, e que essas primeiras realiza√ß√Ķes s√£o ent√£o erigidas pelo ideal como algo a ser levado avante. A satisfa√ß√£o que o ideal oferece aos participantes da cultura √©, portanto, de natureza narc√≠sica; repousa no seu orgulho pelo que j√° foi alcan√ßado com √™xito. Tornar essa satisfa√ß√£o completa exige uma compara√ß√£o com outras culturas que visaram a realiza√ß√Ķes diferentes e desenvolveram ideais distintos. √Č a partir da intensidade dessas diferen√ßas que toda a cultura reivindica o direito de olhar com desd√©m para o resto. Desse modo, os ideais culturais tornam-se fonte de disc√≥rdia e inimizades entre unidades culturais diferentes, tal como se pode constatar claramente no caso das na√ß√Ķes.

A Multid√£o Embrutece

Assim que muitos homens se encontram juntos, perdem-se. A multidão transporta as suas unidades do presente para o passado e precipita-as de cima para baixo: trata-se de um recuo e uma decadência.
Todo o homem, l√° dentro, converte-se noutro – mas pior. Nas multid√Ķes, a uni√£o √© constitu√≠da pelos inferiores e fundada nas partes inferiores de todas as almas. S√£o florestas em que os ramos altos n√£o se entrela√ßam, mas apenas, em baixo na escurid√£o, as ra√≠zes terrosas. Todos perdem o que os torna diferentes e melhores, enquanto o antigo r√ļstico – que, entre obst√°culos, morda√ßas e a√ßaimos, parecia aniquilado – acorda e muge. Em todas as multid√Ķes, como em toda a Humanidade, os med√≠ocres s√£o infinitamente mais que os grandes, os calmos que os violentos, os simples que os profundos, os primitivos que os civilizados, e √© a maioria que cria a alma comum que imbrica e nivela todo o agrupamento de homens.
Aquele que em cada um forma o seu superior n√£o pode conformar-se e fundir-se – √© a pessoa √ļnica e, portanto, incomunic√°vel. Toda a pessoa se op√Ķe √†s outras, existe enquanto √© diferente, n√£o se pode liquefazer num todo. Mas h√° em cada um de n√≥s,

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Dizer N√£o

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz N√ÉO √† cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da pol√≠cia. Porque a cultura n√£o tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, n√£o √© um modo de se descer mas de se subir, n√£o √© um luxo de ¬ęelitismo¬Ľ, mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz N√ÉO at√© ao p√£o com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pag√°-lo com a ren√ļncia de ti mesmo. Porque n√£o h√° uma s√≥ forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como pre√ßo a tua humilha√ß√£o.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código,

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Da Ideia do Belo em Geral

I РChamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o dissemos, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada, inseparável da forma, como esta o é do principio que nela aparece. Ainda menos devemos ver na ideia uma pura generalidade ou uma colecção de qualidades abstraídas dos objectos reais. A ideia é o fundo, a própria essência de toda a existência, o tipo, unidade real e viva da qual os objectos visíveis não são mais que a realização exterior. Assim, a verdadeira ideia, a ideia concreta, é a que resume a totalidade dos elementos desenvolvidos e manifestados pelo conjunto dos seres. Numa palavra, a ideia é um todo, a harmoniosa unidade deste conjunto universal que se processa eternamente na natureza e no mundo moral ou do espírito.
Só deste modo a ideia é verdade, e verdade total.
Tudo quanto existe, portanto, só é verdadeiro na medida em que é a ideia em estado de existência; pois a ideia é a verdadeira e absoluta realidade. Nada do que aparece como real aos sentidos e à consciência é verdadeiro por ser real,

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A Felicidade n√£o Tem Medida

N√£o duvidas de que a vida feliz seja o supremo bem; logo, se a vida possui o supremo bem, ent√£o √© sumamente feliz. E tal como o supremo bem n√£o pode receber qualquer acr√©scimo (o que haveria acima do supremo?!), tamb√©m a vida feliz o n√£o pode, pois a felicidade n√£o existe sem o supremo bem. Repara: se disseres que algu√©m √© “mais” feliz, tornar√°s poss√≠vel que se diga tamb√©m “muito mais”; e assim ir√°s fazendo in√ļmeras grada√ß√Ķes no supremo bem, quando por “sumo bem” eu entendo tudo o que n√£o tem valor algum acima de si. Se algu√©m √© menos feliz do que um outro, segue-se que preferir√° a vida desse outro (por ser mais feliz) √† sua pr√≥pria; ora, um homem feliz n√£o considera nada prefer√≠vel √† sua vida.
Qualquer destas duas situa√ß√Ķes √© inaceit√°vel: existir algo que o homem feliz preferiria ter em lugar daquilo que tem, ou n√£o preferir ter algo que seja melhor do que aquilo que tem. De facto, quanto mais um homem √© avisado, tanto mais se procurar√° chegar ao que h√° de melhor, e ambicionar√° alcan√ß√°-lo seja de que modo for. Ora, como pode ser feliz algu√©m que pode, que deve mesmo,

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O Egoísmo da Espécie

Os amantes querem pertencer um ao outro, e para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abra√ßam num instante de profunda intimidade para gozarem assim do m√°ximo prazer e da mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer √© ego√≠sta. N√£o h√° d√ļvida que do prazer dos amantes n√£o se pode dizer que seja ego√≠sta, porque √© rec√≠proco; mas o prazer que ambos sentem na uni√£o √© absolutamente ego√≠sta, se for verdade que nesse abra√ßo j√° se confundem num s√≥ e mesmo ser. Mas est√£o enganados; porque, no mesmo instante, a esp√©cie triunfa sobre os indiv√≠duos; domina-os, rebaixa-os, ao seu servi√ßo.

Julgo isto muito mais ridículo do que a situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente. Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso,

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O Homem é um Deus que se Ignora

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: n√£o sei qual, mas existe – dizia S√≥crates soletrando com os olhos da raz√£o, √† luz serena do c√©u da Gr√©cia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da f√© lia no horizonte anuveado das vis√Ķes do profeta esta outra palavra de consola√ß√£o – dentro do homem est√° o reino dos c√©us. Profundo, alt√≠ssimo, acordo de dois g√©nios t√£o distantes pela p√°tria, pela ra√ßa, pela tradi√ß√£o, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irm√£os infelizes, violentamente separados, duma mesma fam√≠lia! Dos dois p√≥los extremos da hist√≥ria antiga, atrav√©s dos mares insond√°veis, atrav√©s dos tempos tenebrosos, o g√©nio luminoso e humano das ra√ßas √≠ndicas e o g√©nio sombrio, mas profundo, dos povos sem√≠ticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta sauda√ß√£o fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na ang√ļstia do seu caos – o homem √© um Deus que se ignora.
Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga!

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√Č Preciso Restaurar o Homem

A minha civiliza√ß√£o repousa sobre o culto do Homem atrav√©s dos indiv√≠duos. Teve o des√≠gnio, durante s√©culos, de mostrar o Homem, assim como ensinou a distinguir uma catedral atrav√©s das pedras. Pregou esse Homem que dominava o indiv√≠duo…
Porque o Homem da minha civiliza√ß√£o n√£o se define atrav√©s dos homens. S√£o os homens que se definem atrav√©s dele. H√° nele, como em todo o Ser, qualquer coisa que os materiais que o comp√Ķem n√£o explicam. Uma catedral √© uma coisa muito diferente de uma soma de pedras. √Č geometria e arquitectura. N√£o s√£o as pedras que a definem, √© ela que enriquece as pedras com o seu pr√≥prio significado. Essas pedras ficam enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua unidade. A catedral as absorve, at√© √†s g√°rgulas mais horrendas, no seu c√Ęntico.
Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Julguei que o Homem resumia os homens, tal como a Pedra resume as pedras. Confundi catedral e soma de pedras, e, pouco a pouco, a heran√ßa desvaneceu-se. √Č preciso restaurar o Homem. Ele √© a ess√™ncia da minha cultura. Ele √© a chave da minha Comunidade. Ele √© o princ√≠pio da minha vit√≥ria.

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Cada Homem Só se Pode Salvar ou Perder Sozinho

Também eu acredito que a existência precede a essência. Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez, e tudo acaba quando ele desiste de lutar. Que todas as paisagens são cenários do nosso drama pessoal, comentários decorativos da nossa aventura íntima e profunda. E que, por isso, cada homem só se pode salvar ou perder sozinho, e que só ele é o responsável pelos seus passos, que só as suas próprias raízes são raízes, e que está nas suas mãos a grandeza ou a pequenez do seu destino. Companheiro doutros homens, será belo tudo quanto de acordo com o semelhante fizer, todas as suas fraternidades necessárias e louváveis. Mas que será do tamanho e da qualidade da sua realização singular, da força da sua unidade, da posição que escolheu e da obra que realizou, que a consciência lhe perguntará dia a dia, minuto a minuto.

Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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Amar Ajuda

Hoje, no dia antes do dia de São Valentim, quero escrever sobre o amor nos outros dias do ano. Ontem foi um deles. Recebi uma má notícia e imediatamente a Maria João recebeu-a como se fosse ela a recebê-la.
Recebemos a m√° not√≠cia e, ao receb√™-la no plural, diluiu-se por muito mais do que dois. O plural de um n√£o √© dois: s√£o muitos. Sentimo-nos como se f√īssemos muitos.
Existe o espalhar o mal pelas aldeias. Mas com o amor, com o casamento de almas que, virando-se uma para a outra, se voltam, viradas, contra o mundo, o mal multiplica-se e exagera-se ao ponto dos dois apaixonados se tornarem numa multid√£o de revoltados que se revolta tanto como se ama.
A boa ideia Рmas talvez errada Рvem de Platão, das duas metades que se encontram para alcançarem a unidade de um só ser completo. Sendo assim, as almas gémeas são apenas duas metades que se completam: precisam de completar-se para se transformarem numa unidade.
Não é verdade. O amor junta duas unidades Рa Maria João e eu, por exemplo Рe faz com que tenham muito mais do que a força de uma só pessoa.

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A Arte e a Filosofia

Nunca ser√° de mais insistir no car√°cter arbitr√°rio da antiga oposi√ß√£o entre arte e a filosofia. Se quisermos interpret√°-la num sentido muito preciso, √© certamente falsa. Se quisermos simplesmente significar que essas duas disciplinas t√™m, cada uma delas, o seu clima particular, isso √© verdade sem d√ļvida, mas muito vago. A √ļnica argumenta√ß√£o aceit√°vel residia na contradi√ß√£o levantada entre o fil√≥sofo fechado no meio do seu sistema e o artista colocado diante da sua obra. Mas isto era v√°lido para uma certa forma de arte e de filosofia, que aqui consideramos secund√°ria. A ideia de uma arte separada do seu criador n√£o est√° somente fora de moda. √Č falsa. Por oposi√ß√£o ao artista, dizem-nos que nunca nenhum fil√≥sofo fez v√°rios sistemas.
Mas isto √© verdade, na pr√≥pria medida em que nunca nenhum artista exprimiu mais de uma s√≥ coisa sob rostos diferentes. A perfei√ß√£o instant√Ęnea da arte, a necessidade da sua renova√ß√£o, s√≥ √© verdade por preconceito. Porque a obra de arte tamb√©m √© uma constru√ß√£o, e todos sabem como os grandes criadores podem ser mon√≥tonos. O artista, tal como o pensador, empenha-se e faz-se na sua obra. Essa osmose levanta o mais importante dos problemas est√©ticos. Al√©m disso,

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A Guerra é Deus

Pouco interessa o que os homens pensam da guerra, disse o juiz. A guerra perdura. √Č o mesmo que perguntar-lhes o que acham da pedra. A guerra sempre esteve presente. Antes de o homem existir, a guerra j√° estava √† espera dele. O of√≠cio supremo a aguardar o seu supremo art√≠fice. Sempre foi assim e sempre assim ser√°. Assim e n√£o de outra forma.
(…) Os homens nasceram para jogar. Nada mais. Todo o garoto sabe que a brincadeira √© uma ocupa√ß√£o mais nobre do que o trabalho. Sabe tamb√©m que a excel√™ncia ou m√©rito de um jogo n√£o √© inerente ao jogo em si, mas reside, isso sim, no valor daquilo que os jogadores arriscam. Os jogos de azar exigem que se fa√ßam apostas, sem o que n√£o fazem sequer sentido. Os desportos implicam medir a destreza e a for√ßa dos advers√°rios e a humilha√ß√£o da derrota e o orgulho da vit√≥ria constituem em si mesmos aposta suficiente, pois traduzem o valor dos contendores e definem-nos. Por√©m, quer se trate de contendas cuja sorte se decide pelo azar quer pelo m√©rito, todos os jogos anseiam elevar-se √† condi√ß√£o da guerra, pois nesta aquilo que se aposta devora tudo,

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